domingo, 26 de dezembro de 2010

Natal


Surpreendentemente, este Natal foi bom.

Na consoada e pela primeira vez que me lembre, havia outsiders familiares, 3 ao todo. Ajudaram com grande empenho o espírito natalício a manifestar-se: duas fizeram calmamente um belo repasto para estar a sair lá pelas 21:00 quando eu chegasse a casa e o outro foi um convincente Pai Natal para a única criança pequena presente (acho que o catraio ficou com algumas dúvidas mas certezas não).

No dia de Natal, a matriarca foi levada a uma das casas da família onde o resto dos descendentes e afins se juntou; apesar de passar o tempo todo a dizer que tinha sido asneira, que estava muito cansada, que havia muito barulho e que queria era ir para a caminha, a verdade é que o seu ultimamente ausente sorriso se manteve...
E um dia inteiro depois ainda se lembrava da maior parte das coisas e pessoas - umas com fantasias à mistura outras sem fantasias mas a presença das pessoas ficou de alguma forma agradavelmente gravada, a embelezar-lhe o dia.

E os especiais que são cada vez mais únicos... Sempre mantendo o amor vigilante que ultimamente me mantém o nariz à tona da água, transmitiam uma serena alegria com pequenas lembranças, os pequenos nadas que são tudo, afinal.
Não se distraíram com a época confusa e cheia de solicitações e sempre que eu entrava em pânico lá estava um sorriso sereno e quente, uma graça que me fazia rir de mim própria, uma carícia no cabelo ou uns braços fortes para me abraçar - e eu sossegava e ficava novamente natalícia...

O Natal nunca cessa de me espantar.

Hélas!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Aniversário


Hoje é o dia do ano em que sinto que fiz alguma coisa de jeito na vida. Alguma coisa importante. Alguma coisa boa. Aquilo que, no final das contas, justifica a existência de alguém: deixar o mundo um poucachinho melhor do que quando cá chegámos.

Para o teu novo ano, desejo-te que consigas ter o que queres e com quem queres. Sei que não será quando queres mas olha, sejamos optimistas: como dizia o Heinlein, são mais felizes!

Para o resto da vida, desejo-te que continues a espalhar a alegria serena e segura que te é tão própria. E que mantenhas, bem enérgica, a vontade de viver os dias que ainda não passaram.

Um beijo para ti, meu caro. Cheio de amor e discreto.

Hélas!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Dorme, meu menino, a estrela d'alva...


Eu não tenho nem ouvido nem voz, com grande pena minha.

Mas cantava isto baixinho à minha cria quando ela era pequenina - quando tinha sono, quando lhe doía a barriga e de modo geral sempre que ela se sentia incomodada, lá vinha o "dorme, meu menino...", mesmo que a intenção não fosse adormecer o bicho - era calmante. Reconfortante. Morninho, carinhoso...

É de uma suavidade extraordinária. Um toque de penas, presente mas leve, acolhedor e livre ao mesmo tempo. É mais ou menos como o fogo da lareira, estão a ver a sensação? Uma âncora de calor, confortante, não obrigatória e segura.

Definitivamente, a raça que concebeu uma canção assim tem alguma coisa de bom.

Hélas

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Se posso sonhar posso fazer


Batatas, batatas, batatas.

Eu a julgar que era uma rapariga de frases originais, articulações que ninguém ouviu antes mas que fazem sentido... Eu inventei - ouviram bem, inventei - a frase "se posso sonhar posso fazer".

Agora e de repente, sem saber como nem porquê, a TV diz-me que não. Que a frase é do Walt Disney e bem conhecida. Ou seja, a TV diz-me que além de plagiadora inconsciente, sou uma ignorante que julga que inventou uma coisa que é do domínio comum...

Haverá realmente alguma frase nova, à face da Terra? Ou já está tudo dito e de todas as maneiras possíveis? Só nos resta a deprimente repetição?

Não pode ser porque eu não aguento isso.

Hélas!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Paz


Tive um sonho lindo
Com estrelas e sóis
luzes coloridas
Uma voz dulcíssima
cantava sorrisos
suaves alegrias
Não via quem cantava
Mas sentia morna
acolhedora
a sua paz feliz

Acordei e soube
Se posso sonhar
posso fazer

Hélas!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

I'm blue


E nem sei porquê.

As festas sempre me alegraram, isto deve ser um trauma de velhice, rais parta o caruncho.

Hélas!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Natal


Como se justifica a nós próprios uma escolha que, seja ela qual for, é má para alguém?

Se escolhermos uma opção, a escolha magoa um. Mas se escolhermos a outra opção magoa outro…
Pura e simplesmente não há escapatória – saímos sempre a perder e vamos sempre magoar alguém de quem gostamos.

Esta é a dança impossível: devemos escolher o alguém de quem se gosta mais - para magoar o outro, de quem também gostamos mas menos.
Como raio se pode fazer uma escolha destas? Medir a coisa informe, pesar as gramas do bem etéreo?...

Mas é sempre feita a escolha - sei perfeitamente que, de forma activa ou passiva, a escolha é sempre feita e terá as consequências devidas.
Só um cobarde pensa que fazer nada não é escolher e eu sou muitas coisas mas não essa espécie de cobarde. Outras talvez mas não essa.

Este é um Natal onde não terei a prenda desejada: alguém que me dissesse “não te preocupes, eu tomo conta desse assunto, vai lá descansada ao teu Natal que ninguém sairá magoado” e fizesse isso mesmo.

Suponho que é apenas um azarito – há montanhas de gente que morre por não ter a água que precisa para beber. E eu tenho muita pena delas mas não apanho um avião para lá, com um carrego de água engarrafada.

A escolha está feita. Quem sabe, um dia perdoarei a mim própria por ela.

Hélas!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Pensamentos


Num mundo ideal, a compaixão seria desnecessária. A inteligência não.

Hélas!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Amor à borla


Nesta época de saldos e promoções, por favor aproveitem e sejam felizes nem que seja por uns minutos.

Já o disse antes e continuo teimosamente na minha: não me venham com conversas sobre amar quem nos ama, ajudar quem nos ajuda e pensar em quem pensa em nós: isso é natural, corriqueiro e o Natal não tem nada a ver com isso. Natal é amar sem juízo e ajudar de sorriso aberto e sem contas; é isso que significa "à borla".

Por isso, meus amigos e meus inimigos... Façam alguém que não o espera feliz - nem que seja só por um bocadinho.
Façam uma festa a um cão vadio.
Dêem um resto de comida a um gato desconfiado.
Façam sorrir uma criança, seja ela inocente ou não.
E sejam felizes também.

Não há nada que se compare ao amor à borla.

Helas!

domingo, 28 de novembro de 2010

Deserto


Estou seca, como já vai sendo costume ao Domingo.

Sem soluções, sem ideias, sem pensamentos, sem sonhos, sem planos, sem remorsos, sem futuro, sem passado... Sequinha como a lenha para a lareira.
Ao menos que arda bem, que aqueça alguém com frio.

???
Olha, afinal havia um pensamento perdido algures, que fixe.

Hélas!

sábado, 27 de novembro de 2010

Objectivo


Amo e sou amada.
Já escrevi um livro (quer dizer, tinham capa e folhas e houve gente que leu, portanto acho que contam), já plantei uma árvore (de fruto!) e já tive um filho (um calaceiro de coração de manteiga, intelecto honesto e espírito livre, a quem não hesito em entregar o futuro).

Já sonhei sonhos loucos e prosaicos. Também já ri e chorei, tanto com coisas próprias como com alheias. Já ajudei e já fui ajudada.

Mas acho, sempre achei, que o objectivo da vida humana é deixar o mundo um bocadinho (piquinininho...) melhor, pelo facto de termos passado por cá. Isso ainda não consegui.

Ora batatas, estou tão cansada e ainda tenho de esfolar tanto...

Hélas!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Choque


Morreu. Ou, mais precisamente, matou-se.

Eu não o conhecia bem, estive com ele em meia dúzia de reuniões. Circunspecto, algo fechado, mas a quem não era alheio um certo humor inglês muito ao meu gosto. Jovem (na minha idade quem tem menos de quarenta é jovem), com 2 catraios em idade escolar.

Quanta dor é necessária para uma pessoa não se lembrar do efeito dos seus actos nos seus filhos?
Quanto desespero é necessário para levar um adulto a não aguentar nem mais um minuto?
Quanta solidão é suficiente para que ninguém lhe trave o passo?

Uma colega dizia-me que "é assustador, hoje tudo nos leva a querer ser super-homens mas isso não existe fora da BD" e tinha razão, claro. Como tinha razão quem me disse que "para uma pessoa forte pode ser simplesmente impensável admitir uma derrota pessoal (e qualquer fragilidade é uma derrota pessoal para uma pessoa forte; significa simplesmente que não conseguiu)".

Foi um choque, confesso. Como disse antes, não o conhecia bem mas a imagem era de uma pessoa equilibrada, controlada. De certa maneira a imagem era verdadeira mas este tipo de controlo é discutível, não é?

E deixa-me a pensar, o facto do choque ser generalizado: nunca sabemos o que realmente se passa dentro da cabeça das pessoas. Num minuto trocam graçolas connosco, no seguinte deitam-se ao Metro.

Concordo com a minha colega: é assustador. E triste, também.

Hélas!

domingo, 21 de novembro de 2010

Velhice


Eu sempre disse que é tudo uma questão de prioridade.

O que não torna mais simples o problema, antes pelo contrário; as prioridades são voláteis e têm a ver com a maneira como - a todo o instante - avaliamos a realidade que nos rodeia e o valor que lhe damos. Se qualquer coisa absolutamente essencial para nós pode esperar 5 minutos, passa-lhe à frente naquela hora exacta uma outra coisa com muito menos importância mas que não pode esperar minuto nenhum.

Eu costumava reagir a isto instantaneamente. Computava tudo em milésimos de segundo e agia sem dúvidas. Suponho que fui muitas vezes de uma enorme injustiça e de uma enorme arrogância, tão convicta estava de que fazia o que era de facto correcto...

Agora já não consigo fazer isso. Estou permanentemente a pensar que se calhar não estou a ver bem a coisa, se calhar há um aspecto fundamental de que não me estou a dar conta... Se calhar, se agir assim estou a estragar tudo no assado. Se calhar, ao pensar nisto é o meu egoísmo que fala, se calhar ao fazer aquilo estou a desperdiçar um tempo inadiável, se calhar não vi o pôr-do-sol porque estava a lavar o chão da cozinha e amanhã o pôr-do-sol será diferente e o chão da cozinha vai estar sujo novamente.

Não sou mais feliz por já não ser capaz. Duvido que alguém seja mais feliz por eu já não ser capaz.

Não há dúvida que a velhice não traz sabedoria. O que a velhice traz, meus amigos, é a consciência que de que falhámos no que nunca julgámos falhar.
E isto é uma grande chatice.

Hélas!

sábado, 13 de novembro de 2010

Estupidez


Que diabo, não sou estúpida!

Li isto e aquilo, este e o outro. Ouvi este e aquele, contaram-me da outra. Meditei friamente sobre mim própria. Falei com este, escrevi àquela.
Pensei, pensei e pensei.

Não tenho soluções e se alguma coisa nasceu de tanto esforço foi constatar que há problemas que não posso resolver, ou pelo menos que não posso resolver sozinha, como gostaria.

Em consequência, constatei na prática o que já sabia em teoria: resolver problemas em companhia é muito complicado. Porque a companhia não é como eu.
Não tem os mesmos valores que eu - tem outros que eu não tenho.
Não tem as mesmas prioridades que eu - tem outras que eu não tenho.
Não tem o mesmo ponto de vista que eu - tem outros, que não são o meu.
Não vê as alternativas como eu - vê outras, que eu não vejo.

Não esqueçamos que, para a companhia, sou eu que não vê as coisas como elas são. Some-se o facto de que a companhia é superior em número e as mais das vezes não se apercebe que as discrepâncias são individuais, de elemento para elemento da companhia - não são pontos de vista comuns em discrepância com o meu ponto de vista, são pontos de vista individuais, em discrepância entre eles e que têm em comum a discrepância com o meu ponto de vista.

No fim, o problema que todos querem resolver depende da maneira como todos estes desencontros são geridos. E toda a companhia o gere de forma individual e diferente.
Uma salganhada que me custa a gerir, confesso.

Que diabo, parece que sou mesmo estúpida, afinal.

Hélas!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Sarna


É extraordinário como a vida encurta o tempo.


À medida que a vida passa, o tempo livre desaparece - não é por nada mas suspeito que faz parte da natureza humana arranjar sarna para se coçar.

Isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Arco-íris


Dizem que o azul é frio
E que o vermelho aquece
Ao meu gosto vadio
Os dois lhe apetece.

Render-me ao passado
Mas viver o presente
Apreciar o traçado
Reconhecer a nascente.

Hélas!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Outono


Estava sol.
Depois choveu.
Depois fez sol outra vez.
Depois choveu.
Agora está sol.
Este dia é o retrato da vida.

Mas é no Outono que se comem castanhas, quentes e boas, quentes e boas!

Hélas!

domingo, 7 de novembro de 2010

Dores


Oiço uma auxiliar a falar mansamente com uma velhota: "D. X, não seja assim porque depois a sua filha ralha connosco porque gasta muitas fraldas, vá lá, tenha paciência... Já lá vamos daqui a bocadinho, é só um bocadinho. Assim a sua filha já não ralha connosco... É só mais um bocadinho, D. X, está bem?"

A ternura na voz sente-se.
Doi-me a impotente auxiliar com ternura e sem senso, o local, a filha que tem de contar as fraldas, a D. X que não devia fazer tanto xixi e se sente triste por pesar à filha que conta as fraldas.
Rais parta a vida, estou como o leão moribundo: antes a morte que tal sorte.

Mas não podemos escolher, estamos sempre impotentes face à vida. E a vida é sempre tão cruelmente indiferente.

Hélas!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

TPC


Analisar a influência da goiaba na contingência da vida.

Hélas!

domingo, 31 de outubro de 2010

Demissão


É tão fácil (mas tão fácil mesmo!) a ausência!

Praticamente chama por nós. Basta olhar para o lado, reparar no cão ou nas pedras da calçada e tumba! Lá estamos nós confortavelmente ausentes do que nos pesava tanto e agora nem nos lembramos.
Sim, pesam-nos outros pesos - mas não aquele que nos parte as costas.

Não sei o que pensar disto, certamente que não é saudável uma vida obcecada. Mas também, esquecer um peso sério por mor de 3 dedos de conversa, um bonito por-do-sol ou a complicadice da vida diária... Não me parece saudável tão-pouco.

Talvez o segredo esteja no tempo: será bom esquecer por umas horas, por mais do que isso já não será tão bom, será uma coisa mais tipo demissão.
Por umas horas, quando houver outrém que providencie uma ausência sem nota - de outro modo serão horas roubadas a um mendigo delas.
Isto é tão tortuoso como o Homem - se houver sempre outrém, nós podemos perfeitamente ir curtir para outra freguesia e o outrém que responda às necessidades... Que nós estamos ocupados a ver o por-do-sol e a viver a nossa vidinha.

Esquecendo o outrém, estragamos a nossa vida?!? Talvez. Ou talvez não, talvez estejamos apenas a fazer jus à vida, qualquer vida, vivendo-a inteira: o seu bem e o seu mal.

Afinal, do futuro ninguém sabe mas o presente está aqui agora. O que fizermos hoje será sempre o que podemos fazer sejam quais forem as circunstâncias.

O que não fizermos... Não sei mas a vida nunca volta para trás.

Hélas!

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cease the day


Tanto insistiram que agora vivo um dia de cada vez - dizem que é assim que somos felizes, que aproveitamos a vida; e eu quero aproveitar a vida e ser feliz.

Então bem, seja.
Um dia de cada vez, o passado não existe e o amanhã não passa de um boato.
Ok. Está adjudicado, deitei fora o calendário.

Agora é que ninguém me convence a fazer nada.

Hélas!

sábado, 23 de outubro de 2010

Paraíso


Gostava de estar numa ilha deserta de um mar quente - eu, o meu homem e um robot a servir caipirinhas e petiscos.
Não para férias, para viver assim mesmo.

Livros aos quilos. Net, obviamente.
De tempos a tempos, um animador mecânico para nos pôr a mexer, sem grande insistência.
Um bailado decente, de quando em vez.
Uma voz especial, de vez em quando.

Nunca hei-de realizar este desejo, isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Rio


O passado veio de visita mas já se foi embora, é muito bem educado. O futuro virá um dia eventualmente, ainda ando a educá-lo. O presente, esse fica comigo; é de confiança e nunca me falta, quer eu aprecie ou não.

Não sei bem o que quer isto dizer mas os factos falam por si. Quem me dera que falassem a minha língua!

Hélas!

sábado, 16 de outubro de 2010

Nunca digam o que pensam ser verdade


Cheguei a esta brilhante conclusão após horas e horas a meditar na contingência da vida e na lógica da batata.

Não dizer a verdade no geral tem imensas vantagens: a malta fica feliz e disposta a alinhar connosco; ficamos com fama de ser uma pessoa simpatiquíssima, potenciando o desconhecido futuro; evitam-se egos feridos e outras asperezas que dificultam as relações sociais.
E não custa nada: basta dizer aquilo que o outro quer ouvir. É fácil, barato e dá milhões de recompensas.

Já dizer a verdade, por seu turno, é difícil e em geral só dá prejuízo - são escassas as pessoas capazes de lidar com a verdade dos outros; independentemente de gostarmos delas ou não, são raridades. A maioria de nós acarinha a sua verdade e tudo o que não se encaixe perfeitamente nisso é totalmente mentira, uma suja e maldosa mentira com fins inconfessáveis.

O que significa que quando se diz a nossa verdade no país dos outros o mais provável é as fronteiras fecharem-se e sermos declarados persona non grata, sem apelo nem agravo.

São raríssimas as pessoas interessadas na verdade dos outros, mais raras ainda as que compreendem que se trata de uma oferta preciosa (embora necessite de câmbio para a nossa moeda pessoal) e quase inexistentes as que são capazes de fazer esse câmbio tão delicado.

Ainda por cima, dizer a verdade e ouvir a verdade de forma construtiva implica pelo menos duas pessoas que sejam capazes de manter o controlo racional e a objectividade, no país dos sentimentos... E essa raça aparentemente não existe, o que quer dizer que a verdade normalmente é destrutiva, mais valia estar quieto.

Ou, de forma simples: nunca digam a vossa verdade àqueles que estimam, antes aceitem as suas deficiências de forma elegante (há muitos anos, a pessoa mais elegante que alguma vez conheci ensinou-me que não se diz nada quando cheira mal de repente no elevador porque deixaria o culpado desconfortável; a essência da elegância é conseguir que todos os presentes se sintam bem).

Às vezes sou tão lerdinha, batatas. Se este raciocínio vale as horas nele investidas!...

Hélas!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Passado


Devia saber perfeitamente.
Mas mesmo assim fiquei a ver a filmagem de há 8 anos atrás numa ocasião muito feliz, mas que estupidez! Caramba, estou careca de saber que memórias visuais só com mais de vinte anos...

Éramos todos tão jovens, tão felizes, tão amigos, tão inconscientes do futuro! Olha, que novo estava este há tão pouco tempo, repara que alegre está fulana... Olha, o cicrano, se eu soubesse que afinal o gajo era capaz do que fez agora...

É por estas e outras que não saber o futuro é uma benção. A felicidade daquele dia ninguém ma tira.

Hélas!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tempo


Quando o tempo se prolonga,

Preguiçoso,
mole,
é.
Mas quando o tempo foge,
diligente,
esguio,
foi.

A diferença absurda
Absolutamente
Incrivelmente
Simplesmente
Semântica,
Enlouquece-me.

Hélas!

domingo, 10 de outubro de 2010

Exactidão


Estamos exactamente a 10-10-10 e são 10:10:10 (da noite).

Depois não digam que eu não avisei.

Hélas!

sábado, 9 de outubro de 2010

Futuro


Estava a ver uma porcaria qualquer na TV, não me apetecia fazer nada além de desligar o cérebro. No fim e em voz off, havia umas considerações filosóficas, daquelas de trazer por casa; desta feita era de que a pessoa sente-se definida pelo seu passado e por isso é que é tão angustiante a amnésia, é como uma amputação de si própria.

Parece ser essencial ao equilíbrio humano ter as suas pessoas, que são suas porque é à vida delas que a pessoa pertence. O não pertencer à vida de ninguém é angustiante, faz o indivíduo sentir que não existe embora esteja fisicamente lá a pensar nisso, igual ao que era antes de perder a memória.
O que simplesmente quer dizer que emocionalmente um indivíduo necessita de saber que a sua existência afectou alguém além dele próprio; esta é uma das razões para ser mau - o que é necessário é afectar, e afectar negativamente é muito mais acessível que afectar positivamente.

Mais interessante é o que a voz off afirmou no fim: quem faz o nosso passado somos nós próprios, a despeito do que quer que seja que nos aconteça. Somos nós, é a nossa reacção aos acontecimentos, que tem importância para o nosso inconsciente, não os acontecimentos em si próprios.
O que quer dizer que maltratar uma criança não tem maior importância que a de forçar a criança a ser formada ao lidar com isso. Já pensaram bem nas implicações deste raciocínio?!? Mete medo na alma mais afoita.

Mas eu acho que a voz off tinha razão. Talvez não a 100% porque há coisas exteriores que quebram uma pessoa, estragam-na sem conserto. Passa a não ser bem uma pessoa, um ser livre. Em vez disso é um aleijado que não pode representar a raça nas olimpíadas de Júpiter. Mas talvez isso fosse exactamente o que eles queriam dizer: há pessoas que conseguem, outras ficam pelo caminho... Mas todos podem alterar esse estado de coisas, a qualquer momento.

Faz todo o sentido sermos definidos pelo nosso passado, uma vez que o nosso passado foi feito por nós. Isto é crucial porque se fizer porcaria hoje, amanhã terei um passado de porcaria... E sendo definida pelo meu passado, serei eu própria uma porcaria.

Ora batatas, para quem queria desligar o cérebro a escolha não foi a melhor. Como será que isto vai afectar o meu futuro?!?

Hélas

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Inconstância divina


S. Pedro chorou lágrimas doces quando as minhas férias chegaram ao fim.

Quando eu me vinha embora daquela terra de ciganos, contrabandistas, algarvios e outra gente de mau porte, havia folhas arrancadas às árvores e a maralha andava curvada, em homenagem. Tal era o seu fungar desgostoso.

Quando cheguei a Lisboa o pranto dos céus não permitiu o normal descarregar da bagagem e por momentos julguei que alguém com asas desceria à terra envolto em luz para me ordenar de viva voz que voltasse para casa, já!

Hoje quando saí para o trabalho, o dia estava frígido de desgosto e as folhas outonais dançavam danças de saudade no chão.

Mas que querem? O amor dos santos é inconstante - à tarde tive de despir o casaco, pois S.Pedro anda a fazer pé de alferes a outrém...


Hélas!

sábado, 2 de outubro de 2010

O outro


Nunca nenhum outro pode ser nós e vice-versa. Ninguém sente as nossas dores como nós, assim como nós somos incapazes de sentir a dor dos outros como ele as sente; as dores dos outros são sempre mais fáceis, mesmo quando reconhecemos que são difíceis e dolorosas. Por vezes até achamos que eles escolheram aquele destino, o que de uma forma tortuosa nos iliba de não nos sentirmos tão mal quanto nós próprios achamos que nos devíamos sentir mas não sentimos...

Quando se desabafa com alguém e se conta o infortúnio, o resultado é sempre igual: quem desabafa tem um alívio temporário mas fica tudo na mesma. É mais ou menos o mesmo que quando se vomita por causa de uma intoxicação alimentar: há um alívio pontual mas depois continuamos tão mal como antes.

Vai daí que aqueles que ajudam mais gente são aqueles que não se identificam com ninguém, solitários na sua alta esfera. São esses que conseguem ajudar o José à 2ª feira, a Maria à 3ª feira, o Manel à 4ª feira, o Jaquim à 5ª e a D.Florípedes à 6ª: ao sábado saem com a família e ao Domingo descansam, como o Senhor.
Qualquer outro ficaria assoberbado só com o José, que precisa de ajuda todos os dias - aliás como os outros todos.

E depois, pergunta-se. Sim, e depois? É melhor ajudar o José todos os dias ou fazer como o altaneiro benfeitor, que ajuda tanta gente? É certo que o José se suicidou numa 5ª feira mas em contra-partida o Jaquim não, nesse dia até se riu com aquela falta de dentes tão cómica.

Eu não faço a mínima ideia, julgam que foi para isso que andei a queimar as pestanas?!? Eu cá estudei electrões e mesmo disso só aprendi que são tímidos.

Hélas!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Não há direito


Eu sei ler, escrever, contar e falo 2 línguas, o português (língua materna) e linguagem dos gestos, que aprendi no estrangeiro.

Não sou careca. Tenho um olho para ver ao longe e outro para ver ao perto, pelo que não necessito de bengalas oculares apesar de ser um bocado pitosga - têm de concordar que não é qualquer um. Além disso, corto sozinha as unhas dos pés e das mãos, mesmo as da mão direita!

Mantenho este blog e faço comentários noutros, o que é reconhecidamente prova de excelência intelectual e psíquica. Além disso sou fina apreciadora de boa soneca, boa comida, boa bebida e boa companhia.

Como é que uma rapariga tão prendada se vê na iminência do fim das férias de verão, assim de repente e sem apelo nem agravo?

Tenho de ir trabalhar, na próxima segunda-feira?!? Batatas, se eu até sei andar de patins e de bicicleta!

Hélas!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Paredes


== Actualização gráfica para sublinhar o meu ponto de vista, nas conversas extemporâneas com Funes, Blimunda e Mofina; também é falta de inspiração mas isso agora não interessa nada ==

Tenho uma parede luxuriante (não é bem uma parede, é mais um bocado dela mas enfim, isso já são pormenores), rica de flores e borboletas, tudo natural ou construído, super-populada, apertam-se as cores e as formas e contidamente agridem o circundante espaço nu.

A outra parede em frente tem 3 formigas. Solitárias buscam o carreiro ou a felicidade ou lá o que as formigas buscam; estão sozinhas, negras num deserto inóspito de brancura.


Gosto destas paredes.

Hélas!

sábado, 25 de setembro de 2010

Momento


A TV está desligada.

No canto, o homem canta baladas quase em surdina, acompanhando-se a si próprio à guitarra. Do outro lado da sala estou eu, a vadiar na rede.

Quando ele pára à procura de uma nota fugidia, eu refilo imediatamente, agreste: Atão? Ele olha para mim espantado, não tinha dado conta que eu estava dependurada nas cordas da guitarra como roupa a secar, presa pelas molas da sua voz. Sorri: Já vai, pá! e os sons voltam. Fluentes uns, hesitantes outros... Já não refilo.

Algumas das letras são surrealistas, o fado no seu melhor a tentar fazer chorar as pedrinhas da calçada, outras são corações despedaçados da mesma forma mas expresso com mais arte; alguns são lamentos desesperados, outros pura alegria.
Todos eles me tocam algures.

Lá fora não se ouve cão, gato ou grilo; tão-pouco rádio, TV ou vozes.
Dir-se-ia que o Chinicato se uniu a ele para me proporcionar mais uma noite que chamarei a mim quanto necessitar de paz.

Há malta com sorte, não há?!?

Hélas!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ummmmmhhh...


Não adianta teimar. Hoje em dia e na minha realidade actual, só mesmo mojitos. Quem sabe, uma caipirinha; dá muito trabalho mas veremos.

Este mundo está à beira do abismo mas eu estou lá, na linha da frente!

Hélas!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Cantai a vida que a morte é muda


Cantai a alegria do Sol e a ternura da Lua e, quando nem o Sol nem a Lua se mostram, cantai as nuvens pesadas que nos fazem companhia.

Cantai as folhas do Outono e as flores da Primavera, cantai o riso da alegria e as lágrimas do desgosto; cantai o andar pesado do vagabundo e o gesto solto da bailarina, cantai o picar da vespa e o voo da andorinha.

Cantai a água fresca da nascente no Verão, cantai o fumo da lareira do Inverno, cantai a bebedeira da borboleta e a disciplina da formiga; cantai a inocência do animal que corre e os montes que ao longe se quedam, cantai o ontem que morreu e o amanhã que nascerá.

Cantai o peixe que nada e o pássaro que voa, cantai o vento que sopra e a chuva que molha, cantai o dia que nasce e a noite que cai. Cantai o mundo todo por inteiro, cantai aquilo que é e aquilo que não é; cantai o sonho e o pesadelo que podiam ter sido e não foram ou que podiam não ter sido e foram.

Cantai os que se aproximam e os que se afastam, cantai quem compreendem e quem não percebem, cantai quem ajuda em horas de necessidade e quem foge ao sacrifício, cantai os que vêem e os que são cegos, cantai tudo o que à vossa porta passe. Ou que não passe.

Cantai, que eu não tenho voz.
Mas tenho ouvidos.

Hélas!

domingo, 19 de setembro de 2010

Um conto em Setembro


Jazia deitado na cama, enrolado sobre si próprio.

Mergulhado em sofrimento amorfo, sem esperança, imerso num cansaço entranhado nos ossos, um desânimo cuja profundeza não tinha medida. Não estava desesperado, o desespero leva à acção; estava... desesperançoso, um estado em que tanto a esperança como a falta dela não têm lugar.

Tinha os olhos secos - o choro é uma reacção à tristeza mas a tristeza requer razão e ele estava para além disso. O cérebro tinha-se ausentado num desligamento automático provocado por mecanismos de segurança interna - se pudesse pensar, teria já feito asneira - a natureza é sábia.

Ouviu ranger a porta mas tudo o que não exigisse uma acção imediata e inadiável era trivial e podia ser ignorado. Ignorou o ruído.

Assim esteve, muito e muito tempo. Quando a sede se tornou inadiável, levantou-se lentamente e foi à cozinha.

A porta estava entreaberta e em cima da mesa estava uma pétala. Pegou-lhe: estava murcha mas cheirava bem. Inexplicavelmente sentiu-se melhor, capaz de aceitar que nunca poderia providenciar por inteiro.

Desde que não tivesse medo nem egoísmo, que não colocasse em outros o próprio peso ou culpa, que não renegasse passado ou futuro, que não fugisse à própria incapacidade, a necessidade que não podia satisfazer seria como aquela pétala: murcha mas com aroma a paz.

Nunca mais fecharia a porta da cozinha - abençoado visitante, o que assim lhe devolvia a vida.

Hélas!

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Ah! Pois é...


Eu queria ser feliz. Portanto, queria que aqueles de quem gosto fossem felizes (provavelmente só seriam felizes se as pessoas de quem gostam fossem também felizes, uma reacção em cadeia que só por si inviabiliza qualquer concretização).

Querer ser feliz não é inteligente, há que querer a paz no mundo, o fim das guerras, ganhar sozinho o jackpot do Euromilhões, ser pago para sonhar, ter uma varinha de condão, coisas assim, concretas - só por coisas concretas nos podemos lançar em perseguição, estudar, construir estratégias, sei lá, gastar anos.

Não me apetece gastar anos numa coisa que depois de obtida se revela uma decepção - para decepções dessas bastam-me os anos investidos em pessoas que julguei incorrectamente. Demorei cinquenta anos a perceber isto mas mais vale tarde do que nunca, diz o povo supostamente ignaro.

Já não quero ser feliz, agora quero não ser infeliz. Mas parece que é igualmente difícil, que isto da ingrícola é tramado: ou chove de mais ou de menos, ou faz calor ou frio, ou está sol ou sombra... Mas sempre no momento errado, ou no local errado, ou nas circunstâncias erradas.

Hélas!

sábado, 11 de setembro de 2010

Cansaço


Não sei.
Não sei nada,
Por amor de Deus
Não mo perguntem!
Porque saberia eu
Se vocês não sabem?

Não posso.
Não posso nada,
Por amor de Deus
Não mo peçam!
Porque poderia eu
Se vocês não podem?

Estou cansada.
De tanto e tantos.
Por amor de Deus
Acordem.

Hélas!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Slow dance


Não é meu, obviamente. E embora eu não saiba o nome da autora, aqui fica a minha homenagem:

SLOW DANCE

Have you ever watched kids
On a merry-go-round?
Or listened to the rain
Slapping on the ground?
Ever followed a butterfly's erratic flight?
Or gazed at the sun into the fading night?
You'd better slow down.
Don't dance so fast.
Time is short.
The music won't last.

Do you run through each day
On the fly?
When you ask "How are you?"
Do you hear the reply?
When the day is done
Do you lie in your bed
With the next hundred chores
Running through your head?
You'd better slow down
Don't dance so fast.
Time is short.
The music won't last.

Ever told your child,
We'll do it tomorrow?
And in your haste,
Not see his sorrow?
Ever lost touch,
Let a good friendship die
Cause you never had time
To call and say "Hi"?
You'd better slow down.
Don't dance so fast.
Time is short.
The music won't last.

When you run so fast to get somewhere
You miss half the fun of getting there.
When you worry and hurry through your day,
It is like an unopened gift....
Thrown away.
Life is not a race.
Do take it slower
Hear the music
Before the song is over.


Hélas!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Don't Judge Too Quickly


Como já disse - acho que várias vezes, bolas... - há obras de arte na publicidade.
Como todas as obras de arte, podem ser lidas/vistas/ouvidas/ compreendidas a tantos níveis...



Este é óptimo. Faz-me pensar nas vezes todas em que temos a certeza do que se passa... Luto contra isso mas é assustadoramente fácil cair na ratoeira. A maldade propaga-se com muito mais facilidade que a bondade e, deixem que vos diga, este tipo de conclusões são sempre para pensar mal de alguém.

O que isso diz de nós próprios...

Hélas!

domingo, 5 de setembro de 2010

Assuntos, assuntos...


Apetece-me escrever mas não sei o quê.

Podia desfolhar um rol de infelicidades, chorar o egoísmo do mundo e a contingência da vida; mas não é isso que me apetece, além de que dá uma trabalheira a despersonalizar a escrita de forma a não se reconhecerem a Maria e o Manel e mesmo assim o texto ser compreensível.

Podia falar dos mecanismos de auto-defesa que se adquirem para não sofrer e não enloucar mas que diminuem drasticamente a nossa humanidade... Não, também não me apetece ir por aí, talvez outro dia.

Deixa ver, que tal um artigo cheio de humor sobre as Amazonas, que cortavam o seio direito para ter melhor pontaria com o arco? Ná, ainda me saia uma diatribe sobre a exclusão social dos canhotos.

Mais assuntos, mais assuntos, deixa ver... O abandono dos animais no verão? Já escrevi sobre isso, além de que o verão já acabou.
Incêndios? Também não, esse assunto já enjoa de tanto que se diz e tão pouco que se faz, pobres bombeiros.
A Casa Pia? Não.
A política que não existe, apesar de existirem imensos políticos? Não, hoje não me apetece gozar com isso.
Parentalidade, família? Ui, nem pensar.
Educação? Não, estou demasiado desfasada da realidade.
Amizades? Hoje não. Tenho-as, hoje isso chega-me.
O dr House? Esse é para ver, não serve para filosofar.
Burros! Sim, burros é um excelente tema. Além do Juliano Silvério ser um tipo bestial, a transversal raça burrófona tem imensos traços interessantes.

Caramba, agora que descobri, já não me apetece escrever mais - belo retrato da raça, quando vê ao longe o que tanto procurou, senta-se a descansar.

Mas os onagros ficam para a próxima vez - é um assunto fascinante, a vários níveis!

Hélas!

sábado, 4 de setembro de 2010

Expertise


Os entendidos dizem uma coisa mas eu vejo outra quase oposta.

Devo confiar no que vejo ou na sabedoria de quem estudou o assunto e tem anos de experiência? A experiência inclui muita prática em mentir descaradamente.

Tanto num caso como noutro não há muito que eu possa fazer directamente e portanto parece irrelevante a diferença; mas não é, há aspectos colaterais que beneficiariam desse conhecimento.

Hélas!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ninguém é insubstituível


Tenho de voltar a ler o Kafka, mais exactamente a história do homem-barata.

Lendo outra e outra vez talvez perceba, porque eu acho que na realidade toda a gente é insubstituível. Claro que se pode viver sem uma pessoa, seja ela quem for, mas também se aprende a viver sem pernas e braços - alguém quer defender que são substituíveis?

Poder viver sem algo ou alguém não quer dizer que esse algo ou alguém não é insubstituível, quer dizer que o homem se habitua a tudo, como as baratas.

Ora batatas, voltei ao mesmo - quando li esta história pela primeira vez fiquei que tempos a pensar que a questão não era a família ter aprendido a viver sem o homem, a questão era o homem ter aprendido a viver barata.

Hélas!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Dúvida


Está internada outra vez.

Desta feita vai dormir na maca - não havia camas livres. Vá lá que não foi preciso ficar no corredor, a sua desgraça exposta publicamente a quem passa. Mas não, arranjaram uma parede livre numa camarata cheia: as pessoas que trabalham nos hospitais não são de forma alguma desumanas. Aprendem a defender a sua sanidade mental contra a rudeza da realidade mas, sendo possível, evitam instintivamente agressões à dignidade humana.

Devo ficar agradecida pela parede protectora ou furiosa por uma pessoa velha, frágil e doente, acamada há mais de um mês, passar a noite - e será só uma? - numa maca, coisa concebida para se estar um par de horas mas onde ela já está há mais de 10? Um colchão firme - duro, para frágeis ossos com pouca carne! E se eu começar a raciocinar que são ossos e pele já martirizados por tanto tempo de inactividade forçada, formam-se nós onde eu nem sabia que havia corda. É uma área escassa e escorrega-se por ali abaixo até os pés entrarem pelos espaços existentes do fim da maca, coisa impossível de desenvencilhar no actual estado de confusão mental.

Definitivamente não é adequado a uma descansada noite de sono. Mas talvez a exaustão de um dia passado nas Urgências disfarce o incómodo... Espero.

Ainda não consigo mandar tudo e todos às urtigas, fazer tábua rasa de tanto anos de tanta gente na Faculdade de Medicina, borrifar-me para os estudos relevantes e estatísticas de hospitais. Mas já estive mais longe, confesso.

Hélas!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Torrada com manteiga


Dei-lhe um bocado de torrada cheio de manteiga mas antes de lhe deitar o dente o canito olhou para mim com um ar de tal forma interrogativo que me vi obrigada a interrogar-me também: porque carga de água tenho eu a mania de que o espírito crítico deve estar sempre ligado, quer se trate de torradas com manteiga ou questões momentosas de ética?!?

Só me traz dissabores, esta mania. Leva-me a falar quando devia estar calada, a agir quando devia estar quieta, sempre a chatear os outros e a mim própria porque o risco está torto quando podia perfeitamente e sem esforço extra estar direito.

É isto e o vício de dizer a verdade quando ela não me é pedida. Já me meti em vários molhos de brócolos por causa disso e não aprendo, continuo a dizer a minha verdade - tenho a mania que devo dizer o que realmente penso em vez de sorrir com ar pachola e manter intacta a superfície do lago. Especialmente quando gosto do tipo que vai no barco, parece um contra-senso mas não é.

Não sou fã de terramotos, prefiro a água mole em pedra dura. Mas a água deve ser limpa e clara, se não a pedra mancha...

Razão tem o meu vizinho do cimo das escadas, quando diz que sou chata como o caraças (também diz que eu sou torta mas isso é disparate - chata com estas coisas reconheço que sim mas torta acho que não sou - falta-me maldade. É maldoso, o meu vizinho).

Hélas!

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Isto tem dias


Hoje foi um dia difícil, contaram-me. Tiveram de fazer manualmente uma operação que em geral é autónoma, serena e discreta; isso acarretou esforço, dor e humilhação, uma impotência que dói... Foi mau, pronto.

Foi com esta frase que hoje fui recebida, "Nunca mais, nunca mais!" e quando eu respondi "mas tu foste enfermeira, sabes que às vezes não há alternativa..." o silêncio e a impotência desesperada que me responderam fariam a felicidade de um pintor talentoso mas a mim, sem qualquer dom para as artes, apertou-me o coração.

Depois o quadro mudou - contou coisas imaginadamente reais de forma convicta e quando chegou o neto favorito, riu-se com ele, uma galhofa pegada sobre pequenos disparates como escovas de dentes para cães e a formação de uma banda de garagem a cantar "Ai, ai, ai, minha machadinha..." acompanhada por gaita de beiços. Sorria um sorriso todo torto, muito contente.

Quando a conversa derivou para o fisioterapeuta que a levanta sem esforço e a faz andar (e que é um belo homem, diga-se de passagem) o neto mete-se com ela e ela ri-se, uma alegria tão... inocentemente alegre. Eu digo-lhe "Tu estás muito saída da casca, hoje!" e ela ri-se novamente e diz "É que ele levanta-me assim!" e faz um gesto aéreo, que significa o poder da força que ela não tem.

Não a via alegre há tanto tempo. Um sorriso de alegria, especialmente torto, vale tanto!

Hélas!

sábado, 21 de agosto de 2010

Laços


Tenho várias irmãs de sangue, fantásticas nas suas diferentes inocências e purezas e a quem nunca telefonarei numa noite pessoalmente sombria. Estou certa que me responderão quando eu pedir (têm provas dadas, qualquer uma delas) mas nunca as chamarei por necessidade própria e elas nunca adivinharão nada que eu não lhes disser.

Tenho outras irmãs, não de sangue nesse sentido comum mas que me correm nas veias. A qualquer delas, se telefonar às 4:00 da manhã atendem-me e não ficam tontas; se for caso disso metem-se no carro e vêm ter comigo se não for, dão-me na cabeça, chamam-me nomes e aí posso eu ir dormir descansada.
Com qualquer delas posso dar-me ao luxo de confessar receios idiotas, ser irracional, entrar em pânico ou chorar; elas ouvem e vêm ter comigo se for caso disso e se não for desancam-me e põem-me novamente na linha.

Muita coisa que não digo elas adivinham; e quando nego convictamente olham para mim com aquele ar e não dizem nada, aceitam as minhas limitações tranquilamente. Tal qual eu faço com elas. Tudo sem subir ou descer um grau nas nossas considerações. É espantoso, não é?

Não me devem nada nem eu a elas, apenas aceitamos tranquilamente os nossos defeitos (ninguém é santo, pois não?) e nunca traímos a confiança mútua, seja porque razão for.

Os ventos e as marés fizeram as nossas vidas cruzarem-se, o resto veio dos seus espíritos leais. Obrigada, irmãs de coração.

Hélas!

domingo, 15 de agosto de 2010

A coisa do tempo


Alguma vez mais te levantarás e do alto do teu metro e sessenta afirmarás orgulhosa que não precisas de nada nem de ninguém?

Alguma vez poderás dizer novamente e sorrindo que não era preciso, francamente..., como dizias antes quando recebias um presente (e eu ralhava, ralhava...)? Alguma vez mais na tua vida poderás menosprezar uma oferta? Alguma vez mais poderás escolher? Poderás alguma vez mais na tua vida ser livre?

Não e este facto derrota-me. A batalha é apenas contra as pequenas tristezas, os pequenos mal-estares, coisas pequeninas, a boca seca, o guardanapo que falta, a náusea, a dor de barriga, a hora que custa a passar. Irrelevante para o mundo inteiro mas que é agora inteiramente o teu mundo...

Tenho uma foto de uma pintura tua na parede: um sorriso à Gioconda mas com os olhos e a pose diferentes. Determinados, testemunham a vontade férrea da altura em que eras assim.

Mas o Tempo é todo poderoso. Transforma em lamurias o mais nobre discurso, em gemidos o sorriso estóico, em súplica o orgulho silencioso.

Haverá quem diga coisas e loisas, uns com razão, outros sem ela; eu cá só digo que a coisa do Tempo é cega, surda, imprevisível e amoral. Muito sinceramente, espero morrer antes de lhe cair nas garras.

Hélas!

sábado, 14 de agosto de 2010

O tempo da coisa


O Homem é temporal; os seus sentimentos e as suas razões são influenciadas pelo tempo em que acontecem - é diferente ser ignorado em criança ou em adulto, estando doente ou saudável, etc., etc. - e portanto as suas acções têm também de ser avaliadas com valores diferentes consoante o tempo em que acontecem.

Dada esta premissa, a mesma acção pode ou não ser correcta: um murro no focinho de uma besta humana pode ser correcto quando a dita besta está de pé e incorrecto quando a besta está no chão, toda partida e a chorar pelo pai e mãe. A besta é a mesma mas as circunstâncias não.

Mesmo quando a acção é uma não-acção, esta dicotomia mantém-se: parece-me correcto ignorar um tipo que foi mau para nós quando ele está com dificuldade em pedir um café num bar em Londres e incorrecto quando ele está a ter um ataque cardíaco, seja em que local for. Pura e simplesmente, o tempo e circunstâncias são diferentes; a mesma acção - exactamente a mesma, ignorar o energúmeno - não tem o mesmo valor ético.

É a mesma coisa, quando se trata de proteger a nossa sensibilidade: para quem tem horror a hospitais, é diferente não ir visitar o primo que partiu a anca ou o primo que está a morrer; a acção e suas razões são exactamente as mesmas mas as circunstâncias são diferentes.

O Tempo e as Circunstâncias alteram tudo. O que quer dizer que a avaliação da acção permanente é diferente, conforme o tempo em que é avaliada.

Uma chatice, realmente.

Hélas!

domingo, 8 de agosto de 2010

Infância


Olhas para mim com olhos espantados e dizes pela vigésima vez que estás agoniada.

Olhas para mim com o mesmo ar com que o meu filho em pequenino me olhava, crente que eu faria desaparecer imediatamente as coisas más que soubesse existirem. Certamente que se elas não desaparecem é porque não sei da sua existência; e dizes-me novamente que estás agoniada, olhando para mim com os olhos espantados pelo mal que não se vai, esquecida que me informaste novamente dele há meio minuto atrás.

Dói-me a alma de te ver tão fora da realidade, tão inconsciente das limitações humanas, tão absurdamente confiante, uma criança pequenina, tão frágil.
E sei que não consegues reaprender a viver na imperfeição do mundo.

Resta-te o espanto perene das coisas não serem como deviam ser, o corpo não fazer o que precisas e as mais simples necessidades como um golo de sumo ou um guardanapo para limpar a boca terem de ser supridas por outrem. Quando há quem esteja lá, perceba o que necessitas, possa satisfazer essa necessidade e esteja para ter esse trabalho. Porque por vezes não está lá ninguém que reúna tudo isso, eu sei.
Estás como um bebé mas não exactamente como um bebé, porque os bebés nunca foram auto-suficientes. Tu foste e embora não te recordes com exactidão sabes confusamente que não é suposto esperar, para limpar a boca com um guardanapo...

É essa a razão do espanto no teu olhar, não é?

Esse olhar partiu-me o coração há muitos anos atrás mas o meu bebé sobreviveu e aprendeu a viver no mundo imperfeito em que não tenho poderes mágicos; com espanto e dor mas aprendeu. E eu espero que isso, de uma qualquer maneira tortuosa, o ajude na vida, fazendo a dor e o espanto sofridos terem alguma utilidade.

Só que tu não tens tempo para sobreviver com cicatrizes, como fez o meu bebé. O teu espantado sofrimento durará o resto da tua vida, não é? E eu não posso fazer mais nada além de estar quando posso estar, minorando o que posso minorar.

Olhas espantada para mim - não acreditas que eu não possa fazer desaparecer o teu sofrimento e não acreditas que ele se mantém depois de me informares.

E mais uma vez, eu não posso fazer nada além de fingir que vai passar em breve. Quando lá estou.

Hélas!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Oferta


A rapariga é provavelmente mais nova que eu e tem um montão de filhos lindos - louros, olhos azuis, feições correctas... Pelo menos 4 e são mesmo bonitos. Ou eram, porque já não vejo nenhum há alguns anos.

É pedinte profissional. Tem os tiques, a voz chorosa, a mão estendida de certa maneira, o ar triste e esperançoso que é tão típico.

Uma vez, já há muitos anos, bateu-me à porta e eu abri. Tinha a penúltima bebé no colo, linda! E pediu-me "se eu não tinha qualquer coisita..." com um ar choroso. Eu dei. Porque não? A minha vida era boa, a dela era menos boa e eu podia sem sacrifício.

Desde então, ela passa por cá tipicamente uma vez por semana, mais quando a vida corre mal. Quando ela toca, a minha gente (é um toque característico) diz sorrindo: - Vai lá que é a tua pobre.

E assim, devagarinho, passou a ser a minha pobre; tenho um bocadito de vergonha disso.

Antes do Natal eu costumo oferecer-lhe um cabaz e ela só volta 2 semanas depois mas aqui há cerca de 2 ou 3 anos, bateu à porta 3 dias depois para me oferecer um grelhador, daqueles de pedra com lamparinas por baixo. Disse-me que uma senhora lho tinha dado mas que ela não tinha uso para aquilo... Aceitei o presente que ainda hoje enfeita a parte de cima dos armários da cozinha, toda a gente sabe que aquilo com lamparinas não é nada prático (quem diacho serão as amigas da tal senhora?!?).

Hoje, quando bateu à porta, pediu-me ajuda para pagar o gás - o que em pobreguês quer dizer que precisa de dinheiro vivo e não de utilidades.

Aproveitou a visita para me oferecer uma caixa de 12 copos de pé, iguais aos que uso cá em casa. Novos e na caixa de origem: "A senhora não quer? Deram-me mas são muitos copos".

Eu quis e estes não vão para cima de armário nenhum. A minha pobre é porreira.

Hélas!

domingo, 25 de julho de 2010

Outra vez


Mais uma vez, falhei a quem nunca deveria falhar.

Mais uma vez, imersa em ondas de outra-coisa, troquei datas e fiquei sem o dia-que-tinha-de-lembrar. Mais uma vez houve uma coisa que se intrometeu entre mim e quem é mais importante para mim.

Uma coisa tão simples como saber qual o dia. Que já nem para isto chego, caraças.

Hélas!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Facebook II


Há coisas fantásticas, não há?

Tantas e tantas pessoas levantam o polegar e até se tornam fãs do clube "Luta contra a pobreza", ou "Abaixo as experiências com animais", ou "Contra a matança dos golfinhos", ou "Adopte um animal enjeitado" ou tantas outras páginas de ética inatacável!

Na maioria são as mesmas que não fazem nada real e concreto a favor da razão de ser do(s) seu(s) clube(s). Põem o polegar no ar e trás!, são uns tipos extraordinários e de valores altíssimos.
O facto de não fazerem coisa nenhuma é irrelevante, o click do "Gosto" traz uma satisfação que torna o sono muito mais fácil, barato e saudável que um Xanax.

O Facebook faz mais pelo bem-estar psicológico individual que todos os psiquiatras e psicólogos juntos.

Hélas!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Canção


A esperança é a última a morrer; quando alguém se deita ao rio é porque já está morto.

Acho que é por isso que as pessoas instintivamente se impressionam mais com um suicida que com um tipo que morre do coração: os vivos têm um fascínio patológico pelos morto-vivos.

O cadáver
do indigente
é evidente
que morreu
E no entanto
ele se move
como prova
o Galileu
[Ópera do Malandro]

Hélas!

domingo, 11 de julho de 2010

Sonhos


Loucos
Bem sei
Imaginações
Fantasias
Desejos
Pão
e manteiga
Flores
Matizes
De cores
Impossíveis
Música
Amor
Sossego
Preguiça
Liberdade
Sem peias
Tempo
Paz.

Sonhos.

Hélas!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Hoje


Hoje elogiaram-me descuidadamente e disseram em voz alta que eu era necessária e útil.

Hoje vi um vídeo terrível, gente pobre, doente e sem apoio. Uma criança real, a lutar com tanta garra numa luta que deixa adultos de rastos.

Hoje deram-me vários presentes virtuais: uma oferta pública, uma referência como força amigavelmente malévola mas motivadora e alguns comentários carinhosos.

Hoje bateu-me à porta a rapariga pobre a quem costumo apoiar e que está muito doente. Quando lhe perguntei novidades, esclareceu-me que "neste momento os médicos estão de férias, eles depois dizem-me quando poderá ser a próxima consulta".

Hoje olhei alguém que amo e achei-o com um ar que me preocupou mais. E ele sorriu com amor nos olhos e disse que o jantar estava bom.

Hoje falhei novamente em alumiar a quem olha para mim como um farol.

Hoje fizeram-me a sopa de amanhã para que não tivesse de a fazer eu.

Hoje a vida deu-me uma tareia e no meio da sova dei por mim a pensar que, independentemente de tudo, só realmente vive quem tem outras vidas à volta.

Hélas!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Gente extraordinária


Por definição é malta estranha, que foge ao normal. Por extensão são tipos fixes, não se usa a palavra extraordinário para nomear um bronco estapafúrdio.

Eu conheço virtualmente um tipo extraordinário: tem uma vitalidade tão impressionante que fico sem fôlego quando o leio. Mas fazendo umas pausas auto-induzidas aqui e ali, o que ele diz faz imenso sentido, mesmo quando não concordo com ele!

Começo pelo nick name: privada é estranho nome. A mim evoca a situação engraçada de prestar atenção aos nossos próprios pensamentos filosóficos enquanto aguardamos a inevitabilidade da natureza. É poético, até.

Depois, o discurso cheio de kapas: o cérebro dele está a mil, os dedos são lentos, o pensamento é mais rápido que o teclado mas o qu (k) continua a ser diferente do c. Extraordinário. Mais extraordinário ainda é que com tantos kapas não lhe fogem inconveniências; deve ser da idade mas actualmente reparo nisso (para o que me havia de dar na velhice!).

A seguir, a arte: para algumas situações dramáticas, tipo política em Portugal, sai-se com uma graçola com piada, do tipo "A circunferencia é ke me está a meter confusão" e escapa-se ao comentário embora comentando.

Mais outros aspectos menos marcantes mas que compõem o ramalhete, como por exemplo estar presente onde a presença nem é notada. Para um tipo àquela velocidade, é espantoso.

Lê que se farta. Não só livros como música (e isto não é nada comum!) e comenta pensativamente: Acabaram as aulas e a mesada foi-nos cortada. Devemos aos Doors a primeira experiencia em empregos precários

Mas o humor, a mim (que não o tenho) o humor mata-me: "Tenho certo que está para breve o meu estouro final, não será por desistência, nem desventura, talvez por febre da malta"

Fico-me por aqui, que ainda me processam por perdas e danos.

Hélas!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Férias


Há dias em que apetece estar de férias.

Por férias entenda-se aqui a total ausência de decisão (desde a roupa pessoal até ao local do jantar, passando alegremente por todas as horas do dia e as suas particularidades, mais uma total ausência dos sentimentos de culpa que usualmente acompanham a greve de decisões...).

Sim, hoje apetecia-me ter estado de férias.

Hélas!

sábado, 3 de julho de 2010

Fun at 30-Jun-10


Sou babada por muita coisa, por muita coisa tou danada... Mas esta coisa foi um momento óptimo numa altura da vida em que me sabe especialmente bem!

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Agora adivinhem qual dos xonés que estão divertidíssimos no Palácio da Independência é a minha cria, eheheh...

Hélas!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Da natureza humana


Uma frase na passada do meu próprio discurso cá me ficou a moer lentamente: "um lama não pode fugir à sua natureza, não é?"

E um homem, pode fugir à sua natureza? Aliás e antes disso, qual é a natureza do Homem? Porque, enfim, hoje uma pessoa pode fugir à sua natureza de homem tornando-se mulher e vice-versa, não é esse o tipo de natureza de que estou a falar.

Será o homem de natureza racional? Se sim, será alguma vez capaz de deitar determinadamente essa natureza para trás das costas e ser total e conscientemente emocional?

Se for de natureza emocional e instintiva, poderá tornar-se racional e ponderado?

E se um homem for um misto de racional e emocional tão intrincadamente emaranhados como uma meada de lã com que o gato brincou? Se for esse o caso, como diacho pode ele fugir à sua natureza? Será humanamente possível transformar uma lasanha à bolonhesa em esparguete simples com molho à parte?

De uma coisa tenho a certeza: se o quiser de facto, se o quiser no seu inconsciente, o Homem (sentido lato, meninos, sentido lato) faz o que quiser fazer desde que não viole as leis da física. Pode sair destruído e irreconhecível da experiência mas consegue fazer.
A questão põe-se portanto, na pergunta: pode o homem querer no seu inconsciente algo contrário à sua natureza?

Isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

terça-feira, 29 de junho de 2010

A bola e a vida


Sim, sim, já sei, Portugal perdeu e está fora do campeonato.

Não sei hei-de estar triste ou contente: obviamente que gostaria que Portugal ganhasse mas na verdade a bola é muito distractiva; o pessoal começa a pensar nela e esquece-se de problemas mais importantes e prementes.

É mau, um tipo esquecer-se dos seus problemas prementes; mas é bom, um intervalo na gravidade da vida.
É quase a mesma coisa que um tipo com sida partir uma perna - o problema continua a ser a sida mas no que ele e os dele pensam é no gesso e isso dá-lhes uma pausa potencialmente muito benéfica.

Eu cá sempre disse que a carola está mal desenhada, devia vir com um botão on/off. Mas ninguém me ouve, caramba!

Hélas!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Encruzilhada


Quando chegamos a um cruzamento e queremos ir a vários sítios, que fazer?

Se vamos para a direita vamos onde queremos ir mas não vamos onde também queremos ir. Para a esquerda é o mesmo. Para trás não se pode, o caminho já nem existe.

Podemos sentarmo-nos no meio do cruzamento, à espera da construção da terceira via, aquela que nos leva a dois lados distintos. Algures lá para o século XXXI, com os nossos destinos mortos e por enterrar, nós próprios mortinhos da silva de tanto esperar, será aberta a via com destino a lado algum. Isto ainda dava em epidemia, tantos mortos ao ar livre.

Moeda ao ar? Não, a moeda ao ar é falta de discernimento e de coragem. Antes fazer asneira, que assim só falta o discernimento.

Para a direita, destino mais importante? O que nos fará, ter tomado essa decisão? Às tantas não aproveitamos o destino, enterrados na decisão que abdica do caminho da esquerda.

Para a esquerda? Mas não queremos ir para aí, só queremos ir durante um bocadinho, depois queremos o destino da direita - só que depois não há desvio, a direita perde-se quando se decide ir pela esquerda. Que chatice, isto não é nada justo.

E se formos em frente, apesar de não haver caminho? O mais provável é não chegarmos a nenhum dos locais onde queremos ir e ficamos tipo judeu errante, amaldiçoado por todos os destinos onde não chegámos, presentes onde não queríamos, perdidos em lado nenhum e muito, muito infelizes. A chorar por não termos seguido pela direita. Ou pela esquerda.

Uma alternativa é deitarmo-nos ao rio, é chato mas viável e definitivo. Os destinos lá ficam abandonados mas não temos de decidir nada; não tem qualquer uso para ninguém mas também não exige nada. Claro que é cobarde mas caramba, dos mortos ninguém diz mal e se mesmo assim disserem não estamos cá para ouvir. Aliás nem estamos cá para nos julgarmos a nós próprios. Muito confortável.

Ou será que se consegue ir para a direita com as rodas da direita e para a esquerda com as rodas da esquerda, tudo isto sem perder o Norte ou o juízo? Será possível que a encruzilhada não seja mais que um desafio malabarista?

Se calhar a encruzilhada é simplesmente falta de arte. Um verdadeiro artista nunca passaria sequer por uma encruzilhada, chegando a todos os destinos sem nunca precisar de decidir se vai por um lado ou pelo outro, uma vez que o seu artístico caminho alcança ambos os destinos.

Ou se calhar não.

Acho que finalmente compreendo os suicídas e os Napoleões de Rilhafoles: tiveram demasiadas encruzilhadas na vida.
Ou então tudo isto são tonterias de quem nem se mata nem mora em Rilhafoles mas, enfrentando encruzilhadas como toda a gente no mundo, tem uma compulsão relativa a origami com neurónios.

Mas então e se os caminhos não forem caminhos mas sim uma forma de...

Ora batatas, chega! Vou ver o dr House.

Hélas!

terça-feira, 22 de junho de 2010

FarmVille


Alguém andava a capinar os seus (?!?) campos, aqueles que não alimentam ninguém, não adiantam nada nem aproveitam a ser algum mas lhes ocupam os dias e eis senão quando ficou atónito... Um triste lama vagueava pela sua quinta.

Coitadinho, tinha fugido porque na sua terra os lamas andavam todos à pancada. Ele vagueava tristíssimo (provavelmente tinha pavor do macho dominante lá da manada mas não digam nada senão ainda fica mais triste) e fazia questão que se soubesse que andava à procura de nova casa (onde ele fosse O macho dominante, claro - um lama não pode fugir à sua natureza, não é?).

Haverá limites para solitárias paciências ou o homem reinventa sempre os seus tempos? Ou então sou eu que estou a ficar velha e razinza, longe dos tempos em que jogava alegremente o Manic Miner. Ou ambos.

Certo, certo, é que o Farmville me impressiona.

Hélas!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Cansaço


Demasiado. Sabe-se lá porquê.

Suspeito que seja da vida (ficam sempre bem estes disparates, não é? Dá assim uma ar de profunda sofisticação, o cansaço é o mesmo mas agora tem um glamour apelativo...).

Hélas!

domingo, 20 de junho de 2010

Isto tem dias


Dia de sol. Alegra-me o sol, mesmo sabendo que a Lua está no mesmo sítio.

Sei lá porque me alegra o sol mas que alegra, alegra! Tá visto que só a vida não tem remédio.

Hélas!

sábado, 12 de junho de 2010

Rifas


- Fogo, pá, pensei que já tinhas resolvido a tua vida!
- Também eu, pá, também eu... Mas agora saiu-me isto na rifa.
- Rifa? Mas que rifa? Atão inda jogas nas rifas, pá, fogo, não sabes que isso é tudo uma aldrabice?
- Eu sei mas que queres? A rifa andava comigo inda nem eu sabia de rifas!
- Deita a rifa fora, pá, essa onda é pesada, os prémios são sempre maus, bonecas de plástico, pentes maricas, porta-chaves horrorosos, a gente nem tem uso para aquilo nem consegue deitar fora!
- Como é que deito a rifa fora? Vinha na algibeira sem eu saber, pá, sabes lá tu o que já fiz com aquilo! Mas eu não sabia que era uma rifa, juro.
- Mas as rifas tão aldrabadas, pá, pagas sempre mais que o que recebes!
- Eu sei, eu sei, mas que hei-de fazer se já tenho a rifa?
- Dá a rifa a alguém, pá!
- Já tentei e ninguém quer. É lixado, pá, não sei que fazer, podes ajudar?
- Eu? Fogo, detesto rifas, tenho azia, urticárias, sofro do coração, sinto-me mal... Além disso, pá, tu é que tens a rifa.
- Eu sei, eu sei... Eu é que tenho a rifa. Mas se tu quiseres, partilho contigo, pá.
- Tu tás mas é maluco, eu já resolvi a minha vida sem rifas.
- Eu sei, mas assim a dois era mais fácil, ficavas com a rifa uma semana de 2 em 2 meses...
- Tás doido, pá, a minha vida tão arrumadinha!
- Nem tinhas de te preocupar com o pente de plástico, pá, eu guardo o pente, só tens de levar a rifa de vez em quando...
- Tás maluco, pá, eu vou pró Gerez na semana que vem, mais a mulher e a filha, tenho lá espaço para rifas!
- Pronto, bem, deixa lá.
- Atão e agora?
- Sei lá, pá, tu também tens a mania que eu sei tudo!
- Pensei que sabias, pá, caraças, também estás sempre azedo!
- Desculpa, a minha vida complicada por causa da rifa.
- Fogo, eu só queria ajudar, quem me manda a mim, um gajo que tenta ajudar sempre feito ao bife.

Hélas!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Saudade


Olho para as pedras e vejo pedras,
Olho para os paus e vejo paus,
Olho pela janela e vejo ruas.

Houve um tempo em que

Olhava para as pedras e via sonhos,
Olhava para os paus e via perfeições,
Olhava pela janela e via caminhos.

Fugiu-me a Beleza
Por entre as frestas dos dias.
Foi-se e não sei dela.

Que saudade de a ver concreta
Nos paralelipípedos do passeio!

Hélas!

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Os papagaios bêbedos


(...)

“Parece que estão ébrios. Caem das árvores porque é como se tivessem perdido a coordenação, saltam e não atinam com os ramos”, diz Lisa Hansen, cirurgiã do Hospital Veterinário de Palmerton, citada pelo ’20 Minutos’.

Os papagaios parecem estar doentes e têm de receber uma compota com fruta para normalizarem os movimentos. Há casos de aves em Palmerton que tiveram de ser internadas vários dias em unidades de cuidados intensivos.

[Correio da Manhã,2/Junho/2010]

Não sei o que é mais estranho entre a bebedeira dos pássaros, a cura por compota ou os cuidados intensivos... Que indecisão....

Pronto, é a cura por compota.

Confesso que estava a custar-me a ler o estranhómetro.


Hélas!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Futuro


Aqui há muitos, muitos anos, quando eu era uma mocinha cheia de esperança no futuro, na vida e nas gentes, alguém me disse:

- O que tu não percebes é que a vida gasta as pessoas; às tantas fica só uma casca vazia.

Eu não acreditei, claro. Para mim a vida enriquecia as pessoas, por mor da experiência e das oportunidades que o tempo traz. Quanto mais tempo, mais experiência e oportunidades e portanto mais ricas ficavam as pessoas, é lógico, não é? Sempre tive esta estúpida mania da lógica.

Eu não fazia a mínima idéia que de facto, passados alguns anos e experiências são poucas as pessoas que não se começam a gastar por dentro. A perder a capacidade de absorção e transformação, de enriquecimento, de objectividade e perspectiva e de modo geral de tudo que requeira esforço ou sacrifício próprios.

Passados alguns anos deste processo, são cascas vazias de tudo que não seja elas próprias. E não se apercebem disso, julgam-se cheias de vida. Afinal mexem-se, comem, dormem e procuram o conforto, não é? Não se apercebem que isso até as baratas fazem e que para se ser uma pessoa tem de fazer mais do que isso.

Os putos a quem digo isto acreditam tanto em mim como eu acreditei naquela altura em quem mo disse.

Hélas!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O sorriso


Cheques dentista sem sucesso entre os idosos

O secretário de Estado adjunto e da Saúde, Manuel Pizarro, anunciou, hoje, segunda-feira, o reforço da verbas para os cuidados de saúde oral. A iniciativa dos "cheques dentista", destacou Pizarro, tem sido um sucesso entre as crianças mas continua com um problema: apenas 10% dos 200 mil idosos beneficiários do complemento solidário beneficiaram do programa.
[Jornal de Notícias]

Eu cá acho é que os velhos têm poucas razões para mostrar a dentuça. Natural ou implantada, tanto faz.

Hélas!

domingo, 30 de maio de 2010

Facebook


É mentira: não se trata de um livro de caras.

Mas é uma network onde oferecem ferramentas para caçar desaparecidos que gostaríamos de re-encontrar e isso funciona, eu própria encontrei uns quantos. Não faço a menor idéia se eles queriam ser encontrados mas o facto de eu os ter finalmente localizado permanece.

Não só é útil como agradável: a gente diz o que quer quando quer e a quem quer ou a ninguém, fala apenas para o ar. Muito agradável.

Mais livre e leve que um blog, porque quem tem um blog e nada diz nele, cedo não haverá quem lá vá, será apenas uma conta abandonada entre tantas outras. No Facebook não é preciso ir: as notícias vêm ter connosco (enfim, algumas delas, pelo menos). Só vantagens. Percebo bem o Facebook, acho eu. E tenho lá conta, como antigamente tinha no merceeiro.

Mas o FarmVille... Que raio leva homens e mulheres adultos e equilibrados, activos profissionalmente, cultos, inteligentes e cheios de energia a cultivar batatas e cebolas virtuais e pedirem ajuda para construirem celeiros virtuais e oferecerem estranhos ovos virtuais e ficarem atentos porque encontraram vacas tristes ou um garanhão intrigado (e que diabo será um garanhão intrigado?!?) no quintal? Voltou tudo aos 6 anos e nem eu nem eles nos apercebemos?

Caraças, eu não tenho idade para ter 6 anos.

Hélas!

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Questão


Verdadeiramente estruturante: Será cada pessoa capaz de analisar friamente uma das suas próprias fraquezas?

Eu duvido. As nossas imperfeições são fáceis de compreender e perdoar e portanto fáceis de ignorar. As dos outros, no entanto, são enormes elefantes cinzentos: inamovíveis.

Hélas!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A quadratura do círculo


São 4 mas só 2 é que aparecem, a 3ª gosta de se esconder atrás de belíssimos, frondosos, apetitosos vegetais e a 4ª é virtual no caixote comum, a cada um as suas couves. Falam, ouvem, lêem e escrevem, têm vida própria, sofrimentos e alegrias, como todos nós.

Uma é tipo Robin Hood, dispara certeiríssima e está lá sempre, no momento - tem assim uma espécie de ubiquidade virtual espantosa.

Outra, não menos certeira, é mais calada e low profile, quase nem se dá por ela. Quando fala é com humor, a gente ri-se mas é melhor pensar bem no que foi dito.

A 3ª fugiu para o jardim, temporariamente cansada dos movimentos desgraciosos dos mamíferos.

A quarta é virtual mas a sua existência sente-se no respirar das outra 3.

É tudo gente espantosa, só vos digo. A net é incrível, tenho amigos estranhíssimos. E o mais estranho de tudo é que começo a perceber coisas como não saber como uma pessoa parece mas saber como é. E é boa, esta espécie de abstracção.

Fantástico.

Hélas!

sábado, 22 de maio de 2010

Ciências da Natureza


Depois dos 65, eles casam duas vezes mais do que elas

São os homens que mais casam e geralmente com mulheres mais novas. As mais velhas "perdem valor no mercado matrimonial".
[DN]

Sabendo que há mais mulheres que homens e que elas vivem mais tempo, confirma-se que eles as preferem mais novas e elas preferem os mais velhos. Tal como qualquer outro mamífero.

Julgavam que a humanidade era especial?

Hélas!

terça-feira, 18 de maio de 2010

O milagre do meu milagre será também um milagre?


Pelo menos demonstra vitalidade e vontade de viver








Hélas!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A homofobia e a tabela


Estava eu com discussões filosóficas à mesa do jantar quando me ocorreu, cristalizada, a explicação de um dos meus espantos mais antigos. Passo a relatar: sempre me fez alguma confusão à carola a maneira como pessoas "normais" reagem à proximidade de homossexuais. Particularmente os homens.

Porquê esta estranhíssima insegurança, este absurdo receio? Toda a gente sabe que nem se pega nem é obrigatório. E, estranho, muito estranho, porquê particularmente os homens?

Fez-se luz, esta noite. Acho. Ora vejam:

Os maricas são os melhores amigos de uma mulher, é sabido. Porquê? Porque são homens - parece estúpido mas é verdade, não é a mesma coisa ser homem ou mulher - mas são uma espécie de homens com os quais a mulher não precisa de levantar as guardas, é uma óptima definição de amigo, não acham?

Sim, eu sei todas essas teorias giras, sou filha do Sec XX. Mas a Natureza é mais antiga que isso e se uma mulher quiser ter paz e amigos ela tem de se pôr à tabela com os homens. Bonitos ou feios, burros ou inteligentes, seja ela gira também ou um coiro velho, tem de se aperceber e reagir na hora certa e sempre, mesmo sempre, estar atenta a sinais potencialmente dúbios. É como atravessar a rua, tem de se olhar para os dois lados e pronto, é assim e não há mal nenhum nisso.

Com os maricas, não é preciso. Pode-se baixar as guardas, pode-se até esquecer as guardas! São homens, sim, mas cuja natureza os impede de estarem minimamente interessados; com eles pode-se ter um homem ao lado, interessantíssimo espécime, sem qualquer potencial perigo... Suponho (já estou a divagar mas pronto) que com eles é o mesmo - as lésbicas devem ser as suas melhores amigas. Mas realmente nem sei, eles não estão habituados a esse tipo de coisas.

Agora reparem numa coisa: as mulheres estão habituadas a estarem sempre à tabela, faz parte do seu treino de sobrevivência. Já nem ligam, faz parte dos hábitos de vida como sair à rua vestida, nem se pensa nisso.

Mas os homens não estão habituados a estar à tabela, são por definição os predadores, hoje e sempre, e a tabela é para as fêmeas estarem... Não é nada racional, são apenas séculos e séculos de vida.

Como diacho pode um predador estar pacificamente em presença de alguém com quem necessita de estar à tabela? Não pode, não consegue. Esse código de vida não faz parte da sua natureza e embora o racional lhe possa dizer que não está em perigo a sua natureza revolta-se contra um estado que não lhe é natural.

Também por isto se percebe que uma mulher, mesmo desconfortável junto de uma lésbica, não se sinta tão agredida. Afinal, ela está habituada a ser analisada, avaliada e caçada. Está, naturalmente, à tabela

É tudo uma questão de anos e anos de hábitos, afinal.

Hélas!

terça-feira, 11 de maio de 2010

Paz


Cá a mim parece-me que a Paz
A tão apregoada, glorificada,
Abençoada, invejada, Paz
é insensibilidade de leproso,
Que nem sente já nada de nada,
quanto mais a falta de uma orelha.

A Paz, a tão celebrada Paz,
é surdez, cegueira,
Ou simplesmente egoísmo.
Paz?!? Qual paz,
entre crianças que morrem de fome,
velhos que morrem de abandono?

Paz?
Depois de morto talvez,
E mesmo assim é questionável:
Provavelmente não é Paz,
São minhocas.

Hélas!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Fascínio


Estou absolutamente fascinada.

A RTP1 está a dar, como era de esperar deste governo tão alapado aos sentires populares, entrevistas a padres, freiras e populares - desde que sejam populares crentes, claro.

Oiço as coisas mais estranhas. Estranhíssimas, na verdade.

Malta que embandeirou em arco porque o papa João Paulo I não ficou irritadísimo com a greve que impediu o seu voo para Itália sair a horas (o homem teve a honra de não parecer feliz, que era o que devia estar na realidade, tão cansado e doente como estava! Mas aparentemente, há pessoas que não têm o direito de estar cansadas...).

E tantas pessoas que supostamente acreditam num Deus de Amor e Perdão dizem com ar embevecido que "agora compreendem que Deus lhes pede o sacrifício" (alguns dos sacrifícios descritos são anos de dor e medo). Dizem estas enormidades com um ar satisfeito e olhos em alvo.

Como raio alguém racional pode acreditar que quem prega amor e perdão pode pedir também sacrifícios para nada mais que a Sua glória? Nem numa pessoa tal traço seria suportável, quanto mais em Deus...

Tenho uma fortíssima suspeita que, na realidade, nem querem saber Quem nem o que Ele prega, o que querem é sentirem-se reconhecidos como Pessoas, destacáveis da multidão. E não estarem sozinhos, claro.

Não admira nada que Hitler tenha subido ao poder. Ele e todos aqueles capazes de incendiar as mentes, curto-circuitando o raciocínio e anulando o espírito crítico mais básico. Às vezes até parece fácil.

Que tristeza, realmente. Só mesmo Deus, para amar indivíduos assim.

Hélas!

domingo, 9 de maio de 2010

philosophy


De repente - estas coisas são sempre repentinas, não é? - ocorreu-me que abandonei ou fui abandonada por, dá no mesmo, a minha filosofia caseira. Era uma boa e velha amiga, sabem? Com ela, conseguia perceber, ou pensar que percebia, a vida e o mundo. É sempre preferível compreender a razão das coisas, facilita muito.

Actualmente não percebo nada mas como os dias solicitam inexoravelmente acções e reacções, cá ando a fazer tudo instintivamente. Decisões e acções são tomadas e executadas em piloto automático e nunca medidas e equacionadas, antes, durante ou depois.

Tenho sempre a sensação de que não há tempo, o que é evidentemente falso: o tempo é sempre o mesmo e passa sempre ao mesmo ritmo, as prioridades da sua ocupação é que variam. Esta falsa sensação não é mais que um automático mecanismo de defesa para proteger o meu ego da minha actual irracionalidade.

Anyway, a minha velha velha companheira de vida evaporou-se. As teorias que explicavam tão bem esta acção ou aquela angústia primam pela ausência. E este blog, criado para publicação de discursos racionais e coerentes sobre tudo mais a conhecida maleita das meias desemparelhadas tornou-se uma espécie de diário onde choro publicamente as minhas angústias. É patético.

Vou ter de fazer alguma coisa quanto a isto. Ainda não sei o quê, mas alguma coisa terei de fazer - não me importo muito de ser irracional mas patética chateia-me um bocado.

Hélas!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Silêncio que se vai cantar o Fado


Adoro estar sozinha.

Só não gostaria, suponho - suponho porque nunca estive só, como alguém me recordou não há muito tempo - mas sozinha, gosto imenso. Desligar a TV e ler; ou fazer um zaping preguiçoso sem haver ninguém a quem pedir licença, que pueril, simples, grande contentamento!

Não tenho muita sorte - normalmente quando alguém se levanta do sofá para ir para a cama há alguém que se levanta da cama para ir para o sofá. E por vezes é frustrante, aguardar pacientemente aquele tempo de ausência de auras circundantes e ver esfumar-se a possibilidade por força de outros ritmos de vida.

A realidade é que gosto muito mais das auras circundantes que do zaping preguiçoso mas depois cá fico a ressacar a falta de silêncio, rais parta a natureza humana que nunca está contente.

Isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

Amanhã


O meu vizinho do cimo das escadas desceu-as num silêncio absoluto, sorriu um sorriso aberto nas minhas costas e disse-me de repente ao ouvido:

-Estás certa uma vez na vida, caramba!

E eu, que estava descansadinha a ver uma porcaria qualquer na TV, fiquei instantaneamente em tensão. O fim de tarde de amanhã é crucial.

O malandro podia bem recordar isso só amanhã, vá lá, pelas 3 da tarde, para eu ter tempo de me preocupar - qual é a utilidade de me sacudir hoje às 22:30? É má vontade, batatas.

Hélas!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Maio, doce Maio


(...)
Verdes prados, verdes campos
Onde está minha paixão
As andorinhas não param
Umas voltam outras não
(...)
[Zeca Afonso? O refrão é popular, mas o resto da letra?...]

Sinto saudade dos Maios da minha infância, quando nem sabia que era Maio quanto mais o que eram saudades.

O meu vizinho do cimo das escadas regouga que só se tem saudades do que nunca se teve na vida; mas como o malandro do subconsciente traveste de experiências maravilhosas (à luz dos anos actuais) coisas tão vulgares (à nossa luz da altura) como correr na rua, estamos todos condenados a sofrer de saudades do que, na realidade, nunca vivemos.

Estou tentada a concordar com ele, batatas.

Hélas!

terça-feira, 4 de maio de 2010

Blimunda


Tenho uma amiga que está.

Tem a vida dela, as ralações dela, os atrasos dela, as correrias dela, as maluqueiras dela, as ansiedades dela, a família dela, os problemas dela - é humana, acho eu, e portanto lá terá isso tudo, como toda a gente. Mas não sei como, apesar disso ela está sempre presente.

Aqui, ali, acoli e acolá, ela também está, ralhando, animando, rindo, zangando-se, não sei como é que ela faz isto mas a verdade é esta: ela está, sempre.

Pode até nem ter tempo para estar em
casa, mas tempo para visitar a casa dos outros ela inventa-o e aproveita para ralhar, rir, discutir, conversar, contar coisas, gozar a malta presente, em suma: amigar.

Quando eu crescer quero ser assim também, caramba!.

Hélas!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dança com moscas


Zarazandam pensamentos na minha cabeça como moscas no sol da sala, igualmente dessincronizados, igualmente supérfluos, igualmente incontroláveis, igualmente incómodos.

Já pendurei sacos de plástico cheios de água que brilham ao sol e, supostamente, deviam assustar de morte os intrusos, reflectindo aumentados os seus focinhos feiosos. Mas não funciona.

Tentei sprays insecticidas, muito ecológicos que não matam mas afugentam, tipo levar o meu vizinho do cimo das escadas a fazer discursos incendiados sobre a futilidade dos pensamentos zarazantes. Mas não funciona (e ainda por cima, o vizinho ficou doente com os resultados, não está habituado ao insucesso, coitado).

Tentei matá-los à fome, enrodilhados numa rotina imperturbável de horas rígidas. Mas não funciona.

Tentei ignorá-los com olímpica indiferença, como aquelas pessoas que vemos na TV a falar imperturbavelmente, apesar das moscas que lhes passeiam pela cara. Mas não funciona.

Está provado que são indestrutíveis, só me resta agora conviver com eles de forma pacífica. Isso ainda não tentei mas lá terá de ser. Que chatice.

Hélas!

sábado, 1 de maio de 2010

Forrest Gump


Acabei de rever o Forrest Gump.

Caramba, que há malta que percebe as coisas! Quem escreveu, quem encenou, quem representou - percebem as coisas, pá, percebem mesmo, incrível!

Depois ocorreu-me, devagarinho: não é a primeira vez que vejo este filme, é a segunda. Da primeira vez também gostei, é verdade, mas sem esta exaltação de quem vê a sua Vida e os seus Valores tão perfeitamente retratados.

Pronto, está bem. Não é o Forrest Gump que é a oitava maravilha, é a totó de serviço que está uma mariquinhas do piorio. E nem conheço nenhumas pílulas boas para esta mariquice foleira, que chatice.

Hélas!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tempus fugit


Os dias passam.

E esta é que é esta: os dias passam. Assim, assado, desta forma ou daquela, os dias passam, passam sempre, indiferentes e imparáveis.

Com eles passa muita coisa, nem indiferente nem imparável, antes modelável no instante x ou alterável no y; mas eles, os dias, esses passam soberanamente exteriores a tudo, suficientes neles próprios.

Hoje olhamos para ontem e não reconhecemos quase nada: Como é que foi possível?, Eu disse assim?!, Pensei isto, eu?!?

E os dias passam, tão completamente alheios que nem se riem.

Caraças, que falta de humor.

Hélas!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Vida VI


Porque é que é tão difícil lidar com a vida?

Palavra que às vezes ainda fico espantada. A vida acontece a todos e todos a vemos todos os dias, aqui, ali, acoli, com este, aquele e o outro. Porque raio nos há-de espantar quando calha a nós, quer dizer, pelo menos àqueles que, pelos anos em que cá andam, já viram o filme várias vezes?

Dificuldades, ok. Mas espanto?? Somos mesmo burros, ora batatas.

Hélas!

terça-feira, 27 de abril de 2010

Miss


Se eu tivesse menos 35 anos, a barriga chata de quem nunca pariu, pestanas deslumbrantes, dentes colgate e fosse uma candidata a miss qualquer coisa, o meu desejo explicitado nunca seria "paz na terra". Que tontice!

Seria "pessoas em paz", o que é muito mais impossível e portanto, muito mais apelativo de simpatia pela gira tontinha.

Hélas!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Injustiça


Não se pode viver à sombra dos desastres prováveis porque não se vive, morre-se devagarinho. Mas também não se deve ignorar a beira da falésia, é irrazoável e imprudente.

É injusto, isto. Gostava tanto de ser uma rapariga equilibrada!

Hélas!

sábado, 24 de abril de 2010

Ora, batatas


Somos todos tão sei-lá-o-quê, grãos de areia no meio da praia...

Que venha o mar, que venha o mar para nos lavar e levar na onda, inocentes de acção, perdidos de olhos-no-umbigo e alheios ao mundo. A nossa dor é sempre a maior e com razão, pois a dos outros não nos dói assim.

Mas o mar é imenso e tudo lava da mesma forma, seja branca ou de cor. No fim, fica tudo limpo, tudo da mesma cor incógnita e tudo livre de culpas de acção; que sossego, que paz!

Só não sei se depois não preferia estar suja, raios partam a natureza humana.

Hélas!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Azares da vida


Há alturas na vida em que eu gostava imenso de acreditar em bruxas, búzios, "trabalhos", mau-olhado, enfim, toda essa panóplia de coisas fáceis que justificam os azares da vida.

Ia a um desses curandeiros cheios de recursos, pagava, claro, e voilá! A vida voltava à normalidade, simples e feliz.

Em vez disso, acredito que acontecem azares à gente, sem culpas e sem razões maiores que o facto de todos sermos gente e as gentes terem uma natureza falível - as coisas acontecem quando acontecem e a quem acontecem e pronto.

Que chatice. Se calhar ponho um processo aos meus pais, por não me terem criado a acreditar em bruxas. Bem mereciam esse azar, não acham?

Hélas!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Crime e castigo


Não sei porquê mas há alturas em que parece que o castigo cai sempre sobre quem não cometeu crime nenhum.

Definitivamente algo está mal, ou o mundo ou a minha percepção dele.

Hélas!

domingo, 11 de abril de 2010

Quem me dera


O perfume das flores é leve e honesto,
Ah! Quem me dera sentir o perfume das flores!

O riso das crianças é leve e honesto,
Ah! Quem me dera ouvir o riso das crianças!

A lambedela do cão é leve e honesta,
Ah! Quem me dera sentir a lambedela do cão!

Quem me dera a graça de estar lá,
quando a flor exalou, a criança riu, o cão lambeu.

Quem me dera, quem me dera ter lá estado,
E ser feliz assim, sem mais nada.

Hélas!

sábado, 10 de abril de 2010

Adeus


Partiu ontem alguém de quem eu gostava, uma velhinha corajosa a quem a vida tratou com especial dureza e que, apesar de tudo, se manteve activamente humana e alegre.

Adeus, tia. Foste capaz de mostrar que é possível fazer laranjadas com limões, sejamos nós capazes de o aprender.

Hélas!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Aniversário


Caramba, que estou cansada. Tantos anos a semear couves!

Hélas!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O ópio da vida


Eu sou do tempo em que o Futebol era o ópio do povo.

O Estado, os Poderes Públicos e os Privados promoviam o Futebol para adormecer nas futilidades clubisticas a racionalidade que poderia tirar o povo, a massa anónima, todos os Joaquins, Antónias, Zés e Marias da mediocridade que lhes era imposta insidiosamente.

Nesse tempo, o Telejornal durava meia hora e os últimos 5 minutos eram dedicados ao desporto rei, com os fantásticos da hora a debitar frases cheias de erros de gramática, de cultura e de razão mas ainda assim capazes de incendiar o coração dos adeptos.

Eu sou do tempo em que o Futebol é religião.

O Estado, os Poderes Públicos e os Privados são promovidos pelo Futebol e fazem gala disso, submissos à vontade do povo que quer que o seu clube ganhe pois a luta, quiçá a vitória, aligeira o trabalho de ganhar o pão e dá sentido aos dias.

O Telejornal hoje dura mais de uma hora. Abre com notícias da bola, passa por uns colarinhos brancos a debitar inanidades, depois umas bombas mas só se se puder ver os mortos ou a família chorosa. A meio - não se pode deixar a audiência desmobilizar - umas bocas dos fantásticos da hora que já não dizem asneiras gramaticais mas continuam inócuos, depois mais uns mortos e outros chorosos e fecham com chave de ouro, os golos de anteontem, ontem e hoje, para rever.

O ópio ganhou. Aliás, as drogas ganham quase sempre.

Não serei do tempo em que o Futebol seja o que é: um passatempo.
Um tempo em que o Telejornal dê a conhecer factos em vez de opiniões e não dê Futebol, que poderá ser apreciado livremente noutro local e com todos os pormenores mas sem dar aqueles ares de notícia ao mesmo nível que um qualquer concurso internacional de invenções bizarras.

Hélas!