sábado, 10 de abril de 2010

Adeus


Partiu ontem alguém de quem eu gostava, uma velhinha corajosa a quem a vida tratou com especial dureza e que, apesar de tudo, se manteve activamente humana e alegre.

Adeus, tia. Foste capaz de mostrar que é possível fazer laranjadas com limões, sejamos nós capazes de o aprender.

Hélas!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Aniversário


Caramba, que estou cansada. Tantos anos a semear couves!

Hélas!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O ópio da vida


Eu sou do tempo em que o Futebol era o ópio do povo.

O Estado, os Poderes Públicos e os Privados promoviam o Futebol para adormecer nas futilidades clubisticas a racionalidade que poderia tirar o povo, a massa anónima, todos os Joaquins, Antónias, Zés e Marias da mediocridade que lhes era imposta insidiosamente.

Nesse tempo, o Telejornal durava meia hora e os últimos 5 minutos eram dedicados ao desporto rei, com os fantásticos da hora a debitar frases cheias de erros de gramática, de cultura e de razão mas ainda assim capazes de incendiar o coração dos adeptos.

Eu sou do tempo em que o Futebol é religião.

O Estado, os Poderes Públicos e os Privados são promovidos pelo Futebol e fazem gala disso, submissos à vontade do povo que quer que o seu clube ganhe pois a luta, quiçá a vitória, aligeira o trabalho de ganhar o pão e dá sentido aos dias.

O Telejornal hoje dura mais de uma hora. Abre com notícias da bola, passa por uns colarinhos brancos a debitar inanidades, depois umas bombas mas só se se puder ver os mortos ou a família chorosa. A meio - não se pode deixar a audiência desmobilizar - umas bocas dos fantásticos da hora que já não dizem asneiras gramaticais mas continuam inócuos, depois mais uns mortos e outros chorosos e fecham com chave de ouro, os golos de anteontem, ontem e hoje, para rever.

O ópio ganhou. Aliás, as drogas ganham quase sempre.

Não serei do tempo em que o Futebol seja o que é: um passatempo.
Um tempo em que o Telejornal dê a conhecer factos em vez de opiniões e não dê Futebol, que poderá ser apreciado livremente noutro local e com todos os pormenores mas sem dar aqueles ares de notícia ao mesmo nível que um qualquer concurso internacional de invenções bizarras.

Hélas!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Páscoa


Meu Irmão, hoje abandonaram-Te.

Bem sei que as trinta peças foram um pretexto, a razão perceptível para que os homens não façam perguntas insuportáveis; bem sei que dói de forma profunda amar o Sonho, partilhar o Sonho e não compreender o Sonho; bem sei que essa dor leva o homem a coisas terríveis. Sim, acho que sei isso tudo.

Permanece o facto de Tu teres sido abandonado. Tu, entre todos...
Como poderei chorar a minha sorte, qualquer que ela seja, quando Tu foste abandonado? Eu preciso de chorar a minha sorte e sentir-me injustiçada mas como é que o posso fazer quando Tu foste abandonado? É Tua a culpa de eu não poder chorar a minha sorte.

Meu Irmão, dói-me ter-Te abandonado, dói-me abandonar-Te todos os dias, dói-me a Tua tristeza, a Tua solidão, o Teu desgosto e é Tua, a culpa da minha dor.

Hoje abandonaram-Te e eu que Te amo, abandonei-Te também. Depois de amanhã, chorando, suplicarei que não me abandones Tu a mim.

Meu Irmão, meu Irmão... Hoje abandonei-Te, meu Irmão. Desculpa.

Hélas!

Colectânea pascal


Não há alegria? - Então pensa: há um obstáculo entre mim e Deus. Acertarás quase sempre.
[Josemaria Escrivá]

O tempo que passas a rir é tempo que passas com os deuses.
[Provérbio chinês]

O riso é a distância mais curta entre duas pessoas.
[Victor Borge]

Aquele que reprime os ímpetos da cólera estará a coberto de qualquer perigo. É conveniente saber sufocar, ou ao menos moderar, a cólera, o temor, a tristeza, a alegria e outras agitações profundas que podem alterar a rectidão da alma.
[Confúcio]

O desgosto e a alegria dependem mais do que somos do que daquilo que nos acontece.
[Multatuli]

No coração humano, os prazeres não mantém entre si as relações que os desgostos aí conservam; as novas alegrias não fazem renascer as antigas, mas as dores recentes reverdecem as outras.
[Pierre Ronsard]

Apesar do Direito Universal à Alegria eu não a possuo. Vou requerer a reforma antecipada com base em deficiência profunda.
[mac]

Hélas!

terça-feira, 30 de março de 2010

Leituras


Acabei de ler "Em nome de todos os meus", do Martin Gray (será esse o nome? Não interessa realmente, um homem pode ter muitos nomes).

Fiquei impressionada e já não me acontecia isso há algum tempo.

Não pelas descrições do mal, já as conheço e já chorei com elas; hoje já não choro, estou velha e cínica. Também não com a personagem imparável que faz várias riquezas ao longo da vida, a riqueza, dada ou criada, honesta ou não, não me impressiona.
E - bendita idade - também não me impressiona o seu destino. Há gente que nasce assim, com um T na testa, paciência, é a vida.

O que me impressionou foi a isenção. A capacidade de reconhecer que há homens e bichos e plasticinas entre todos os povos. Sob todas as bandeiras e todas as ideologias, a sua e as dos outros, há homens e bichos e plasticinas e os homens são honestos e respeitam as suas convicções sem nunca deixarem de ser Homens, mau-grado os bichos e as plasticinas e a vida que lhes coube em sorte.

Esta maneira de estar na vida está presente em todo o livro embora não seja mencionada muitas vezes. Com tudo o que viveu e todos os que conheceu, ele sabe e testemunha: há sempre, sempre, homens e bichos e plasticinas, em todo o lado e todas as circunstâncias, sob todas as leis, todas as religiões, todas as educações.

A outra coisa que me impressionou foi a total ausência de auto-comiseração. Quer dizer, o tipo reconhece que sofreu, que teve um quinhão de dores e penas bem grande, ele não é nem estúpido nem ignorante. Mas encara a coisa naturalmente: podia ser ele ou outro qualquer, não é o mundo que o ataca pessoalmente a ele, são as circunstâncias e a sua própria capacidade de sobreviver a elas - se morresse no primeiro infortúnio nunca passaria pelo segundo, não é?
De vez em quando, como toda a gente, vai-se abaixo; mas reconhece o facto como uma fraqueza que é necessário ultrapassar.

Este Martin Gray (será esse o nome? Não interessa, realmente) faz renascer a esperança na raça: há Homens. Este e outros. Ao menos isso, batatas.

Hélas!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Fobias


Claustrofobia? Não se visitam grutas.
Enoclofobia? Não se vai a concertos megalómanos.
Vertigens? Não se salta de páraquedas nem se faz body jumping.
É fácil, simples.

Mas...
Quem não consegue fazer uma endoscopia mas precisa dela?
Quem não consegue entrar num elevador com o terror irracional que ele pare mas não tem físico para subir os 15 andares para chegar onde precisa de ir?
Quem não consegue entrar num avião mas tem mesmo de estar em Londres amanhã às 9:00?
Quem entra em stress só de olhar para a máquina do TAC, sem querer saber do botão de pânico para nada, uma vez que este só é útil depois de se estar lá dentro, coisa impensável?
Quem sofre de falta de ar só de imaginar que pode sufocar?
Quem não consegue fazer um RX, no terror de que aquilo o mate devagarinho?

O que deve fazer uma pessoa assim, registrar-se sei lá onde como Portador de Deficiência Maníaca? Vantagens que lhe advirão disso, haverá alguma? Ou serão somente as desvantagens de ser apontado como um def, um tipo indigno de confiança? Haverá uma etiqueta a coser na manga?

Um claro sinal da sua condição é o sorrisinho condescente ou muito entediado/aborrecido dos auxiliares que por acaso tenham de lidar com essa gente.

Aparentemente não são pessoas, são problemas que nem sequer têm a decência de não aparecerem, a estragar a vida de quem trabalha.
São perdas de tempo, chatices inventadas por quem não nos quer bem.
São egoístas decididos a arranjar problemas e sem respeito pelo nosso sossego.
São coisas que não têm direito à existência ou pelo menos à existência à nossa frente, pedindo acção da nossa parte, francamente, a malta está cansada de uma vida de trabalho.
Se calhar deviam ser exterminados. Como as pulgas e outras porcarias incomodativas.

São coisas que me ralam.

Hélas!

sábado, 20 de março de 2010

Casamento


Parece-me que um casamento é um contrato público. Em vez das 2 pessoas envolvidas guardarem para si próprias a sua vida particular, pedem ao Estado que reconheça que estão emparelhadas; em troca, o Estado dá-lhes alguns privilégios civis.

Historicamente este contrato era celebrado com 2 pessoas de sexo oposto por motivos tanto religiosos como práticos (era necessário ter alguma segurança para as crias que andavam pelo mundo; aliás, a religião, em muitas e muitas coisas, foi sempre uma eficaz maneira de obrigar as massas ignaras a terem hábitos saudáveis, como lavar as mãos e tomar conta dos seus dependentes).

Já há muitos anos que nada disto faz sentido: o Estado é laico e toma, melhor ou pior, conta das crianças; a educação básica é obrigatória e as coisas simples como limpar o rabo e tomar banho são impingidas às criancinhas sem apelo ao sobrenatural.

Agora os/as maricas querem não ser excluídas dos tais privilégios civis e regulados pelo Estado. É normal, também os pretos lutaram para se sentar no autocarro, as mulheres lutaram para poder votar, etc, etc, etc - a boa e eterna luta dos excluídos para serem incluídos.

Não compreendo porque é este assunto tão controverso mas também nunca compreendi porque é que os maricas (mais eles que elas) mexem tanto com as pessoas do seu sexo que não são maricas. Por vezes, parece que têm receio que aquilo se lhes pegue... Ou será outro o receio?

Hélas!

domingo, 14 de março de 2010

Até amanhã


Ouvem a rima "Estou aqui" com "Trouxe-te um café"? E nos versos "Bom dia" e "Queres ir dar um volta?", detectam a sublime poesia?
Quem não ouve é duro de ouvido.

Até quando for, que a vida é sempre até quando for... Mas enquanto é, vale a pena, as penas, isso vale. Não é o destino - sempre o mesmo, na realidade - que marca a viagem, é a companhia que marca a viagem, mais o que somos capazes de fazer graças a ela e com ela. Tudo junto é uma coisa espantosa, imparável, um soneto absolutamente único.

Eu sempre disse que quem tem rimas tem tudo.

Hélas!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Sorriso

## Publicado automaticamente ##

Vi a cara dele
serenamente feliz
calei o que ia dizer
a vida é tão curta
deixá-lo aproveitar
o momento
amanhã chorará
esta felicidade
quiçá o amanhã
não chega nunca
ao menos
sorriu hoje
genuino sorriso
de felicidade.

Hélas!