Hoje foi um dia difícil, contaram-me. Tiveram de fazer manualmente uma operação que em geral é autónoma, serena e discreta; isso acarretou esforço, dor e humilhação, uma impotência que dói... Foi mau, pronto.
Foi com esta frase que hoje fui recebida, "Nunca mais, nunca mais!" e quando eu respondi "mas tu foste enfermeira, sabes que às vezes não há alternativa..." o silêncio e a impotência desesperada que me responderam fariam a felicidade de um pintor talentoso mas a mim, sem qualquer dom para as artes, apertou-me o coração.
Depois o quadro mudou - contou coisas imaginadamente reais de forma convicta e quando chegou o neto favorito, riu-se com ele, uma galhofa pegada sobre pequenos disparates como escovas de dentes para cães e a formação de uma banda de garagem a cantar "Ai, ai, ai, minha machadinha..." acompanhada por gaita de beiços. Sorria um sorriso todo torto, muito contente.
Quando a conversa derivou para o fisioterapeuta que a levanta sem esforço e a faz andar (e que é um belo homem, diga-se de passagem) o neto mete-se com ela e ela ri-se, uma alegria tão... inocentemente alegre. Eu digo-lhe "Tu estás muito saída da casca, hoje!" e ela ri-se novamente e diz "É que ele levanta-me assim!" e faz um gesto aéreo, que significa o poder da força que ela não tem.
Não a via alegre há tanto tempo. Um sorriso de alegria, especialmente torto, vale tanto!
Hélas!