Ora bem, hoje voltei a ter uma grande discussão com o meu vizinho do cimo das escadas.
Diz-me ele (vejam bem o contra-senso!) que eu devia confiar mais no meu primeiro instinto.
Claro que eu respondi que a Razão pode não ser imediata pois muitas vezes é atropelada pelos sentimentos, crianças mal-educadas e sem maneiras mas com uma vitalidade e força imbatíveis; apesar disso, a Razão é sempre mais... razoável. Realista. Sensata. Ponderada. Construtiva. Confiável. E sim, Humana.
Não é que aquela aventesma olha para mim e desata a rir-se? E entre as gargalhadas me chama nomes, tipo xoné, marciana e ingénua?...
Mas vocês não acham isto um desaforo?!? Afinal é ele que mora no piso de cima, devia desancar-me com a superioridade da caixa craniana enquanto eu me encolhia a murmurar a delicada subtileza das razões sentimentais de um coração sensível...
Ainda por cima... Ingénua, eu? Acho que até fiquei vermelha da fúria, as tais crianças impetuosas a quererem sair pela boca fora e eu a tapar a dita com a mão para dar tempo à Razão de se impor... Escusado será dizer que ver o gajo agarrado à barriga e a chorar de rir, não ajudava nada; a Razão, não sei porquê, é um bocado tímida face ao riso desalmado.
Ri-se sempre de mim, aquele mafarrico.
Mas um dia hei-de rir eu dele, olá se hei-de! Nem que seja em outra encarnação.
Hélas!