quarta-feira, 17 de junho de 2009

Adamastor


Passou-me subitamente uma coisa pelos olhos. Uma descoberta, um retrato da nossa natureza.

Vejam bem: uma pessoa gasta montes de energia - na forma eléctrica, claro, mas não só; há também gasto de outras coisas, água, sabão, esforço, tempo, etc - uma pegada ecológica enorme para pegar num bocado de carne e moer. A idéia é pegar naquela coisa una para ela passar a ser muitas, aos bocados, partidas, estilhaçadas, esmigalhadas. Moídas, enfim.

Mas depois - e foi aqui que o carro de trás me ia batendo, com grande alarido sonoro e gestos enraivecidos no espelho retrovisor - juntamos os pedaços obtidos, compactamos, desfazemos o melhor que conseguimos aquilo que acabámos de fazer e servimos com um sorriso as coisas mais estranhas: hamburger, bife raspado (!!), rolo de carne fingido (!!!!), etc.

Qualquer dia tenho um acidente de viação sério, isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

9 comentários:

Anónimo disse...

Com a alface, passa-se o mesmo. Cortadinha aos bocaditos e em cada garfada vai quase uma folha.
Para quê perder tempo a esfanicar o folhame?!
Com as couves ainda vá que não vá...

Blimunda disse...

Sim, tenha cuidado! A desfragmentação do seu próprio corpo é mais difícil de anular.

Obs: Este anónimo tb se deve ter desfragmentado todo. Que é que te aconteceu JG? Andas a fugir da polícia?

Maria de Fátima disse...

a gfente aqui com a rica nunca sai indiferente
andaram aí uns dias que até trazia o kleenex , mas passada essa fase, aí a temos, querida Mac, no seu melhor (e vai em rampa ascendente, começa a parecer aquele humor que lhe conheço) essa de esfarelar tudo para depois juntar...esta mulher!!
ainda me há-de explicar como faria aqueles deliciosos molhos com base de mayonese se não esfarelasse tudo para depois ligar...
e os bolos, minha princesinha das preciosidades de perguntar o porquê das coisas?! tonta, que por um bocado de carne mastigado que encomendou no talho para o jantar, faz o desgraçado da fila de carros quase virar picado

jg disse...

Ó Blimunda, estás a ficar tótó. Não ves que estava noutro computador?!

AC disse...

O hamburger é talvez uma alegoria da esperança.

Mostra que depois da destruição é possível a reconstrução.

A perpetuação desses gestos no quotidiano serve (talvez intencionalmente?) para que nos sintamos com mais confiança de vencer as dificuldades do dia-a-dia.

Bj

AC disse...

Fiz um link para o Shirititi no meu site.
Gosto dos contos e como blog artístico adequa-se à minha secção de links.
Bj

Blimunda disse...

Jg, o colírio estava fora de validade!

mac disse...

Anónimo, é servido de um fanico de resto esfanicado de couve esfanicada?

Blimunda, pelo próprio, então, é quase impossível.
PS.: desfragmentação é uma palavra que, tal como desinfeliz, me baralha as fracas idéias da gramática... Palavras magníficas!

Maria de Fátima, nunca me tinham chamado um nome tão bonito! Estou babadíssima. Ainda bem que ando com o kleenex sempre atrás: quando não serve para assoar o nariz e secar os olhos, é óptimo para limpar a baba. Ou a caca de cão dos sapatos. A sério!!

jg, pode-se logar em qualquer sítio. Vamos lá a saber de facto: jg é o anónimo, transformado por uma crise aguda de preguicite loginosa?

AC, vero. Olha que nunca tinha pensado nesses termos sobre o McDonald...
Quanto ao Shirititi, são experiências que me dão algum prazer... Ainda bem que gostaste.

Blimunda, os óculos, os óculos!

Mofina Mendes disse...

Se conduzir, não pense.