segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Coisas que dão cabo do sossego


Há coisas que me dão cabo da carola.

Quer dizer, não me espanta nada que um velhote de oitenta e tal, desesperado por não conseguir responder às necessidades, mate a fonte delas para que não necessite mais e se mate a si próprio a seguir, incapaz de suportar por mais um segundo a dor excruciante de não ser capaz de prover a quem ama - é compreensível, quem é que não compreende este desespero? Horrível, claro, mas perfeitamente corriqueiro, uma tragédia comum (muito se poderia dizer sobre ser comum esta horribilidade mas hoje não quero falar disso).

Agora quando vejo uma criança pequena no supermercado começar a chorar gordas lágrimas sem som porque o pai, chateado com o palrar incessante, lhe diz em tom surdo e baixo "Cala-te, és feia a falar!"... Isso dá-me cabo da carola.

Batatas, mas porque é que os têm?!?

Estarão sinceramente convencidos que é mais ou menos a mesma coisa que ter um gato mas mais cool e depois, face à realidade, sentem-se legitimamente defraudados na expectativa?

8 comentários:

Maria de Fátima disse...

e depois dá nisto(s)

Há mais tempo longe da minha infância do que isto:

Imagine-se uma criança a certificar-se da sua existência
batendo os pés violentamente no soalho.
A querer ouvir-se.

Imagine-se uma criança com a cara encostada ao vidro da janela
embaciando-se do seu próprio ar.
A querer ver-se.

Imagine-se uma rapariga que durante anos tomou banho ajoelhada
de modo a que a água ao cair,
fizesse menos barulho nos quartos contíguos à casa de banho.
Como se rezasse, como se não existisse.

Imagine-se mais tarde uma mulher a correr
ao longo de um muro alto,
magoando-se com a sua própria velocidade.
A desaparecer aos bocados.

Marta Chaves na revista INÚTIL



(e dá num "(...)pai, chateado com o palrar incessante,(...)".)
...

Nuno Almeida disse...

São parvos, mac.
A criança, se calhar estava mesmo a ser chata, mas provavelmente a culpa será do pai.

Ainda há dias tive que ir reclamar com os meus vizinhos de cima, porque o filho de uns 2 anos andava a correr do quarto para a sala e da sala para o quarto à 1 da manhã.

A culpa, com certeza não era da criança e foi o que lhes tive que dizer, porque a parvalhona da mãe passou logo as culpas para o pequeno.

Enfim...
Vivemos numa sociedade estranha.
Estas novas relações entre pais e filhos fazem-me confusão e eu não sou de maneira nenhuma, conservador.

Blimunda disse...

Não me está a ser fácil comentar porque estou dividida entre aquilo que parece ter sido esta tua discrição e aquilo que possa, efectivamente, ser. É longa a distância entre o que se nos afigura ao olhar e aquilo que deveras é. Eu sei que longas e silenciosas lágrimas, ainda para mais vindas de uma criança, doi a quem vê. Não sabemos, no entanto, se não será essa a forma de medir forças da própria criança, que poderá já ter sido advertida de que não deve interromper o pai ou a mãe quando esta está a falar com outras pessoas. Dizer à criança que é feia a falar, se é que foi exactamente assim que foi dito, poderá tão-só querer dizer que ela não deve falar enquanto os outros falam. É uma forma de educação. Digo eu, cos nervos.

Maria de Fátima disse...

e no entanto...
sim, Blimunda, compreendo
vê-se por aí coisas de meninos perrengosos e pais amedrontados de dar-lhes correctivo não vá o people circundante levá-lo aos serviços sociais e tirar-lhesa criança...
tudo tem seu enquadramento, sim
eu que me amofino e falo e intervenho se vejo cenas como a que a mac descreve, um destes verões elogiei uma mãe que, assim com ligeireza e a propósito, depositou um bofetão valente na mecheca, filha dela dos seus treze anos: pimba e cala-te senão elas mais - não disse, que bastou o ar dela
a praia a olhar para a senhora toda corada, mas nem olhou em roda, nem gritou, falou até baixinho coma filha e sentou-se e continuou lendo (confessou-me que estava nervosa a imaginar que estava um mundo olhando a cena)
Ora a cabra da moça (estivera eu acompanhando antes que a senhora desse com a cena e agisse sem aviso prévio, nem gritos, nem impropérios) a quem tinha sido dito que brincava prima com o brinquedo apetecido...(não me lembro)e depois seria ela, deu em beliscar o braço da outra com continuidade e sentido de ferir a prima da mesma idade - estoica: dizia apenas está quieta
e na ponta final enterrou as unhas
a mãe entrou em cena
abençoada disse eu do meu guarda sol, mas ninguém para ouvir-me
foi só por acaso que encontrei o trio a comer um sorvete (a mecheca com cara zangada não comia, presumo que na continuação do castigo...)
uma galheta bem dada, disse eu á mãe que era uma moça na casa dos quarenta e que os tinha no sítio - aos modos de educar os gaiatos...

mac disse...

Pois e sim, percebo tudo o que me dizem, até concordo com a maior parte. Embora pessoalmente ache a lambada fraco argumento é muito pior a ausência de educação, estamos todos de acordo.

O pai estava sozinho, nada havia a interromper. A criança falava, falava, falava, na na na na na, isto e aquilo, a mãe assim, o Pedro assado, "não é, pai?"... Acho que o pai chegou simplesmente ao seu limite de ignorar o ruído.

Que lhe dê uma lambada porque já nem a pode ouvir (fraco argumento e se calhar ficava a sentir-se mal, afinal o ruído era a filha a comunicar, não é?...). Mas que nunca associe o "ser feia", coisa horrorenda na sociedade actual, a falar.

Está a criar uma hipócrita santimoniosa, digo eu. Uma daquelas pessoas que não diz o que pensa, com medo de apanhar uma lambada da vida.

AC disse...

Mas não há por aí tanta gente "que não diz o que pensa, com medo de apanhar uma lamabada da vida" ?

Blimunda disse...

Maria de Fátima, a propósito do seu comentário lembrei-me de algo que escrevi aqui há tempos, complementado por este outro texto escrito uns dias mais tarde.

mac disse...

Pois há, AC. E isso é argumento para?...

Bli, correndo o risco de parecer parva chapada, cá vai: a lambada educativa não provoca nenhum trauma, é apenas sinónimo de preguiça parental (não indiferença, nota, a diferença é fundamental). Se a criança for correctamente (coisa que ninguém consegue, né??) educada, a lambada nunca será necessária.
Mas não é isso que aqui está em causa.
O que aqui eu quis sublinhar é que há escolhas que são para a vida mas que muitas vezes são tomadas sem consciência do que é "ser para a vida".