terça-feira, 7 de julho de 2009

Parar é morrer


Acreditem, o pior de tudo o que nos pode acontecer é parar.

Quem pára entra imediatamente em estagnação.
Os fungos da resistência à mudança explodem de vida, os neurónios entram rapidamente em inanição, as traças fazem uma festa desenfreada abrindo buracos no espírito, tudo se torna enormemente complicado, trabalhoso e sem interesse, a rotina, o sofá, a TV e o PC ganham o estatuto fantástico de necessidades de primeira ordem.

E arrancar, depois de parado? Estão a brincar?!? A inércia é incalculável. Os fungos demonstram uma estranha vitalidade vegetal, abafando o movimento. As traças abocanham os neurónios inertes, o sofá aparece em sonhos declamando I have a dream and you can have it too, just seat on me and think about it. Boo!, o PC sussurra "Anda cá, tenho o mundo que queres à tua espera" e a vontade fraqueja.

O esforço é hercúleo; a curiosidade, comida pelas traças, prima pela ausência. A necessidade não se revela e é tudo baseado nuns vagos conceitos de que "não se pode estar 20 anos a ver TV sem sentido" e "daqui a nada estou uma couve de Bruxelas num sofá plantada". O pior é que sabemos bem que sim, pode-se viver de TV. E nunca ninguém ouviu falar de couves de Bruxelas infelizes.
E embora um neurónio moribundinho tenha ainda a resistência suficiente para gritar "NÃO!", a verdade é que as pernas já não lhe obedecem.

Então quando as contingências da vida estão contra nós, é dramático. Se bem que toda a gente sabe que as contingências da vida são a melhor desculpa do mundo.

Enfim... Um dia disseram-me que o que conta é tentar. Eu não perguntei para que conta é que isso contava, tive receio da resposta. Mas há-de ser para alguma...

Hélas!

8 comentários:

jg disse...

Parrar é morrer, se for em cima da linha de comboio no horário errado.
Tirando isso, parar é um descanso.
Haja loucura a rodos!!!!

Blimunda disse...

Já comigo a coisa é um bocado diferente uma vez que parar poderia significar viver já que não faço outra coisa senão correr para morrer.

Maria de Fátima disse...

e há o fim da estrada
e há o local
o momento
a cada um o seu
a escolha
a determinação no padrão biológico
a vontade
seja
há o momento em que
por mais
por qual seja tua vontade
há o momento em que se dá início
em que começa a preparação
podem ser anos, dias meses
ou nem se dar por ela
o que duvido tanto
lá dentro está o sinal dado
podes desver
não querer perceber
o que não podes é reverter
o tempo

(qual televisão, qual livro, qual movimento mesmo que seja breve
qual decidir ou querer perceber
a desnecessidade disso tudo
só o mesmo percebe, sente, escuta
indiferente do resto
como se está na fase que antecede uma partida
apenas calmo
sereno
indesejoso do resto e da viagem
aguardando apenas
sereno)

mac disse...

jg, mesmo sem comboio a coisa é difícil!

Blimunda, correr para morrer? Minha amiga, desta vez não fez sentido, explique lá como se eu fosse loirinha.

Maria de Fátima, não, não e não (Alô? Daqui é o moribundinho a falar. Alô? Alô?), não podemos entregar os 20 (30? 40?) anos futuros ao padrão biológico, em compadrio com "o momento". O risco é demasiado alto.

Maria de Fátima disse...

não tem que ver com vontade, amor meu

mac disse...

Maria de Fátima, tem sempre a ver com vontade.

Blimunda disse...

Correr desenfreadamente para a morte julgando que é o correr que conta sem sequer peguntar para que conta é que conta o correr.

mac disse...

Blimunda, ah!
Eu acho que a correr desenfreadamente para a morte andamos todos, desde o instante da concepção... Esta é uma corrida sem paragens, correr não conta nada em nenhuma conta.