segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A chapada sagrada


Li hoje no jornal a história da Humanidade: a Igreja do Santo Sepulcro foi palco de uma cena de pancadaria, entre monges ortodoxos gregos e padres arménios. A polícia acabou por prender um arménio e um grego (deve ter sido a bem da igualdade de oportunidades).

Tenham por favor em mente que as 6 igrejas que dividem o controlo do Templo são todas cristãs, o que não as impede de andar à chapada no local que proclamam ser o sagrado sepulcro do Deus do Amor e da Tolerância, que veneram.

Querem mais? Uma saída de incêndio não é construída porque não há consenso e uma escada de madeira, colocada no século XIX, não é retirada porque não há acordo sobre quem tem autoridade para o fazer.

É esta a história do Homem: só está real e verdadeiramente de acordo consigo próprio - e mesmo assim, essa paz às vezes não dura…

Hélas!

9 comentários:

Marques Correia disse...

...isto deve fazer-nos pensar sobre os limites da democracia directa: que fazer se nunca se chegar a acordo?
Eleger um tipo que durante um ano (um mês? Um dia?) resolve como lhe apetecer, depois de ouvir os outros?
Eleger um colégio de representantes e delegar nele a resolução "de tudo" durante um ano (um mês ou um dia?).
E se os "representados" não se conformarem com uma decisão do colégio (retirar a escada de madeira por ser, para alguns, um sacrilégio!).
E se a inabilidade para gerar concensos se mantiver, da comunidade para o colégio?
...

Elora disse...

Não foi o Cristo que aconselhou a dar a outra face? Cá por mim ele defendia as chapadas.

Blimunda disse...

É a insustentável malvadeza do ser...

Mofina Mendes disse...

Vi as imagens na TV, impossível comentar...

mac disse...

Marques Correia: Voltamos todos à ditadura da força bruta?...

Elora: Acho que quando Ele perdia a cabeça não era à chapada, era de chicote... Mas ao menos era com os vendedores, não com os colegas.

Blimunda: A minha pública e sincera (não, não é a mesma coisa...) concordância com esta frase lapidar.

Mofina Mendes: Vá lá, é sempre possível comentar... Até é possível rir e gozar, se a alma não amuar.

Hélas!

Marques Correia disse...

Ditadura da força bruta? De maneira nenhuma.
A questão é que uma organização (democrática, teocrática ou outra) que não tem um instrumento para impor as decisões tomadas (deseja-se que democraticamente, mas isso vem a montante do processo) arrisca-se a cair na ditadura do mais forte, capazz de impor a sua vontade.
É assim a modos que uma cidade em que a Polícia entra em greve...
Mas penso que o que se passou é diverso: julgo que a porrada resultou de não terem sequer conseguido tomar uma decisão (sobre a tal escada, etc).
Fico pasmo quando alguém diz que "não há palavras para descrever...", "impossível comentar...".
O pessoal bloqueia ante uma treta de uma cena de porrada, só por ser junto a uma sepultura vazia?! O inquilino, ao que consta, terá bazado pelo seu próprio pé...

mac disse...

Marques Correia: Também ouvi dizer que sim, bazou ao fim de 3 dias farto da falta de espaço e do cheiro (acho que a coisa nem tinha janelas!).

Mas porque ficas pasmado com essas expressões? São apenas uma forma diferente de dizer "Rais parta esta maltosa que não tem maneiras!" mas mais humilde...
Algo parecido com o "acho que não me expressei bem..." quando o que está na ponta da lígua é "caraças, és mesmo estúpido!"

Hélas!

Marques Correia disse...

Fico pasmado porque as expressões, por muito que as usemos em sentido (algo) figurado, mantêm sempre o seu sentido "facial".

E como eu acho que para tudo (t-u tu, d-o do) há uma imensidade de formas verbais para descrever e comentar (principalmente para comentar!!!) o que percebemos, sentimos, vemos, descortinamos, imaginamos (por que não?) fico (quase) chocado que muito boa gente use, precisamente, essas formas espúrias para exprimir como inexprimível o que à sua frente se exprime de forma gritante e lhes entra pelo conhecimento adentro.

Só isso...

mac disse...

Marques Correia: Para um tipo excepcionalmente compreensivo, por vezes espantas-me, tu.

Eu acho que "exprimir como inexprimível o que à sua frente se exprime de forma gritante e lhes entra pelo conhecimento adentro" é exprimir - claramente - que a resposta adequada é demasiado trabalhosa, dolorosa e difícil para o que se obtém em troca (nada. Nada muda pela nossa expressão sobre os sucedidos...).

Nunca te aconteceu, face a um qualquer evento que realmente te dói, virares as costas e ires passear, em vez de dissecar a coisa verbalmente?