domingo, 15 de agosto de 2010

A coisa do tempo


Alguma vez mais te levantarás e do alto do teu metro e sessenta afirmarás orgulhosa que não precisas de nada nem de ninguém?

Alguma vez poderás dizer novamente e sorrindo que não era preciso, francamente..., como dizias antes quando recebias um presente (e eu ralhava, ralhava...)? Alguma vez mais na tua vida poderás menosprezar uma oferta? Alguma vez mais poderás escolher? Poderás alguma vez mais na tua vida ser livre?

Não e este facto derrota-me. A batalha é apenas contra as pequenas tristezas, os pequenos mal-estares, coisas pequeninas, a boca seca, o guardanapo que falta, a náusea, a dor de barriga, a hora que custa a passar. Irrelevante para o mundo inteiro mas que é agora inteiramente o teu mundo...

Tenho uma foto de uma pintura tua na parede: um sorriso à Gioconda mas com os olhos e a pose diferentes. Determinados, testemunham a vontade férrea da altura em que eras assim.

Mas o Tempo é todo poderoso. Transforma em lamurias o mais nobre discurso, em gemidos o sorriso estóico, em súplica o orgulho silencioso.

Haverá quem diga coisas e loisas, uns com razão, outros sem ela; eu cá só digo que a coisa do Tempo é cega, surda, imprevisível e amoral. Muito sinceramente, espero morrer antes de lhe cair nas garras.

Hélas!

7 comentários:

Maria de Fátima disse...

sem que te seja intenção, eu sei que é meu o modo,
carregas-me naquele lado de mim onde acumulo pecados e mágoas e as coisa boas e as saudades e o raio que me partam que me dói ler-te como o caraças
beijos, cunhada

mac disse...

Cunhadinha favorita, que não te doa (ao contrário das gentes, o tempo é insensível e inexorável e nada podemos contra ele além de uma consciência limpa), as tuas batalhas contra o dia-a-dia conheço-as eu.

Mofina disse...

Quem me dera poder dar-lhe uma palavra de consolo, mas nenhuma existe, pois não?

Coragem!

Blimunda disse...

Não Mofina, por isso quero beneficiar a Mac com o meu silêncio.

Marques Correia disse...

O Folon tem (deixou-nos...) uma escultura chamada "La mer, ce grand sculpteur".
Implantada na praia, a seco ou lavada pelo mar, ao sabor de ondas e marés, o mar e o tempo encarregar-se-ão de lhe bolear as arestas, de lhe suavizar a expressão (a estátua é de um homem sentado olhando o horizonte).
Sem a ajuda do mar, o tempo por si só acaba por nos esculpir, por nos aplainar, por nos desgastar até de nós nada restar.
O mar desgasta a escultura por fora; o tempo degasta-nos também por dentro.
Às vezes mais por dentro que por fora até os olhos, essas janelas para o interior de nós, nada revelarem para além de um vazio escuro e indiferente onde antes se vislumbrava uma alma viva e inquieta...

É lixado!

Marques Correia disse...

Faltou-me o link para fotos da escultura (não fica em hipertexto, mas podem fazer copy & paste):

http://pensarnaodoiaiai.blogspot.com/2010/08/la-mer-ce-grand-sculpteur.html

mac disse...

Mofina, é verdade que palavras de conforto não há. Mas há gestos de carinho (como este que teve), que sim, ajudam. Obrigada.

Bli, adoro ler-te a espernear, palavra.

Marques Correia, quão bem me conheces...