A TV está desligada.
No canto, o homem canta baladas quase em surdina, acompanhando-se a si próprio à guitarra. Do outro lado da sala estou eu, a vadiar na rede.
Quando ele pára à procura de uma nota fugidia, eu refilo imediatamente, agreste: Atão? Ele olha para mim espantado, não tinha dado conta que eu estava dependurada nas cordas da guitarra como roupa a secar, presa pelas molas da sua voz. Sorri: Já vai, pá! e os sons voltam. Fluentes uns, hesitantes outros... Já não refilo.
Algumas das letras são surrealistas, o fado no seu melhor a tentar fazer chorar as pedrinhas da calçada, outras são corações despedaçados da mesma forma mas expresso com mais arte; alguns são lamentos desesperados, outros pura alegria.
Todos eles me tocam algures.
Lá fora não se ouve cão, gato ou grilo; tão-pouco rádio, TV ou vozes.
Dir-se-ia que o Chinicato se uniu a ele para me proporcionar mais uma noite que chamarei a mim quanto necessitar de paz.
Há malta com sorte, não há?!?
Hélas!