terça-feira, 21 de outubro de 2008

O cego e o zarolho


Para quem não conhece a história, cá vai na versão rápida:

Estes dois apanharam um barco para a outra margem; por força da realidade, o cego ia remando, ao passo que o zarolho dava as indicações:

- Mais para a esquerda... Agora em frente...

Às tantas o cego dá uma remada em falso e acerta no olho bom do zarolho, que exclama:

- Arre, já está!

O cego, pensando que tinham chegado ao fim da jornada, apeou-se do barco e morreu afogado.
...
Às vezes, fico a pensar se o cego fez de propósito e foi a justiça poética das coisas que o tramou.

Hélas!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Há malta alegre...


O vizinho assobiou a avisar da sua presença, o que me deixou logo desconfiada - normalmente só dou por ele quando se ri alarvemente das minhas ralações.

- Podemos falar? - Disse ele, com ar simpático. O malandro sabe muito bem que nunca na minha vida me neguei a falar com quer quer que seja, em que situação for. Está careca de saber que penso que são as palavras a salvação da Humanidade mas só se houver quem oiça.

- Que queres?
- Quero saber se é verdade. Ouvi dizer que que andas para aí a arengar às massas que o Homem é um ser racional e intrínsecamente bom...
- É verdade. O Homem é assim. - Estou segura de mim própria, muito calma.
- Palavra? Mas então porque diabo anda esse tipo a matar-se a si próprio e a estrafegar as suas crianças com requintes de crueldade, há milhares de anos?!?

E esgueirou-se escada acima, a gargalhar desalmadamente. Há malta muito alegre. E são rápidos, a jarra que lhe atirei falhou por um triz.

Hélas!

domingo, 19 de outubro de 2008

Tecnologia


Nunca hei-de perceber a embirração ou a desconfiança pela tecnologia.

Tecnologia é o pau na mão do macaco, é a pedra na barriga da lontra, são os arranha-céus das térmites - cada um tem aquela que a sua capacidade de obrigar a natureza a servi-lo consegue.

Porque é que em vez de se zangarem com a tecnologia não se zangam com o espírito que usa a tecnologia para fins criticáveis? Bolas, não são as pistolas que matam pessoas, são as pessoas com pistolas que matam pessoas! E agora dizem-me que a culpa é das pistolas?!? Que bom, que fácil! Proibam-se as pistolas e acabam-se os homicídios...

Já pensaram que antes de haver pistolas se calhar matava-se mais facilmente e com menos consequências?... É que as pistolas não vieram sózinhas, com elas vieram também outras coisas, aquelas que hoje nos permitem saber que foram mortos os mortos, como foram mortos os mortos, bradar publicamente contra as pistolas que mataram os mortos. E nunca é possível obter uma coisa sem a outra.

Que diabo, acho que é mais do que tempo do Homem reclamar a sua responsabilidade, em vez de se esconder atrás dos meios.

Hélas!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O porteiro II


Como já se aperceberam ou não, dia 11 é dia de rimas cá no quintal.

O dia não tem nada a ver com nada - a tradição nasceu porque foi num dia 11 que pela primeira vez na minha já comprida vida submeti ao escrutínio público (ahahahah, o tipo mais bem escondido é apenas um ramo na densa floresta... O pior é que há quem se esteja a borrifar para a floresta mas conheça perfeitamente o ramo - incongruências do sec XXI, ora bolas...) a minha veia poética.

Desculpem lá, mas ser porteiro é tramado. Pior que ser porteiro só mesmo ser porteiro na própria porta: posso lá agora barrar a entrada a mim própria, mesmo que me apresente rota e lastimável?... Não, o melhor que posso fazer é rosnar "vá lá, desta vez passa, vê lá se da próxima pelo menos vestes roupa lavada..." e dar uma palmadinha semi-carinhosa nas minhas próprias costas.

Oiço um riso escarninho, vindo do andar de cima - o meu inquilino do primeiro andar diverte-se.

Hélas!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Manias


Se há coisa que me irrite em mim própria é a esta mania da análise => síntese => classificação. O impulso irresistível de por tudo em montinhos muito arrumadinhos, com uma etiqueta bem legível por cima: como se o mundo coubesse em etiquetas.

A este traço junta-se um estranho perfeccionismo: nem sonho ser realmente boa em tudo, limito-me a não fazer nada daquilo em que teria vergonha de assinar o meu nome por baixo - um ror imenso de coisas divertidas mas que me estão vedadas por ordem solene de mim própria, que é a mais alta autoridade que reconheço.

Juntem as duas coisas e verão o triste resultado: não tenho nada arrumado porque sei que o rosa velho não tem lugar no montinho do rosa barbie; e embora tenha uma etiqueta que diz suncintamente "ROSA", não há nada por baixo. Sabem, não tenho etiquetas suficientes para todos os tons de rosa que distingo diferentes e não há nenhum deles que não tenha um certo tom...

Suponho que o melhor é comprar uns óculos com lentes cor de laranja, talvez consiga arrumar algum montinho debaixo daquela etiqueta que diz "ESQUISITO".

Só coisas que me ralam.

Hélas!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Vencida mas não convencida


Conversar e discutir têm uma série de diferenças interessantes, já
aqui o disse uma vez. Acrescento agora outra coisa: conversar e discutir são tão diferentes como beber uma aguinha na mesa do café para matar a sede ou para entreter o descanso das pernas: uma é essencial á vida, a outra é apenas um agradável intervalo no que quer que a gente esteja a fazer.

Conversar é uma espécie de trânsito numa junção entre ruas: ora passas tu, ora passo eu, vamos contando à vez o caso que nos acode á mente e, qual ribeira indolente, traçam-se novos rumos e conhecem-se outras ervas mas tudo com a maior urbanidade - ora é a tua vez ora é a minha, ora é a daquele. É sempre uma via de sentido único - um conta e os outros ouvem.

Discutir é outra loiça. Levantam-se convicções, são desafiados credos e opções de vida, raríssimas vezes (que giro, isto é mesmo uma boa definição de discussão, acho eu...) há uma total consciência do que está em causa e que é simplesmente o facto de estarmos a desafiar mutuamente alicerces de personalidade.

Numa discussão apresentam-se argumentos que, com maior ou menor arte do discutidor, explicam e justificam a sua posição face à questão (claro que há uma questão, dahhh!) mas o que é realmente engraçado é que raramente os que discutem estão capazes de analisar fria e racionalmente os argumentos apresentados... Não, estamos normalmente demasiado ocupados a estruturar a defesa (defesa de que ataque?!? Não há ataque, há a introdução de novos dados, numa questão que para nós estava "arrumada" e agora, mas que chatice, pode estar novamente desarrumada...).

Já uma vez fui totalmente encostada á parede, numa discussão com um tipo impecavelmente calmo, gentil e racional: não mudei de opinião, claro, mas aprendi o verdadeiro significado da famosa frase "vencida mas não convencida": quer dizer que a nossa opção não tem bases racionais, estas foram construídas depois, como suporte.

Aprende-se sempre qualquer coisa, numa discussão, mesmo que seja sobre nós próprios.

Hélas!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Riso


Analisem bem e verão se não é verdade: de cada vez que um Homem se ri, é à custa de alguém (ou vá lá, à falta de melhor, de um animal considerado superior, ou seja, pelo menos mamífero como nós...)*.

O riso, aparente expressão de felicidade, na verdade não tem lugar quando esta está presente.

Só nos rimos do sofrimento, físico, sentimental, moral ou racional, e é claro que tenho uma teoria sobre isso (sabem de alguma coisa sobre a qual eu não tenha uma teoria? Digam, digam, que eu vos digo...): instintivamente sabemos que é melhor rir que chorar.

Já repararam? Quem chora encolhe-se, enrola-se, tende a adoptar a posição fetal; a páginas tantas os olhos já só vêem o próprio umbigo - e ainda chora mais, claro. Uma reacção natural pois tudo procura a sua perpetuação, como é sabido.

Mas quem ri espicha a cara para fora e vê os outros e o Universo: além de ter ainda mais motivos para rir (tudo procura a sua perpetuação, como é sabido) alarga os horizontes e amplia o seu mundo. Isso os chorosos não conseguem ao contemplar o seu umbigo; e mesmo as lágrimas de auto-comiseração se extinguem se não forem alimentadas com alimento fresco.

*A idéia de que o riso é sempre à custa de alguém não é original, embora a minha ignorância não me permita apontar o autor.,, Mas posso sempre citar Lautréamont: “Ride, mas chorai ao mesmo tempo. Se não puderdes chorar pelos olhos, chorai pela boca ou por qualquer outro lado. Sejam lágrimas, seja mijo, seja sangue, tanto faz. Mas advirto que um líquido qualquer é aqui indispensável”.

Hélas!

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Tareia


Zurziram-me, zurziram-me e zurziram-me. Uma tareia.

Porque ando chocha.
Porque parece que ando a escrever para a Maria.
Porque não há pachorra para a actual mariquice dos meus artigos.
Porque quem me lê julga que tenho uma doença terminal (e quem me vê diz que vendo saúde!).
Porque não há paciência para quem perorou alto e de caixote coisas e loisas, berrou maldições a quem cala, criticou quem choraminga, zurziu quem esconde e afinal, agora... Amarica em público com saudades da praia.

Bolas, nem sei se hei-de estar agradecida por quem me exige mais se tristíssima por não compreenderem que há alturas em que simplesmente não tenho ânimo.

Sim, também sei que as amizades verdadeiras e desassombradas têm muitas vezes esta minha reacção como resposta. É que quem me zurziu tem razão, sabem?... O que nos apetece nem sempre é o que devemos fazer; muitas vezes é o que não devemos fazer.

Só coisas que me ralam.

Hélas!

domingo, 12 de outubro de 2008

Praia


Sinto saudades do mar.

O marulhar das ondas, sempre igual e sempre diferente, a teimosa superfície até ao horizonte, a enérgica vida por baixo, protegida de olhares casuais, tudo isso me falta.

Sinto saudades da areia da praia.

A aparente suavidade mascarando a firmeza de rocha, a flexibilidade resistente, a teimosia lenta com que regressa à forma original, tudo isso me falta.

Não, não são saudades da infância, tão pouco saudades das férias, podem crer. São mesmo saudades da praia, saudades da tranquilidade que me traz, saudades do equilíbrio que me provoca, saudades da paz que lá sinto...

Hélas!

sábado, 11 de outubro de 2008

Mundos

Por vezes sinto-me estranha
caída da realidade
Onde não há esta manha
E é outra mentalidade.

Donde venho é diferente:
Mente-se de outra forma.
Talvez só mais lentamente
Ou apenas noutra norma.

Às vezes todo este mundo
Me é estranho, bem alheio,
Como um buraco sem fundo
Ou um bicho muito feio.

Por vezes toda esta gente
Me doi no fundo de mim.
Donde venho é diferente;
As coisas não são assim.

As cores que estão no mural
São mais baças, talvez.
O brilho não é igual
E não muda mês a mês.

Doi-me a alma devagar.
Não sei onde estou nem vou.
Só sei que parar e chorar
Nem lá nem cá é quem sou.

É mais de mim avançar.
Mesmo cambaleante,
Meio cega, a tropeçar,
É sempre marcha avante.

Se o abismo lá estiver,
À frente, inesperado,
Não há problema sequer,
Caio apenas noutro lado...


Hélas!