Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Pergunta, perguntas...


Um dia perguntaram-me se sabia qual tinha sido o melhor ano da minha vida e eu não sabia. Suponho que deve ter sido em criança, tenho uma ideia vaga que minha infância foi muito feliz.

De outra vez, perguntaram-me o que é que eu esperava da vida e eu não me lembrei de nada. Perguntassem hoje e a resposta seria a mesma... Sinceramente acho que não espero nada da vida, o que fiz está feito e para o que não fiz já é tarde.

Talvez fosse mais correcto dizer que desejo que ninguém lá em casa perca o pão nosso de cada dia ou a saúde, que nenhum daqueles que chamo de meus tenha um azar que implique sofrimento. Mas isso não são bem coisas que se esperam da vida, são mais coisas que se espera que a vida não nos dê.

Seria bom, desejar intensamente tirar o brevet, ou construir uma vida alegre num país tropical ou comprar um Aston Martin: isso traria o objectivo que vale o esforço, o motivo para levantar da cama de manhã.
Mas a mim isto não me diz nada; acho que a certa altura da vida e sem eu dar por nada, o meu espírito reformou-se e foi para parte incerta.
Nada quero para mim e aos outros apenas desejo que não necessitem de mim.

Não me interpretem mal, não tenho qualquer desejo de morrer; mas se eu morresse neste instante não ficaria nenhum sonho por conseguir, nenhuma pena pelo tempo ser insuficiente - insuficiente quer dizer que não chega para alguma coisa em que é necessário.
Dos meus sonhos, os que não aconteceram evaporaram-se e já não existem. Não necessito de tempo, pois nada há que esse tempo me possa dar.

A vida por enquanto é confortável e a companhia é boa. Gozemos a vida, então.

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Acupunctura


Bom, os drogados cá da casa andam a tentar deixar de fumar. Gotas e comprimidos e agulhas para controlar o estúpido vício. As agulhas são semanais e espera-se delas que... Ajudem :)

Puseram-nos uma agulha temporária a morder a cartilagem da orelha (órgão absolutamente incontornável na luta contra o tabaco! Estranho, estranhíssimo... A orelha?!???)

Hoje a cria, que refilava com a colocação da agulha desde que fora colocada, recortou com ar compenetrado um penso para calos. Chegou ao pé de mim com a sua obra e comandou: pões o buraco disto alinhado com a porcaria da cabeça da agulha, estás a ver?". Eu estava, o buraco ficou alinhadíssimo. Ele alisou a orelha com os dedos e espantosamente sorriu: - Gooooood.

E enquanto eu me ria, ele foi refilando e rosnando não sei o quê para dentro do quarto mas mais satisfeito.

Drogado sofre, né?... Quem me dera a mim perceber que raio têm as minhas orelhas a ver com a minha vontade doida de poluir os pulmões.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

A importância de se chamar lugar comum

- Profissão?

Fiquei a matutar... Se tentasse explicar o que faço para ganhar o pão de cada dia, o homem ainda dava um tiro nos miolos. Nos dele ou pior ainda, nos meus.

Por outro lado o tipo tem de preencher o formulário, se não lhe der uma profissão o cursor não avança e a malta não sai daqui. Bem, há uma profissão que, não sendo profissão nenhuma, em todo o lado é aceite como uma profissão:

- Engenheira.

Boa, o cursor avançou.

- Naturalidade?

Pronto, agora já não há nada a fazer. Daqui passamos para coisas tão surrealistas como Freguesia e coisas assim. Que Deus me perdoe, não há nada a fazer!
Vou masé fumar uma cigarrada, é a única maneira de lidar com o surrealismo.

Sábado, 18 de Fevereiro de 2012

A vida é bela


Ele perguntou, com um sorriso:

- Como estão as coisas? Não veio cá antes da consulta, isso é bom sinal...

Eu também sorri:

- É verdade, as coisas vão bem! Fora o colesterol, a tiróide, os dentes a cair, a parestesia e a cegueira, estou com uma saúde de ferro - não estou a inventar, foi o outro médico que disse, depois de ver as análises!

Ele acenou com a cabeça:

- Bom, então temos de fazer qualquer coisa. Que acha, para o mês que vem?
- Acho bem, Doutor. Eu marco a consulta.

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

Irritações


Há muitas coisas que me irritam, sou uma rapariga muito irritadiça.

Uma das minhas irritações de estimação são as expressões (e as pessoas que as usam) sobre a suposta queda de valores a que se assiste hoje... Eu tenho péssima memória para datas e nomes mas se puxarem por mim vou à net (maravilhosa invenção) e em 10 minutos saco as mesmas choraminguices e recriminações, só que com datas de há mais de 100 anos e com nomes sonantes (senão nem as conseguia sacar, como é óbvio)...

Bolas, assumam que a vossa tristeza real vem do facto de já não terem 20 anos! E de já não conseguirem acreditar no que acreditavam quando os tinham. E que este simples e incontornável facto vos leva a rezingar com "os jovens" que mais não são para vós que a lembrança dolorosa que já não são o que foram e já não podem o que puderam e já não têm tempo como tiveram.

O que me irritam as considerações "sociais" da malta de hoje! Quando se olha objectivamente para a evolução das considerações sociais de hoje e se comparam com as de ontem, dá-me uma azia contra os meus contemporâneos! Quando vejo gente que, muito a sério, considera que os valores de ontem eram melhores que os de hoje, sobe-me uma coisinha por mim acima.

Apetece-me enviar essa malta toda num foguete temporal que os deposite há 200 anos, com o post-it de "não nobre" na testa. Só para perceberem que afinal não gostam assim tanto dos tais "valores" antigos, especialmente quando um dos seus factores é a quem se aplica.

Irra!

Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

Perdigão que o pensamento / subiu a um alto lugar


Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha

A partir de certa altura na vida, começou a repetir cada vez mais frequentemente esta frase, com um sorriso estranho. Eu encolhia os ombros, sorria também, dizia inanidades do género "Pois é..." sem na realidade compreender aquele sorriso.

Este tempo passado parece-me que compreendo agora, suspeito... A grande tristeza de saber que já não se é capaz, de questionar fora de tempo se foi a escolha certa, o caminho certo, a vida certa; a noção de que é tarde demais, que se esperou tempo demais, que já não vai dar; o desgosto profundo de não ter ninguém com quem realmente partilhar o tempo do medo; a consciência de que - tal como ela própria afirmou a vida inteira - a nossa vida ser em certa medida o que dela fizemos e não gostar da sua vida.

Perdigão perdeu a pena... E já não tem vigor para lutar contra o mal. Não é culpa do perdigão nem do mal que ataca, é simplesmente assim, a condição de já não se ser capaz.

Ela foi o meu símbolo de Humanidade, o meu ideal de luta, a minha ideia de persistência, rigor, amor, integridade e compaixão.
Capaz de discutir política e arte com os especialistas nos intervalos dos croquetes que fritavam, ensinou o português às crianças e a matemática e a filosofia aos adolescentes, aproveitando os intervalos para disseminar saudáveis dúvidas teológicas nos muitos padres que eram visitas de casa; feroz na defesa das suas ideias mas terna com o pássaro caído do ninho e capaz de passar a noite a velar as crias da gata vadia que morreu atropelada.

Claro que não era perfeita, fez tanta asneira na vida!
E a par disso, foi muitas e muitas vezes a imagem de quem faz o que pensa que é certo, custe o que custar e a quem custar. E esta nunca é uma escolha fácil: a quem custa, quando não é o próprio, custa bastante, arde, queima, pois não é escolha sua. Quem paga o preço, se não é quem compra, sente-se abandonado e traído sem remissão.
Esse custo alheio dói muitíssimo a quem escolhe, mesmo quando escolhe o que julga estar certo.

Nunca teve o que queria realmente, o que ela ansiava sem dizer, a sua necessidade verdadeiramente premente: uma irmandade, uma cumplicidade contra o mundo e a natureza das coisas, a compreensão do beco da sua vida.
Eu não percebi na altura certa, tão imersa que estava em coisas triviais e comezinhas...

Espero que estejas finalmente em paz, mãezinha. Desculpa-me o não ter percebido a dimensão do teu desgosto em tempo útil.

Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Encontro imediato do 1º grau


Será que se eu encontrasse Deus em pessoa no meio da Av. da República e ele me estendesse a mão, eu lha apertava?

Detesto pensar na resposta mais óbvia e mais verdadeira: depende de como Ele estivesse vestido.

Isto é só coisas que me ralam!

Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

À deriva


Sei lá que vos dizer, ando pra'qui, é o dentista, a médica, o trabalho, a família, o dia-a-dia, ando pra'qui que nem posso.

Não sei que vos diga, fui no outro dia ao chinês e nem comprei nada, era tudo caro, quer dizer caro não era mas eu não tenho dinheiro para folesterias.

Não sei, que querem, perdi o jeito para as conversas de caca, perdão, de sala. Se vocês quiserem conto a história da menina que foi violada, ou então a do miúdo de 7 anos que foi posto nu à porta de casa para aprender a obedecer aos pais; mas acho que ninguém quer essas histórias, são horríveis.

De resto, sei lá, ando pra'qui que nem posso, no outro dia ouvi sem querer umas conversas de corredor, que horror, era só dizer isto e aquilo deste e da outra. E não consigo perceber como conseguem depois sorrir um maravilhoso sorriso pepsodent a ambos, faz-me mal ao estômago, vou marcar outra consulta que isto não é normal, devo ter um problema digestivo.

Como não tinha companhia para o almoço fui antes dar uma volta, olhem arrependi-me porque a senhora velha que chorava no meio da rua disse-me que não tinha nada, não tinha nada, nada, e aquilo era só nervoso, eu que não ligasse, e eu não tive coragem de lhe dar dinheiro, tive medo de a ofender, rais parta este mundo onde um desejo de ajudar pode ofender também.

Sei lá, isto é tão esquisito, a vida toda, as gentes, vocês não acham?!? Pessoas que riem de dia e de noite choram, as gentes, todas as gentes, meu Deus ajuda aqui que eu já não percebo nada, como é possível esta loucura?!?

Isto é só coisas que me ralam.

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Mantra

Não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses, não penses

Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2012

A contingência da Vida

O que eu queria era que não fosse hoje
Podia ser amanhã ou ontem, tanto faz,
Mas que não fosse hoje, nem agora.
Era o que eu queria, se pudesse:
Porque hoje está sol
Um dia luminoso e claro
E eu não sei onde estou
Nem sei para onde vou
Quanto mais por onde vou.
Se não fosse hoje
Eu saberia pela certa
Teria imensas teorias
Que explicariam muito bem
Estar eu onde estivesse.
Com toda a certeza
Se fosse amanhã eu saberia
Porque é que hoje estou aqui
Sem saber onde é aqui;
E se fosse ontem o hoje não existia
E eu não estaria aqui seguramente.


Isto é só coisas que me ralam.