terça-feira, 4 de agosto de 2009

Olhai os lírios do campo


Olhai os lírios do campo: não trabalham nem fiam. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, com toda a sua glória, se vestiu como um deles.

Olhai os lírios do campo e vede: metidos no campo ou no vaso horrorosamente roxo da vizinha, sem qualquer liberdade de vestir umas jeans fora de moda e uns ténis rotos. Olhai para eles mas olhai bem: não podem apanhar uma piela, bater no vizinho, correr a salvar uma filha do desespero ou deitarem-se do vigésimo andar a rir.

Olhai e tende misericórdia - uma espécie de vitamina da alma - mas sobretudo, sobretudo, olhai e tende gratidão.

Olhai os lírios do campo. E reconhecei a graça de não serdes um deles, ricamente ajaezado, ricamente agrilhoado, ricamente limitado.

Antes ser pobremente feliz e dolorosamente livre. Com umas sandálias freak, uma camisa aos quadrados, umas calças roxas com riscas azuis e a infelicidade garantida em qualquer dos ilimitados recantos do livre arbítrio.

Obrigada, Senhor, por não ser um lírio do campo.

Hélas!

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Simplicidade


Às vezes invejo os simples de espírito - parece-me tão mais fácil ser feliz quando se é simples de espírito (mas também deve ser mais fácil ser infeliz, embora isso neste momento não me interesse nada).

Outras vezes invejo os simplesmente simples. Também deve ser mais fácil ser feliz, quando se é simples (mas também deve ser mais fácil ser infeliz, embora isso neste momento também não me interesse nada).

Ainda outras vezes - menos, naturalmente - invejo a pessoa que seria, se fosse como algumas pessoas dizem que sou: um parafuso com roscas a mais, uma complicadinha dos pirolitos (são uma cambada, os alguns, ah! pois são!).

Pensando nisto hoje, chego à conclusão que sou, muito simplesmente, invejosa.

Que chatice, sempre detestei invejosos.

Hélas!

sábado, 25 de julho de 2009

O outro bem sabia


Há dias em que desejamos não sermos nós. Como é que dizia o outro? "Que grande felicidade não ser eu!", era uma coisa assim.

Quando o peso da carga parte as costas, o facto de termos sido nós próprios a por o saco aos ombros é avassalador. Não se vislumbrar uma alternativa decente é apenas a cereja em cima do bolo.

Dizem que o que não tem remédio, remediado está; mas é mentira, acreditem.

Hélas!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Piloto automático


Ia escrever sobre uma coisa muito interessante que, aliada a estranhos hábitos humanos, ainda ficava mais interessante. Daquelas coisas que nos passam pela cabeça à noite quando, já quase a dormir, pensamos na Vida. Na nossa e na dos Outros.

Lembrei-me disso anteontem mas depois meteu-se não sei o quê. E lembrei-me ontem mas intrometeu-se a caça às bruxas. Hoje estou para aqui parva, a tentar lembrar-me do que era assim tão interessante... E não me aparece nada na carola.

Cada vez percebo melhor os robots e devo confessar que isso me rala um bocadito.

Hélas!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pensamento


Pensem nisto e digam-me qualquer coisa se vos apetecer e se não houver uma festança divertida no horário.

Porque é que o homem dá sistematicamente mais importância à perseguição do supostamente culpado que à resolução do problema existente?

E não me digam que é para evitar repetições de erros passados, porque nisso não acredito eu.

Hélas!

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sonho com sono


Sonhei que o Obama morria de acidente e acordei sobressaltada.

Nunca tinha sonhado com um presidente - estrangeiro ou nacional. Nunca tinha sonhado com a morte de um desconhecido e eu não conheço o homem de lado nenhum. Não foi um pesadelo mas acordei sobressaltada.

Só me faltava agora, depois de velha, andar a sonhar com coisas que me acordam. Qualquer dia acordo com o sonho de uma noite de verão.

Bom, pensando bem, isso até era fixe, não era?

Hélas!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O sentido da prosa


Hoje não é dia de poesia.

O vizinho de cima sorri, escarninho - É dia de prosa com sentido - diz ele e vai-se embora, deixando-me sozinha a contas com o sentido da prosa.

E agora, Adalberto?!? Que hei-de eu dizer em prosa aos meus pares, que valha o tempo que gastam a ler?? Guerra, política, Nietzsche, roubos, spam, moral... Batatas, isto são tudo lugares comuns, gastos como os degraus da igreja velha.

E ainda dizem que difícil é ter um filho. Caraças, foi muito mais fácil, ele tinha de nascer e nasceu, ficou feito e prontes, não há cá confusão nenhuma.

Agora prosa... E com sentido, ainda por cima?!?
Estão a brincar com a tropa - um dia destes arrependem-se.

Ora batatas.

Hélas!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Contra-relógio


O sono é muito e as horas são poucas.

Dão-se alvíssaras a quem conseguir colocar 3 horas de sono em 1 de relógio - podiam cooperar, em vez de estrebuchar, caramba!

Qual modelo de negócio, qual carapuça! Isto sim, era inovação com dentes.

Hélas!

terça-feira, 14 de julho de 2009

A vida continua


É um cliché.

E é a realidade. Uma calamidade, um terramoto, maremoto ou whatever depressa são engolidos pelas necessidades dos vivos, porque os mortos estão para além disso, não necessitam de nada na nossa dimensão.

De certa forma, é triste - parece que os mortos não fazem falta, o que todos sabemos que não é verdade.
De outro ponto de vista, é um hino fantástico à Esperança - seja o que for que se passar, a humanidade continua a bulir - mesmo a humanidade tão próxima que deixa de ser humanidade para ser simplesmente irmão, mãe, pai, amigo, tio, entidades concretas.
De um terceiro ponto de vista (?!?), não há qualquer relação entre as coisas; são assuntos disjuntos e é tolo meter os dois no mesmo raciocínio.

Haverá mais, certamente, muito mais. Amanhã pensarei sobre isso.


Hélas!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Hoje


Hoje, há uma jovem que chora.

Sei que ontem houve muitas, hoje muitas há e amanhã mais haverá - mas não me interessa, egoísta na minha triste natureza humana - hoje, há uma jovem alegre que eu conheço e que chora.

O desespero da impotência, conheço-o bem; também conheço bem o medo profundo, oleoso, peganhento e traiçoeiro. Mas não conheço a dor funda e irreparável da perda dela. Apenas posso imaginar, confortavelmente longe da realidade.

Ela chora, hoje. Amanhã não chorará porque o físico é fraco e as lágrimas esgotam-se. Mas o desgosto continuará imenso, arrasador, incalculável.

8 anos, foi-lhe roubado o futuro. Que dizer?!? Menina, eu sei que não vale nada mas o meu coração chora contigo.

Hélas!