Nós não gostamos da verdade e essa é que é essa.
Não gostamos das coisas como são, só gostamos das coisas como deviam ser; e este deviam contém todo o nosso egoísmo, todas as nossas manias, todas as nossas limitações, todas as nossas loucuras e todas as nossas virtudes; a palavra chave aqui é nossas.
Se dependesse de nós, a verdade dos outros não existiria e a Verdade, assim com letra grande, seria sempre só uma, a nossa.
É necessário amor para encarar a verdade dos outros. É necessária honestidade, para aceitar as coisas que lá estão e que são verdadeiras e das quais nós não gostamos. É necessário sacrifício porque dá imenso trabalho mudar a nossa verdade, mais a mais com coisas que não nos beneficiam em nada. E é necessária firmeza, porque a verdade dos outros também não é a Verdade, é simplesmente a verdade deles.
E isto é uma trabalheira desgraçada. Para quê? Porque raio havemos nós de nos importar com a verdade dos outros? Porque não é suficiente a nossa, porque diacho nos importamos com as diferenças e defendemos acaloradamente a nossa verdade?
Acho que é porque no íntimo, lá bem no fundinho do nosso ser, escondido no escuro e muito tímido, reside um gajo horrorosamente firme e que nunca se dobra. A gente bate-lhe, mata-o à fome e abafa-o mas o parvalhão nem morre nem dobra. E quando, já cansados, lhe gritamos "E o que é a verdade, hã? Diz lá o que é a verdade, hã?!?" ele olha para nós mas não responde, porque ele nunca responde àquilo que a gente já sabe.
E é preciso amor para dizer a alguém a nossa verdade. Acho que é preciso tanto quanto o necessário para a ouvir.
Acho que é por isto que, em geral, a verdade me dói. E também é por isto que agradeço o facto de ter gente que me diz a sua verdade. Porque na verdade é muito mais fácil fingir que a verdade dos outros é a nossa verdade e, francamente, essa é a maior mentira que conheço.
Hélas!