quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Gostava de ser poeta


Um poeta é um joalheiro da língua.

Da matéria bruta contida em qualquer Dicionário, faz obras únicas, intrincadas, sofridas, em camadas infindáveis, buriladas com uma paciência de velho chinês... Obras belas na sua identidade única e natureza variável.

O poeta depois refaz novamente, lima aqui, acrescenta acoli, corta mais além... Nunca fica satisfeito - quanto melhor a obra mais sensível ao tempo do espírito de quem lê (o autor não é excepção pois é antes de mais, gente; e a poesia tem essa Natureza, é mutável sem nunca perder a sua identidade, como as pessoas) - a obra só está acabada quando é roubada ao autor.

Ao ser lida, sofre uma metamorfose do tipo Pedra Filosofal mas aplicada a si própria: deixa de ser o que foi para ser - realmente SER - a coisa percebida - tão única como única é a identidade de quem a lê no tempo em que o faz. É mágico.

É por isso que a poesia é intraduzível - o melhor que se consegue nesta área é uma imitação deslavada - se lerem uma boa tradução é porque não é tal, é a expressão de um poeta inspirado por outro e a obra é intrínsecamente diferente. Não é possível traduzir poesia, do mesmo modo que não é possível fazer um anel de ouro usando prata, embora se possam fazer anéis com ambos...

Também gostava de ganhar o Euromilhões.

Hélas!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Intervalo


[Porque isto anda uma bandalheira tal que já nem o dia 11 cumpre a sua obrigação de semear sonhos, resolvi (outra vez! Há palermices estupidamente reincidentes, não há dúvida) lutar contra a maré. Decidi, contra o mais elementar bom senso (sou tonta, sim, mas uma tonta com pretensões racionais), adaptar o canal do Panamá aos meus intentos particulares e invadir uma outra horta só parcialmente minha:]

Hoje o sol põe-se em silêncio,
A Vida vê a pausa, inquieta,
A Morte ri-se, lá do Outro lado:
- Querias, não é? Mas hoje não estou para isso.
Os segundos passam, lentos, seguros,
Tudo continua como antes, imutável
O Homem chora pérolas mais salgadas
e o seu desespero é mais amargo e duro.
Não há matemática
capaz de igualar a Zero
esta equação.

Hélas!

sábado, 10 de outubro de 2009

Barraca


Barack ganhou o prémio Nobel da Paz.

Eu gosto dele, da sua estudada leveza, da pose, do savoir faire.
Quanto ao resto, sei lá?!? O homem só está naquela posição há uns meses, nem teve tempo de ler todos os arquivos dos assuntos difíceis, veremos os seus actos. Mas para já, é diferente do que estamos habituados, não é de graça que é um não-branco, o primeiro não-branco na Casa Branca.

Isto achei fantástico, só nos USA, esse país inquinado de preconceitos raciais, teorias do mérito e defesa despudorada do seu próprio modo de vida. Não sendo fã dos USA em tanta e tanta coisa, confesso que fiquei impressionada com aquele povo, quando o tipo ganhou as eleições - na liberal Europa parece-me impossível um não-branco subir a tal altura, para já.

Mas é conveniente realçar que não fiquei impressionada com ele, fiquei impressionada com o povo dele.

O Nobel da Paz é outro assunto. Que raio de provas privadas terá dado o homem (públicas parece-me que não há) para estar ao lado de Mandela que impediu, além de um passageiro banho de sangue, uma doentia propagação de ódio - que custa mais a ser absorvida pelo planeta que um saco de plástico?

Ele confessou-se espantado. Eu cá também fiquei mas no meu caso é o discernimento comezinho de uma pessoa vulgar. E também me entristece saber que o espanto pela barraca do Nobel o honra a ele mas não a mim, pela própria natureza da humanidade.

Hélas!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Inquietação


Acho verdadeiramente inquietante não fazer a mínima ideia se daqui a uma semana estarei a rir ou a chorar.

Devia haver seguros contra a tristeza - com o prémio pago em alegria pronta-a-usar.
As prestações seriam em horas de nem-triste-nem-alegre (já imaginaram o balúrdio?...) e reclamar o seguro seria livre - tantas horas depositadas compram x minutos de alegria.

Tenho mesmo jeito para estas coisas, não percebo porque é que não arranjo investidores: já calcularam o mercado potencial deste negócio?!?

Bem me parecia que a culpa era deles; é por estas e outras que Portugal não anda para a frente, caramba!

Hélas!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Hoje


Hoje é segunda-feira, 5 de Outubro de 2009, são 12:50 e é feriado.

Ocorre-me de repente que não é feriado para todos, só para os portugueses. Também não são 12:50 para todos, há malta na Terra que acabou de se deitar para uma boa noite de sono. Nem sequer é 5 de Outubro de 2009 para todos porque há povos que não têm o mesmo calendário...

Como diacho é que se conseguiu que fosse segunda-feira para todos?!?

Isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Stress


Antes de mais, nada, deixem-me esclarecer: recuso-me a utilizar o Brasileirismo - portanto Português - "estresse", porque a ortografia de tal vocábulo faz-me dores de cabeça.

Posto isto, deixem-me dizer-vos que não tinha um dia como o de hoje, a sentir fria e conscientemente a tensão da passagem do tempo, lutando deliberadamente minuto a minuto para que todos os segundos tenham o seu quinhão de trabalho útil - com um sentimento construtivo - há muitos, muitíssimos, ciclos. Este ano aziago foi palco de demasiadas situações de stress para mim mas, ao contrário desta, eram situações em que pura e simplesmente não tinha qualquer controlo, tipo tsunami.

Venci, no sentido em que não me acobardei, não desmaiei, não tratei mal ninguém, não perdi a cabeça nem de nenhum outro modo desperdicei um segundo que fosse.
Se o trabalho sai ou não sai, isso para mim é outra questão apesar de saber que para o mundo o que interessa é o resultado.

Hoje sinto-me orgulhosa de mim própria.

Hélas!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Blá, blá, blá...


Toda a gente sabe que há pessoas que falam pouco. Porque é que falam pouco, isso é outro tratado... Há algumas que são tímidas, outras têm a paranóia do segredo, outras ainda têm pavor que alguém saiba a sua opinião... Toneladas de razões, todas muito diferentes.

Também toda a gente sabe que há pessoas que falam muito; e também para estas as razões são infinitas: há quem tenha receio do silêncio, quem só se sinta bem a fazer publicidade a si próprio, quem tenha sede de ser ouvido, etc, etc, etc - é quase cada vida cada razão.

E também toda a gente sabe que há muita gente que nem é duma qualidade nem da outra: falam muito de vez em quando e falam pouco de quando em vez.

O que há poucas pessoas a saber é que há gente que pensa em voz alta e fala em silêncio.

Hélas!

Objectivos


"- O objectivo do homem é ser feliz.", atiraram-me com esta, um dia.

Dá-me uma certa vontade de rir: só mesmo o Homem, para ter como objectivo uma impossibilidade! Mas claro, de vez em quando somos realmente felizes...

Se calhar ficamos viciados, prontos a tudo na busca de mais uma dose.

Hélas!

domingo, 27 de setembro de 2009

Milagres


Há qualquer coisa de mágico numa vida que se renova; é por isso que toda a gente gosta de bebés, sejam eles humanos, animais ou vegetais. Um bebé é a prova concreta que o mundo não acabou sem nós darmos por nada.

Por outro lado um bebé, apesar de coisa nova, é igualmente tão velho como a vida, pelo que a sua existência é também uma espécie de compromisso da Natureza que o mundo na sua essência se mantém compreensível.

Adicionalmente, o bebé com a sua fragilidade de recém-chegado a este vale de lágrimas, necessita de cuidados dos que já por cá choram e esta necessidade revitaliza a utilidade dos mais velhos, muitas vezes permitindo-lhes reencontrar o sentido da vida que perderam pelo caminho, afogado pelas mágoas do dia-a-dia.

Quem tem filho(s) sabe disto instintivamente, mesmo sem estas secas considerações. Quem já adoptou um animal bebé também, assim como quem já teve animais a nascer em casa. Os Jardins Zoológicos sabem-no perfeitamente, há anos. Os agricultores, ou quem tem uma horta, também.

Podem não ter escalpelizado a coisa de forma tão seca mas conhecem perfeitamente as promessas e consequências de uma nova vida, todos eles.

A mim nasceu-me um ananás, que querem? Quero lá saber que o Socas tenha ganho as eleições! Isso era de esperar, inesperado e mágico é ter um ananás no quintal. E não me venham com discursos eloquentes acerca da importância da política na vida-de-todos-nós. A importância das coisas não tem rigorosamente nada a ver com milagres.

Hélas!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Life finds a way


As imagens tornam sempre tudo muito mais lento mas não resisti: tem fruto!!!!

Quem diria que o ananás que comi aqui há 5 anos, aliado à mania que tenho de fazer sobreviver as folhas opulentas mas minimalistas daria nisto?!? Caramba, quase me saíram os olhos das órbitas quando, afastado o matagal do jardim - casas onde não se vive, sabem como é... - vejo este filhote orgulhoso e prometedor!

Não há dúvida que o futuro é sempre uma incógnita.
Se me tivessem dito que a bela planta da sala que se tormou demasiado grande daria nisto, eu não tinha acreditado. Plantei-a no jardim porque a salvei do lixo, porque é bonita e porque na sala já ocupava demasiado espaço com as suas folhas aguçadas. Claro que esperava que sobrevivesse mas na realidade sem muita fé pois, como disse antes, é uma casa onde não se vive, visita-se.

Mas voilá...

Hélas!