sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Incoerências


O cristão devoto dá uma tareia ao ladrão da sua casa, em vez de o convidar a entrar e oferecer-lhe duche, cama e mesa. Depois se calhar vai confessar-se, pedir a absolvição. Embora no íntimo saiba que voltará a fazer exactamente o mesmo se tornar a acontecer, e sabendo embora que assim não o pode ser, acredita que foi perdoado.

o Manel refila com o polícia que o impede de estacionar onde lhe apetece e refila a seguir com a ausência dum polícia que impedisse a Manela de estacionar onde lhe apeteceu.

O muçulmano que forra o sobretudo com bombas para ir explodir a escola berra indignadíssimo contra a brutalidade da coisa, quando uma bomba lhe entra pela janela.

O Jaquim vocifera impropérios ao condutor do carrito que se lhe meteu à frente mas farta-se de rosnar quando quer entrar numa faixa e não lhe dão passagem, e mete-se de chofre.

A raça humana é um contra senso. Os seus elementos elogiam a civilidade, continuam na idade da pedra, do pau e da moca e julgam que são donos da razão absoluta.

Excepto eu, nunca eu. Eu sou a excepção que confirma a regra, como é óbvio.

Hélas!

10 comentários:

Luís Maia disse...

Só não tenho a certeza se isso é uma característica geral dos humanóides, ou nos portugueses é um bocadinho mais acentuada.

Não que eu seja assim, claro, sou o chamado ser irrepreensível, porque não tenho espelhos cá em casa.

mac disse...

Caro Luís, do alto do meu caixote decreto sem apelo nem agravo que é uma característica geral dos humanóides.

Os danados dos portugueses, como de costume exageram tudo, raios os partam a eles e aos seus olhos, os mais castanhos e chorosos do planeta.

Uma vez que estamos aqui só nós os dois, deixe-me dizer-lhe em segredo que entre o seu ser irrepreensível por falta de espelho e o meu ser de excepção por falta de senso, salvamos a honra da raça.

Até lhe porem um espelho em casa à sorrelfa, aí serei só eu porque não há a mínima possibilidade de me darem senso.
Mas arcarei heroicamente com essa responsabilidade, prometo.

Luís Maia disse...

Até que lhe nasça o dente do siso o tal que traz o senso, dizem, e acabando assim os dois únicos exemplares da espécie humanóide raça lusitana.

mac disse...

ó Ninfas, chorai a triste sorte
Da raça lusitana, espécie humanóide,
perdidas sem dignidade nem porte
num ínvio caminho esferóide.

Pendurados numa dentição tardia,
num espelho brilhante e frio,
Chorai, Ninfas, a morte esguia
duma nobre raça sem brio.

jorge c. disse...

O paradoxo é uma característica de qualquer povo. É um género de idiossincrasia, porque não há uma maneira certa de viver.
Para pegar num exemplo seu, um cristão não bate no ladrão porque é um hipócrita mas sim porque sente necessidade (impulso, reflexo, etc.) de se defender. Os princípios dos cristianismo tentam ajudar o homem a afastar-se dessa relação instintiva para gerar a paz. Por isso, o que o cristão faz é um esforço. A confissão será, portanto, um reconhecimento do erro, embora esta situação esteja mais relacionada com os povos mediterrânicos. O catolicismo irlandês funciona de uma forma completamente diferente, por exemplo. E um cristão não tem de ser católico. O protestantes, por exemplo, não usam a confissão, são mais humildes e fazem leituras dos seus comportamentos em grupo, e admitem as suas falhas humanas como a inveja, a soberba, etc.
Mas em relação ao tema central, o paradoxo não tem de ser uma incoerência, é apenas uma consequência das circunstâncias.

Mofina Mendes disse...

Tem razão, mesmo que, ao invés da maioria, não a queira ter!

Ter razão é grande maçada...

mac disse...

Caro Jorge C., eu não falei em hipocrisia, falei em incoerência. O hipócrita não é incoerente, incoerente é aquele que acredita sinceramente numa coisa e age de forma diferente. Nos meus exemplos, os indivíduos são sempre sinceros quando agem. É esse, aliás, o problema...

E não concordo em absoluto com a sua frase final, por duas razões:
1º - À contradição entre pensar e fazer é habitual chamar incoerência, ao passo que paradoxo normalmente é utilizado para referir situações fora do nosso controlo, o que não é o caso.
2º - Nunca é uma questão de circunstâncias. As mesmas circunstâncias desencadeiam acções diferentes, consoante o indivíduo que está sujeito a elas.

Mofina, é bem verdade que toda a gente às vezes preferia estar enganada...

jorge c. disse...

E consoante a situação em que se encontra. Nada é absoluto. A circunstâncias podem envolver uma série de questões de espaço e tempo até mesmo pequenas alterações psicológicas.

Quando eu falei em hipócrita de facto foi um acto falhado. Eu queria dizer incoerente, mas como escrevi à pressa escrevi a primeira coisa que me veio á cabeça e fui erróneo.
No exemplo que dei do cristão, por exemplo, eu digo que é algo que sai fora do seu controlo, é um reflexo, logo admito-o como um paradoxo. Não percebi. A não ser que ache que os cristãos, no caso, são tão maus tão maus que fazem de propósito para agir de forma contrária.

mac disse...

Nada é absoluto, concordo.
As mesmas circunstâncias poderem desencadear reacções diferentes no mesmo indivíduo, para mim não faz sentido - para o mesmo individuo as circunstâncias nunca são as mesmas (por circunstâncias entenda-se aqui uma determinada realidade espacial num determinado instante de tempo), se fossem exactamente as mesmas circunstâncias ele reagia da mesma forma pois seria o mesmo, com a mesma azia provocada pelo mesmo almoço.

As reacções que têm lugar em qualquer circunstância (a mesma definição) são sempre da responsabilidade do indivíduo - todos temos reflexos e impulsos mas aprendemos a dominá-los. Quando não o conseguimos, a culpa não é das circunstâncias mas dessa nossa incapacidade.

Bem, isto já parece um testamento dum tipo rico, mas gostaria ainda de dizer que não acredito que alguém aja conscientemente de forma contrária aos seus pilares racionais mas todos nós o fazemos todos os dias... Poucos têm a capacidade de reconhecer essa discrepância, o artigo é sobre essa incapacidade.

PS.: Eu sou cristã; que tem isso a ver com o assunto?

jorge c. disse...

mac, eu disse isso no meu primeiro comentário.