quarta-feira, 22 de abril de 2009

Uma dúvida tortuosa


Anda-me a moer uma rebuscada questão (se não fosse rebuscada nem seria minha, né?) e que é a seguinte: como se consegue (admitindo que tal é possível, claro) um retrato realista de nós próprios?

A nossa auto-estima é importante mas altamente polarizada, como é óbvio. Também é perfeitamente óbvio que, se estivermos sózinhos no nosso quintal ou, vá lá, acompanhados de crianças, seremos de certeza os maiores da cantareira (neste caso, cantareira = o NOSSO quintal).

Também é certinho como a noite que todos nós olhamos de forma diferente para nós próprios e as nossas questões e para os outros e as questões deles - pode ser exactamente a mesma situação mas é diferente quando somos nós uma das partes interessadas, não é?

Feitas todas as reticências, como diacho conseguimos nós uma fotografia fiável das nossas rugas? E sem um imagem fiável, como raio é que se acerta com o creme anti-rugas?!? Às tantas, estamos a pôr creme onde a pele é suave e lisa e fica seco e destratado, aquele canyon ali mesmo ao pé!

Isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

10 comentários:

Blimunda disse...

O segredo está em olhar-se ao espelho sempre depois de ter sido elogiada, seja por palavras, seja por actos. Conseguirá angariar razões suficientes para adquirir um creme muito mais apetecível e eficaz tanto para a sua carteira como para a sua imagem e consequente boa alimentação da sua auto-estima. Quando quiser averiguar dos resultados do creme, faço-o novamente depois de ser elogiada, seja por palavras seja por actos, embora por actos tenha um efeito muito mais fecundo e profundo. Como dizem os américas, do you know what I mean?

Maria de Fátima disse...

olha aqui a Blimunda tem carradas de razão: é mesmo só uma questão de disciplina, de querer e de um espelho à mão
depois é escolher a marca do creme
mas eu diria mesmo que a técnica, se bem aplicada, ou seja, seguir com rigor o ver-se APENAS depois de um elogio (ou de um inchamento auto infligido)dispensa cremes, ou massagens
é auto reguladora da imagem
BASTA que nem uma só vez use a cunhada o espelho (diria eu da lama, mas era coisa sem jeito)aqunado de ter cometido u8ma daquelas borradas crassas de que a mais grave nem é sequewr cuspir na sopa nem mandar à merda o chefe...há outras que (e todas) sõ proibitivas de que olhe a sua cara ao espelho
NUNCA, ouviu
fora isso, cuide-se e terá de si o retrato perfeito, o retrato realista que tanto lhe dá em cuidado

Maria de Fátima disse...

alma , cunhada alma
esta disléxia que me mata

mac disse...

Ora batatas, Blimunda, Maria de Fátima, não há no meu corpo inteiro um pingo de falta de auto-estima!

O problema (já cheguei à conclusão de que me exprimo muuuuuito mal, ninguém parece perceber o que eu quero dizer, caraças!) é que a auto-estima é polarizada - NÃO DÁ UM RETRATO REAL, dá a nossa opinião sobre nós próprios. E só olharmos para o espelho após um elogio torna ainda mais eficiente o filtro cor-de-rosa...
Para um retrato real é necessário um olhar indiferente, isento e exterior, como é óbvio. Mas tem também de ser aceite como idóneo por nós, se não não funciona.

Como diacho se consegue isso? Caso se esteja realmente interessado na realidade e não na imagem do Palácio dos Espelhos?

Blimunda disse...

Ora batatas, digo-lhe eu agora Mac! Mas qual realidade? E haverá outra que não a do Palácio dos Espelhos? A realidade será sempre aquela que nós quisermos. Seja a que resulta da nossa análise pessoal, seja a que nos chega ao cérebro através de sinais enviados pelos outros, mas que no final de contas acaba sempre por ser cozinhada pela nossa privadíssima Bimby interior.

Maria de Fátima disse...

que raio de mulher! que eu nem era de auto-estima que falava quando disse
o defeito é seu, cunhada, que dribla mal o retrato em que se mira
e depois, cisma em querer o reverso, quer o retrato assim mais do tipo holograma
quer sofrer um pedacinho, muito se for preiso, mas nunca faltar à verdade com o seu retrato, nunca apresentar-se insonsa e boa sem uma sacanice, uma tropelia, ou de preferência uma falsidade, um ter tramado alguém, não ter amado
deve ter aprendido no catecismo decerto que até sabe o número da página, sublinhado
e ficou com essa merda engatilhada gostar muito de si, ter de si uma boa imagem - cuidado! pode ser coisa do demónio! busque sempre perceber a outra face, não embandeire em arco, mesmo que isso seja o que lhe soa de si por todo o lado
e agora anda a penar, a minha estimada cunhadadinha, a sofrer desalmada por gostar tanto desta sua imagem, demasiado; por não saber usar o creme, diz ela metaforizando, por não encontrar assim aquele defeito que faria jeito ao entrar no Paraíso:
" eu pequei, sabe, Pai"
e Ele, misericordioso (que raio de palavra!!!) a dar-lhe um pouco de tempo, a conversar consigo...a perdoar-lhe
gozo este que lhe será negado com a imagem limpa que de si tem e sem puto de noção de ter um outro lado assim a dar para o pecaminoso
(confesse que a cunhada teme que lhe seja negado acesso a esse lado apenas por não poder sentir o peso delicioso do remorso?!)

não é isto?
pois perdoe...
olhe que isso de não se fazer entender pelo people, pode ter afinal raiz na tal face oculta que a cunhada amiga tanto busca
se precisar ajuda...
tamos cá para isso

Maria de Fátima disse...

Blimunda, escute, seja misericordiosa que a pequena sofre mesmo

mac disse...

Eh lá, esta conversa está subitamente a tornar-se um debate muito interessante! Por partes/gentes:

Blimunda: concordo que a realidade não existe, o que há é uma percepção bem cozinhada pela nossa mioleira.
Mas também é verdade que para o cozinhado sair minimamente decente é preciso haver alguns ingredientes essenciais, entre os quais está uma saudável desconfiança sobre a cor das nossas lentes... O que só se consegue "vendo" através de olhos alheios. Vivemos num Palácio de Espelhos, claro, mas há espelhos mais deformantes que outros. E ainda mais deformante é olhar só para um deles.

Maria de Fátima, isso da religião será trauma de infância?...
Eu não acredito que seja melhor fazer orelhas moucas aos ecos menos agradáveis e viver feliz e cega aos defeitos que temos, independentemente da existência de Deus. Ou não temos connosco próprias uma obrigação de melhoria? E se temos, como diacho conseguimos isso, a fechar os olhos aos nossos defeitos?

Além disso, misericórdia é para os vencidos e pequena é a tua prima, que eu cá meço 1,70 m :)

Marques Correia disse...

Tenho que reler Sócrates, o da cicuta ... espera lá! será que li mesmo alguma coisa dele ou só as habituais transcrições esquemáticas e redutoras. Bom, vou ver se o tipo tinha algumas técnicas para materializar o conselho, conhece-te a ti próprio, com que chateava amiúde os discípulos. Alguns dos quais parece que eram mesmo miúdos...
Se encontrar, conto-te.

mac disse...

Marques Correia, cá fico á espera - a rico não devas e a pobre não prometas (porque os gajos depois não te largam, eheheh...)