porque uma Folha já está escrita.
Agradece-se adubo, chuva,
caça às ervas daninhas
e outros subsídios
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Inocência
A alegria das crianças é dolorosa
Como as crianças riem, santo Deus!
Com que que inconsciência,
Com que inocência,
Sentem permanente o momento alegre!
E nós sabendo que amanhã vai chover,
Sabendo que amanhã o jardim estará fechado,
Nós sabendo que amanhã alguém vai morrer,
Ou pior ainda, vai viver desesperado.
Mas as crianças riem com a certeza
Que fará sol e será possível brincar
E que estarão no jardim, outra vez, amanhã!
E riem com a boca toda aberta,
E na sua alegria cabe o mundo todo
E cabem todos os tempos
E cabe toda a gente.
As gargalhadas cristalinas,
Os olhos redondos de alegria,
Os gestos soltos e abrangentes...
Doem-me fundo, fundo, magoam,
Como se aquilo que a vida me ensinou,
Fosse uma traição à sua existência.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Ora batatas!
Hoje por ele, amanhã por si...
Ajude-me, quem sabe amanhã você vai precisar também!
Por favor publicite, amanhã poderá necessitar que publicitem para si!
Que irritação sobe por mim acima, quando vejo estes pedidos de ajuda! Só não respondo à bruta porque sei que as pessoas estão aflitas e uma pessoa aflita normalmente não está em condições de avaliar este tipo de consideração.
Além disso, se uma pessoa está aflita a malta tem é de ajudar e não de pregar moral.
Mas caramba, que irritante, que vontade de responder torto! Se uma pessoa precisa de ajuda e a malta pode ajudar, claro! Mas esta ameaça velada: "ó pá, se não me ajudares vais ver, um dia vais precisar de ajuda e ninguém te ajudará e vai ser muito bem feito!", isto dá cabo de mim.
Batatas, a malta ajuda porque a pessoa precisa de ajuda! Não é por haver um qualquer contrato místico com o Universo que nas letras pequenininhas diz que tudo é para a troca.
Irra!
Ajude-me, quem sabe amanhã você vai precisar também!
Por favor publicite, amanhã poderá necessitar que publicitem para si!
Que irritação sobe por mim acima, quando vejo estes pedidos de ajuda! Só não respondo à bruta porque sei que as pessoas estão aflitas e uma pessoa aflita normalmente não está em condições de avaliar este tipo de consideração.
Além disso, se uma pessoa está aflita a malta tem é de ajudar e não de pregar moral.
Mas caramba, que irritante, que vontade de responder torto! Se uma pessoa precisa de ajuda e a malta pode ajudar, claro! Mas esta ameaça velada: "ó pá, se não me ajudares vais ver, um dia vais precisar de ajuda e ninguém te ajudará e vai ser muito bem feito!", isto dá cabo de mim.
Batatas, a malta ajuda porque a pessoa precisa de ajuda! Não é por haver um qualquer contrato místico com o Universo que nas letras pequenininhas diz que tudo é para a troca.
Irra!
domingo, 18 de março de 2012
Meu Portugal
Bem, eu gostava que soubessem que tenho consciência que não percebo grande coisa das coisas, o que estudei nada tem a ver com o que faço, o que me interessa nada tem a ver com o que estudei nem com o que faço e a minha vida tem pouca coisa a ver com o que me interessa, com o que estudei ou com o que faço.
Dito isto, estou à vontade para avançar: o melhor termómetro do país reside no Metro. Nas conversas, preocupações, roupas, sacos, sapatos, auriculares, etc, que se observam no Metro. Ainda há dias ouvi um julgamento lapidar do Sócrates, pelo telelé não sei lá para quem, tia, prima, amiga?!?
"Ó pá, o Sócrates desenrascou-se o melhor que pôde, tu também não ficaste a dever o carro?"
A verdadeira pobreza de Portugal é que só há Metro em 2 cidades.
quinta-feira, 8 de março de 2012
Pergunta, perguntas...
Um dia perguntaram-me se sabia qual tinha sido o melhor ano da minha vida e eu não sabia. Suponho que deve ter sido em criança, tenho uma ideia vaga que minha infância foi muito feliz.
De outra vez, perguntaram-me o que é que eu esperava da vida e eu não me lembrei de nada. Perguntassem hoje e a resposta seria a mesma... Sinceramente acho que não espero nada da vida, o que fiz está feito e para o que não fiz já é tarde.
Talvez fosse mais correcto dizer que desejo que ninguém lá em casa perca o pão nosso de cada dia ou a saúde, que nenhum daqueles que chamo de meus tenha um azar que implique sofrimento. Mas isso não são bem coisas que se esperam da vida, são mais coisas que se espera que a vida não nos dê.
Seria bom, desejar intensamente tirar o brevet, ou construir uma vida alegre num país tropical ou comprar um Aston Martin: isso traria o objectivo que vale o esforço, o motivo para levantar da cama de manhã.
Mas a mim isto não me diz nada; acho que a certa altura da vida e sem eu dar por nada, o meu espírito reformou-se e foi para parte incerta.
Nada quero para mim e aos outros apenas desejo que não necessitem de mim.
Não me interpretem mal, não tenho qualquer desejo de morrer; mas se eu morresse neste instante não ficaria nenhum sonho por conseguir, nenhuma pena pelo tempo ser insuficiente - insuficiente quer dizer que não chega para alguma coisa em que é necessário.
Dos meus sonhos, os que não aconteceram evaporaram-se e já não existem. Não necessito de tempo, pois nada há que esse tempo me possa dar.
A vida por enquanto é confortável e a companhia é boa. Gozemos a vida, então.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Acupunctura
Bom, os drogados cá da casa andam a tentar deixar de fumar. Gotas e comprimidos e agulhas para controlar o estúpido vício. As agulhas são semanais e espera-se delas que... Ajudem :)
Puseram-nos uma agulha temporária a morder a cartilagem da orelha (órgão absolutamente incontornável na luta contra o tabaco! Estranho, estranhíssimo... A orelha?!???)
Hoje a cria, que refilava com a colocação da agulha desde que fora colocada, recortou com ar compenetrado um penso para calos. Chegou ao pé de mim com a sua obra e comandou: pões o buraco disto alinhado com a porcaria da cabeça da agulha, estás a ver?". Eu estava, o buraco ficou alinhadíssimo. Ele alisou a orelha com os dedos e espantosamente sorriu: - Gooooood.
E enquanto eu me ria, ele foi refilando e rosnando não sei o quê para dentro do quarto mas mais satisfeito.
Drogado sofre, né?... Quem me dera a mim perceber que raio têm as minhas orelhas a ver com a minha vontade doida de poluir os pulmões.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
A importância de se chamar lugar comum
- Profissão?
Fiquei a matutar... Se tentasse explicar o que faço para ganhar o pão de cada dia, o homem ainda dava um tiro nos miolos. Nos dele ou pior ainda, nos meus.
Por outro lado o tipo tem de preencher o formulário, se não lhe der uma profissão o cursor não avança e a malta não sai daqui. Bem, há uma profissão que, não sendo profissão nenhuma, em todo o lado é aceite como uma profissão:
- Engenheira.
Boa, o cursor avançou.
- Naturalidade?
Pronto, agora já não há nada a fazer. Daqui passamos para coisas tão surrealistas como Freguesia e coisas assim. Que Deus me perdoe, não há nada a fazer!
Vou masé fumar uma cigarrada, é a única maneira de lidar com o surrealismo.
Fiquei a matutar... Se tentasse explicar o que faço para ganhar o pão de cada dia, o homem ainda dava um tiro nos miolos. Nos dele ou pior ainda, nos meus.
Por outro lado o tipo tem de preencher o formulário, se não lhe der uma profissão o cursor não avança e a malta não sai daqui. Bem, há uma profissão que, não sendo profissão nenhuma, em todo o lado é aceite como uma profissão:
- Engenheira.
Boa, o cursor avançou.
- Naturalidade?
Pronto, agora já não há nada a fazer. Daqui passamos para coisas tão surrealistas como Freguesia e coisas assim. Que Deus me perdoe, não há nada a fazer!
Vou masé fumar uma cigarrada, é a única maneira de lidar com o surrealismo.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
A vida é bela
Ele perguntou, com um sorriso:
- Como estão as coisas? Não veio cá antes da consulta, isso é bom sinal...
Eu também sorri:
- É verdade, as coisas vão bem! Fora o colesterol, a tiróide, os dentes a cair, a parestesia e a cegueira, estou com uma saúde de ferro - não estou a inventar, foi o outro médico que disse, depois de ver as análises!
Ele acenou com a cabeça:
- Bom, então temos de fazer qualquer coisa. Que acha, para o mês que vem?
- Acho bem, Doutor. Eu marco a consulta.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Irritações
Há muitas coisas que me irritam, sou uma rapariga muito irritadiça.
Uma das minhas irritações de estimação são as expressões (e as pessoas que as usam) sobre a suposta queda de valores a que se assiste hoje... Eu tenho péssima memória para datas e nomes mas se puxarem por mim vou à net (maravilhosa invenção) e em 10 minutos saco as mesmas choraminguices e recriminações, só que com datas de há mais de 100 anos e com nomes sonantes (senão nem as conseguia sacar, como é óbvio)...
Bolas, assumam que a vossa tristeza real vem do facto de já não terem 20 anos! E de já não conseguirem acreditar no que acreditavam quando os tinham. E que este simples e incontornável facto vos leva a rezingar com "os jovens" que mais não são para vós que a lembrança dolorosa que já não são o que foram e já não podem o que puderam e já não têm tempo como tiveram.
O que me irritam as considerações "sociais" da malta de hoje! Quando se olha objectivamente para a evolução das considerações sociais de hoje e se comparam com as de ontem, dá-me uma azia contra os meus contemporâneos! Quando vejo gente que, muito a sério, considera que os valores de ontem eram melhores que os de hoje, sobe-me uma coisinha por mim acima.
Apetece-me enviar essa malta toda num foguete temporal que os deposite há 200 anos, com o post-it de "não nobre" na testa. Só para perceberem que afinal não gostam assim tanto dos tais "valores" antigos, especialmente quando um dos seus factores é a quem se aplica.
Irra!
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Perdigão que o pensamento / subiu a um alto lugar
Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha
A partir de certa altura na vida, começou a repetir cada vez mais frequentemente esta frase, com um sorriso estranho. Eu encolhia os ombros, sorria também, dizia inanidades do género "Pois é..." sem na realidade compreender aquele sorriso.
Este tempo passado parece-me que compreendo agora, suspeito... A grande tristeza de saber que já não se é capaz, de questionar fora de tempo se foi a escolha certa, o caminho certo, a vida certa; a noção de que é tarde demais, que se esperou tempo demais, que já não vai dar; o desgosto profundo de não ter ninguém com quem realmente partilhar o tempo do medo; a consciência de que - tal como ela própria afirmou a vida inteira - a nossa vida ser em certa medida o que dela fizemos e não gostar da sua vida.
Perdigão perdeu a pena... E já não tem vigor para lutar contra o mal. Não é culpa do perdigão nem do mal que ataca, é simplesmente assim, a condição de já não se ser capaz.
Ela foi o meu símbolo de Humanidade, o meu ideal de luta, a minha ideia de persistência, rigor, amor, integridade e compaixão.
Capaz de discutir política e arte com os especialistas nos intervalos dos croquetes que fritavam, ensinou o português às crianças e a matemática e a filosofia aos adolescentes, aproveitando os intervalos para disseminar saudáveis dúvidas teológicas nos muitos padres que eram visitas de casa; feroz na defesa das suas ideias mas terna com o pássaro caído do ninho e capaz de passar a noite a velar as crias da gata vadia que morreu atropelada.
Claro que não era perfeita, fez tanta asneira na vida!
E a par disso, foi muitas e muitas vezes a imagem de quem faz o que pensa que é certo, custe o que custar e a quem custar. E esta nunca é uma escolha fácil: a quem custa, quando não é o próprio, custa bastante, arde, queima, pois não é escolha sua. Quem paga o preço, se não é quem compra, sente-se abandonado e traído sem remissão.
Esse custo alheio dói muitíssimo a quem escolhe, mesmo quando escolhe o que julga estar certo.
Nunca teve o que queria realmente, o que ela ansiava sem dizer, a sua necessidade verdadeiramente premente: uma irmandade, uma cumplicidade contra o mundo e a natureza das coisas, a compreensão do beco da sua vida.
Eu não percebi na altura certa, tão imersa que estava em coisas triviais e comezinhas...
Espero que estejas finalmente em paz, mãezinha. Desculpa-me o não ter percebido a dimensão do teu desgosto em tempo útil.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Encontro imediato do 1º grau
Será que se eu encontrasse Deus em pessoa no meio da Av. da República e ele me estendesse a mão, eu lha apertava?
Detesto pensar na resposta mais óbvia e mais verdadeira: depende de como Ele estivesse vestido.
Isto é só coisas que me ralam!
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