quarta-feira, 24 de junho de 2009

Soft skills


Acabou hoje um ciclo de 4 dias de formação. Tema geral em epígrafe, temas particulares: recursos humanos (nome odioso), liderança, delegação, auto-conhecimento e auto-controlo, QE, comunicação.

Tudo coisas de senso comum, embora comummente não sejam dissecadas, analisadas, sintetizadas e organizadas; as pessoas não gostam da frieza de uma análise e síntese objectivas, especialmente quando aplicada a si próprias.
Mas em geral são coisas do conhecimento e aprovação de todos; muito poucos se atrevem hoje a ir contra isto e, se o fazem, normalmente é por uma de duas razões: ignorância do assunto ou incapacidades na área.

Gostei, claro. Quem me conhece sabe que adoro psicologia, sociologia, e outras ias relacionadas com pessoas.

Conheço relativamente bem quase todos os formandos e regra geral são pessoas a quem respeito pelo menos a inteligência; talvez por isso ficou consolidado hoje o desgosto. Na maioria das vezes, discutia-se o que não estava em questão ali e naquele momento (valores morais, educação, status, incompatibilidades pessoais... Assuntos para outro forum.) Nunca ou quase o assunto que está na mesa: técnicas de auto-controlo, técnicas de comunicação, técnicas de influência. Técnicas, senhores, técnicas. Para o que são usadas, isso é outro curso...

PS.: expliquei-me bem? Eu pertencia à tribo dos formandos, nesta formação. Mas já dei aulas de várias coisas, em diversas fases da vida; não sou estranha à tão bem controlada frustração da formadora.

Hélas!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Oferenda


Um cacho de uvas. Meia dúzia de bagos redondos, num saquinho transparente de papel celofane.

Ora batatas, mas isto tem algum jeito?!? Ficar comovida por umas tolas bolas sumarentas - ninguém diz que são doces, se calhar são piores que limão, só com cachaça, gelo e muito açucar é que marcham - num papel pindérico de loja, por muito poeticamente descrito que tenha sido?

Caramba, tenho mesmo de ir à bruxa para me assegurarem que não, o meu desconcerto é apenas mau-olhado e por meia dúzias de patacas posso ver-me livre disto.

Se ao menos fossem melancias, haveria peso na razão. Mas tintol e apenas em potência??

Hélas!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Atacadores


Fui ver na Wikipedia: cadarço é um cordão usado para prender os sapatos e ajustá-los ao pé (olha a novidade).

São compostos de um determinado número de fios longitudinais (urdume) e transversais (trama), além de possuir um acabamento chamado de ourela. Pode também servir para o ajuste do tamanho da cintura em peças de roupa como o calção, a bermuda, a sunga ou as calças de pijamas (aparte o nome estrambólico de urdume, também aqui não há nada de novo).

Cadarço também é a denominação técnica para artigos produzidos em teares planos, com inserção de trama por agulhas (ah?). Em português de Portugal, chamam-se atacadores (pois, eu não sabia... Quando vou à loja peço "aqueles atilhos para sapatos").

Fico na mesma. Porque diacho se chamam atacadores? O homem diz que é porque "atacam" o sapato, prendendo-o ao pé. Ou então, explica ele, porque se tiram do sapato e atacam-se com eles os pescoços dos outros (desde que estejam distraídos). Pois, pode ser.

Fascinam-me, estas palavras de parentalidade incógnita.

Hélas!

O porta-chaves é sempre útil?


A propósito de bolas de papel, a
Lenor disse um dia que acertamos sempre em qualquer coisa mas para acertar naquilo que se quer, e não é garantido!, tem que se levantar muitas vezes o rabo da cadeira.

Tem razão, carradas de razão. Mas o problema agrava-se, face à razão que ela tem:
  1. Ficamos com aquilo em se acertou (como na bancada da feira, em que se aponta para o urso de peluche e se ganha o porta-chaves do pinóquio) ou
  2. Levantamos o rabo da cadeira, uma, e outra, e outra vez ainda, cheios de porta-chaves que ainda dificultam mais a pontaria, para tentar mais uma vez o urso?
A minha proverbial teimosia aponta para a segunda hipótese, claro.

Mas... E se, depois de esforço insano, se ganha o urso e se verifica que não é nada do que sonhámos? Que andámos a perder tempo e vida, ambos insubstituíveis, desde o primeiro pinóquio?

Sim, devemos perseguir o sonho incerto ou regozijarmo-nos com a realidade certa?

Só coisas que me ralam.

Hélas!

sábado, 20 de junho de 2009

Sou uma princesa


Mais precisamente, sou a princezinha das preciosidades de perguntar o porquê das coisas.

Este epíteto inflou-me o ego e nem me interessa nada que a sua fonte seja uma irmã do coração. Não interessa nada pois é também uma pessoa inteligente (inteligentíssima aliás, para me ver assim só podia ser uma cabeça de respeito), nada mariquinhas (tenho as costas cheias de nódoas negras, tanto me zurziu nos últimos tempos e nem me deu uma pomada calmante, a bruta) e experiente (está reformada e toda contentinha com o tempo livre para as suas muitas outras ocupações, já me viram esta rapariga?...)

Que querem?!? Senti-me lisonjeada e não sou (alguém é, realmente?...) totalmente imune á lisonja.

Reparem:

  1. na importância: não sou uma, sou a;
  2. no carinho: não sou princesa, sou princezinha;
  3. no respeito: são preciosidades, não trivialidades;
  4. na proximidade: é perguntar, não explicar;
  5. na relevância: não são as coisas, são os seus porquês.
O meu vizinho do cimo das escadas nem tosse, tal é a inveja. Bem feita; da próxima vez que vier cá abaixo gozar comigo, obrigo-o a ajoelhar primeiro - afinal, não é todos os dias que se está em presença da monarquia.

Hélas!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Desinfeliz


A propósito de uma coisa que agora não interessa nada, achei que fazia sentido re-editar aqui um artigo da defunta Folha de Couve.

É perfeitamente legítimo ainda que repetitivo, porque a dita Folha me deixou em testamento todos os seus bens (os que não eram dela foram a enterrar também, para lhe fazer companhia):

Porque é que "desinfeliz" se refere a uma pessoa que não é feliz?
Des-in-feliz. A negação de uma negação não devia ser a afirmação?

Só coisas que me ralam.


Vêem? As minhas ralações são antigas, veneráveis e reincidentes. Até já aqui fiz referência a este assunto.
Ora batatas, pareço gaga a repetir-me desta maneira.

Não voltarei a dizer o que já disse, antes de se passarem 10 anos.
(isto é um bocado estúpido...)
Não voltarei a dizer o que já disse, antes de se passarem 10 anos.
(principalmente quando se pensa na própria frase...)
Não voltarei a dizer o que já disse, antes de se passarem 10 anos.
(um contra-senso completo...)
Não voltarei a dizer o que já disse, antes de se passarem 10 anos.
(estás a repetir que não te vais repetir...)
Não voltarei a dizer o que já disse, antes de se passarem 10 anos.
(Vou lá para cima que isto aqui já deu o que tinha a dar)
Não voltarei a dizer o que já disse, antes de se passarem 10 anos.
(Arre!)

Hélas!

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Charlot electrocutado


Do alto das minhas muitas primaveras, costumo dizer que actualmente há muito pouca coisa que me choque. É verdade: há muitas coisas que continuam a entristecer-me mas ficar chocada é cada vez mais raro.

Hoje fiquei chocada: numa sala cheia de gente nova, semi-nova e já entrados na terceira fase como eu, veio uma jovem pedir voluntários para ir à praia. Como é óbvio, não se tratava de saber quem gosta de mar; tratava-se de haver uma necessidade numérica de pessoas adultas e responsáveis que levassem à praia quem não pode lá ir sozinho.

Não me chocou que ninguém quisesse, é natural. O que me chocou foi a rapariga ter sido - não muito discretamente - gozada. Brincadeiras(?...), ditos cómicos e risadinhas. É assim tão cómico, pedir ajuda para ajudar pessoas desfavorecidas pelas Sortes?

Suponho que devia sentir-me contente: nem sempre se consegue voltar a sentir estas emoções da juventude, não é?

Hélas!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Adamastor


Passou-me subitamente uma coisa pelos olhos. Uma descoberta, um retrato da nossa natureza.

Vejam bem: uma pessoa gasta montes de energia - na forma eléctrica, claro, mas não só; há também gasto de outras coisas, água, sabão, esforço, tempo, etc - uma pegada ecológica enorme para pegar num bocado de carne e moer. A idéia é pegar naquela coisa una para ela passar a ser muitas, aos bocados, partidas, estilhaçadas, esmigalhadas. Moídas, enfim.

Mas depois - e foi aqui que o carro de trás me ia batendo, com grande alarido sonoro e gestos enraivecidos no espelho retrovisor - juntamos os pedaços obtidos, compactamos, desfazemos o melhor que conseguimos aquilo que acabámos de fazer e servimos com um sorriso as coisas mais estranhas: hamburger, bife raspado (!!), rolo de carne fingido (!!!!), etc.

Qualquer dia tenho um acidente de viação sério, isto é só coisas que me ralam.

Hélas!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Amigos


Aqui há muitos, muitos anos, eu era cegueta como sempre fui - mas na altura não tinha carta de condução e portanto não usava óculos ou lentes de contacto. Era alegremente cegueta a pé pelos passeios, não corria o risco de atropelar alguém... Engano meu.

Um dia passei por alguém a quem não vi - e como não vi, não lhe falei. Ela tomou aquilo por desprezo. E o desprezo, sabe-se lá como, estendeu-se à família. Uns dias depois, no cinema, vi a filha. Falei-lhe mas ela não me respondeu, olhou em frente de olhar fixo. Eu não percebi - de vez em quando sou tão estúpida como um calhau redondo. Semi-estranhei mas o filme estava a começar, ela nem devia ter ouvido, era uma miúda bem porreira. Esqueci a coisa.

Dois dias depois, não dava para enganar: frente a frente, eu disse com um sorriso: "Olá!" E a filha, sem desviar os olhos mas desviando o passo, népias. Um sepulcro. Nem bom dia nem boa tarde, nem olha, pá, vai à merda.

Fiquei espantada. Valeu-nos uma amiga comum a quem contei o caso, confundida: ela era uma miúda porreira, eu sabia que era, porque raio teria feito tal cena surrealista??? A amiga explicou.

Eu fui falar com a mãe, explicar a minha falta de visão e assegurar que não tinha sido propositado. Pedi compreensão para a deficiência e eles deram-ma: no dia seguinte, toda a família me cumprimentou com sorrisos e eu sorri de volta... Foi bom.

Hoje, velhota a rememorar lembranças, deu-me para questionar. Não ela (que se ofendeu por um pretenso insulto mas esqueceu tudo quando percebeu que o insulto não tinha existido), nem a família dela (a quem ninguém tinha ofendido mas que cerraram fileiras solidárias - eu não concordo com esta actuação mas percebo perfeitamente), mas a amiga comum. A que me esclareceu e permitiu resolver a coisa.

Ora batatas, então não me podia ter chamado de lado e dado uma desanda?!? Perguntado porque raio eu andava eu a ofender assim os amigos?

Não percebo nada de gente, está visto. É que também ela era uma miúda porreira, essa amiga. Estou certa que não me chamou de lado porque não me quis chatear e não percebo isso - sendo minha amiga, não me devia inquirir quando me via a fazer asneira?!? Os indiferentes são às montanhas, ninguém precisa de mais.

Isto chateia-me para caraças - sou cegueta de outros olhos e nem sequer sei onde é o oculista.


Hélas!

domingo, 14 de junho de 2009

Portadores de diferença visual


Vulgarmente chamados "cegos" - eu sou uma pessoa muito, muito vulgar. Além disso, detesto eufemismos, principalmente estes que querem fazer de conta que um cego não é cego e um coxo não é coxo. Como se chamar goiaba a uma cebola lhe retirasse as propriedades irritantes para os olhos e anulasse a sua contribuição ao refogado. Parvajolas.

Bem, voltemos aos cegos:

Um foi atropelado por uma vaca. Ficou com uma costela partida; nem o cão-guia lhe valeu, isto de passear tranquilamente no campo é perigoso.

Outro foi preso por infracções de trânsito; foram-no buscar a casa porque o tipo nunca guiou na vida (ficou cego em criança). Viver na cidade, com tanta informática também é perigoso. Ou pelo menos incomodativo.

Foi em terras de sua Magestade, sabe-se lá que mais aconteceu noutras terras menos tolerantes com os media...

E eu, que sempre julguei os Monty Python uma série sarcasticamente exagerada, verifico que mais uma vez, a realidade supera a ficção.

Hélas!