quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O Bem e o Mal

Disseram-me há tempos que mesmo as acções supostamente altruístas são na verdade egoístas: fazem-se porque o mal estar que provocam é inferior ao mal estar que a não-acção traria: o homem nem se conseguiria ver ao espelho para fazer a barba se não se atirasse ao fogo para salvar a criança e a madre Teresa só foi para Calcutá para poder dormir descansada á noite.

Deste ponto de vista, tudo o que se faz é egoísta: faz-se porque não o fazer traria um desconforto maior que fazer. Quando não se faz qualquer coisa que nos até beneficia é porque não o fazer é mais confortável do que fazer.

O argumento não é estúpido, longe disso. É possivelmente verdadeiro: ser uma boa ou má pessoa pode ser apenas uma maneira de classificar as fronteiras de bem ou mal estar que nos impelem a fazer "isto" em vez de "aquilo". Sim, o argumento pode bem retratar a realidade.

Agora: qual a importância disto no conceito geral de Bem e Mal?...

Se não tiver - o Bem é bom e o Mal é mau independentemente da razão pela qual foi escolhido (nesta suposição é sempre a mesma: a acção que traz menor desconforto a quem a pratica) - a moral não passa de uma simples estratégia de sobrevivência individual. A mesmíssima razão que leva a um ratito a virar-se ao gato que o quer comer, apenas se eriça e bufa quando o felino lhe caça a cria e nem isso faz quando a cria é alheia. Não teria nada de Humano.

Sem conseguir - ainda! - analisar concreta e racionalmente porquê, acho que isso está errado; e além de estar errado, é Mau.

Obviamente, também acho que o argumento é falacioso pois esse tipo de egoísmo não é mais que meter no mesmo saco laranjas e limões, com a justificação de que "é tudo fruta!".

Mas que é que vocês querem, chateia-me não conseguir, por análise fria, separar as laranjas dos limões. Independentemente de gostar mais de laranjada ou de limonada, devia ser capaz de os separar antes de provar o sumo.

Hélas!

6 comentários:

KingRaven disse...

Bem, eu não disse exactamente isso :)
O que eu disse é que o objectivo da vida é ser-se feliz e por muito alturistas que as acções sejam, seriam sempre para alcançar a própria felicidade. A madre Teresa ficava feliz por dar tudo e não ficar com nada, etc...
Mas isto não é necessariamente mau nem egoísta. Ao contrario da opinião popular aquilo que nos faz feliz não é fixo nem atribuído à nascença.

O verdadeiro segredo para se ser uma pessoa feliz e que pratica o bem naturalmente está em aprender a obter felicidade directamente das boas acções e não a forçar uma acção que não o faz feliz (directamente, depois faz uma publicidade desgraçada que é "muita bom" recebendo assim no ego a sua felicidade) nem em fazer o mal com a desculpa de que "é a minha natureza".

E ná digo mais nada sobre o assunto que é complexo o suficiente para escrever um livro :P

mac disse...

KingRaven: Sim, não foste tu que me disse isto. Lembro-me dessa conversa que referes, analisava-se a conveniência de ter objectivos concretos e possíveis a alcançar em tempo concreto e finito. Sim, não foste tu que me disseste que todo o objectivo era egoísta desta maneira; foi uma outra pessoa e recordo-me também muito bem dessa conversa.

Sabes? Concordo contigo em que "O segredo para se ser uma pessoa feliz e que pratica o bem (...) está em (...) obter felicidade directamente das boas acções". E também concordo que o assunto é suficiente para escrever um livro (suspiiiiro... Talvez um dia...) e não é este o local ou o meio adequados, o objectivo deste blog é apenas deitar idéias ao ar - se germinam couves dignas de panela ou não, isso já são outros quinhentos.

Diga-se de passagem, acho que desta feita e inesperadamente, há uma bela couve no campo. Não terá sido o blog a fazer crescer o vegetal mas pelo menos faz olhar na direcção certa...

Hélas!

Ana C disse...

Olha, se calhar fui eu porque reconheço bem o meu tipo de discurso.
Agora, onde podemos fazer a diferença entre laranjas e limões, - e quer queiramos quer não é um facto de que os dois são fruta - é ter a plena consciência na altura da acção de que é o egoísmo que nos faz agir ou não agir. Para retomar o teu exemplo, penso que a Madre Teresa foi para Calcutá sem consciência de que essa actuação era ditada pela satisfação do seu próprio egoísmo, enquanto que quem mata uma criancinha expressamente, fá-lo indiscutivelmente com consciência de que está a satisfazer um desejo puramente egoísta.
Se assumirmos que a moral é de facto uma estratégia de sobrevivência individual(ou em certos casos colectiva), então o que separa a moral "correcta" da moral "incorrecta" seria apenas a consciência (de estar a satisfazer um desejo egoísta)... Daí sermos os tais bichos "racionais", porque os outros bichos não querem saber nada disso.

mac disse...

Ana C: Olha, não concordo e os argumentos que apresentas não me parecem sólidos. Vou tentar simplificar, não só para não ser muito chata como para guardar alguma coisa para o tal livro (suspiiiiiro... Talvez um dia...).

Mantendo o exemplo da Madre Teresa e o assassino de bebés, parece-me que dizes que é a consciência de estar a satisfazer um desejo egoísta que faz a diferença. Não pode ser assim, pois para o bebé em causa e para os pobres de Calcutá os resultados são bem diferentes.

Ou seja, fazer o bem ou fazer o mal tem consequências, boas ou más. Acho que é por isto que se diz que de boas intenções está o inferno cheio: na verdade, as acções têm um valor próprio e independente da intenção.

Muitas vezes perdoamos más acções por saber que a intenção era boa e nem ligamos a boas acções quando sabemos que a intenção era má. Mas mesmo nesse referencial, há uma diferença substantiva entre o bem e o mal, nem que seja apenas medida por consequências externas ao executante e à sua intenção.

Relativamente à moral “correcta” ou “incorrecta”, parece-me que é apenas a capacidade de distinguir a bondade ou maldade das nossas acções, independentemente da nossa intenção quando as fizémos (igual nesse referencial, diferente no que eu perfilho). E olha que me parece bem mais fácil assumir que a intenção é sempre egoísta (conscientemente ou não) do que destrinçar o esparguete incompreensível da mente humana, tentando perceber qual o fio mais comprido... Isto porque também penso que uma má acção feita com boa intenção é de natureza – e portanto consequências – muito diferente da mesmíssima má acção mas feita com má intenção.

Sabes que mais? O KingRaven tem razão, isto não tem pano para mangas, tem pano para o enxoval inteiro de uma família numerosa!

Hélas!

Ana C disse...

Claro que o bem e o mal têm consequências diferentes!! Mas para mim, o cerne da questão não era esse.
O que quero dizer é que, aceitando que é o egoísmo que dita as nossas escolhas, mesmos as mais altruistas, esse egoísmo tem importância no conceito geral de bem e mal, na medida em que é ou não é consciente.
Frequentemente, é o egoísmo consciente que nos leva às más acções, ou aos maus resultados, enquanto que o egoísmo inconsciente nos leva às boas acções, ou aos bons resultados.
E não concordo com a palavra capacidade, para distinguir o bem do mal; Pefiro a palavra consciência - no seu sentido literário e não religioso, entenda-se: saber porque estamos a fazer ou a não fazer uma acção, e sermos suficientemente honestos connosoco para reconhecer as razões profundas do que fazemos.
Desculpa lá, mas continuo a achar que somos bichos, racionais, é verdade, mas bichos. E os bichos são egoístas por natureza.
No entanto, continuo a apreciá-los muito mais do que a maior parte dos seres humanos que conheço. Apreciação profundamente egoísta... reconheço.
E isto é só um lencinho para o tal enxoval...

mac disse...

Ana C Olha, não acredito que a madre Teresa tenha uma capacidade menor de se auto-analisar que qualquer malandro, ou menor honestidade para consigo própria, antes pelo contrário...

E eu também acho que somos bichos mas somos bichos diferentes. É como as laranjas e os limões: é tudo fruta, mas há cá uma diferença, nessa fruta!

Hélas!