domingo, 14 de junho de 2009

Portadores de diferença visual


Vulgarmente chamados "cegos" - eu sou uma pessoa muito, muito vulgar. Além disso, detesto eufemismos, principalmente estes que querem fazer de conta que um cego não é cego e um coxo não é coxo. Como se chamar goiaba a uma cebola lhe retirasse as propriedades irritantes para os olhos e anulasse a sua contribuição ao refogado. Parvajolas.

Bem, voltemos aos cegos:

Um foi atropelado por uma vaca. Ficou com uma costela partida; nem o cão-guia lhe valeu, isto de passear tranquilamente no campo é perigoso.

Outro foi preso por infracções de trânsito; foram-no buscar a casa porque o tipo nunca guiou na vida (ficou cego em criança). Viver na cidade, com tanta informática também é perigoso. Ou pelo menos incomodativo.

Foi em terras de sua Magestade, sabe-se lá que mais aconteceu noutras terras menos tolerantes com os media...

E eu, que sempre julguei os Monty Python uma série sarcasticamente exagerada, verifico que mais uma vez, a realidade supera a ficção.

Hélas!

sábado, 13 de junho de 2009

Humanidade III


Estive a ver um documentário sobre elefantes.

Como são apanhados. Como, depois de apanhados, são submetidos ao ensino da obediência, antes de os ensinarem a trabalhar... Nada de especialmente violento ou maldoso, apenas barulho e estímulos tácteis permanentes durante cerca de uma semana, o necessário e suficiente para lhes quebrar a vontade.

É sempre triste a perda de liberdade, triste a sujeição a quem é mais forte. Muito mais triste ainda é essa sujeição ser interior e não apenas coisas físicas que nos limitam, correntes ou grades.

Às tantas, a voz off informa-nos que durante tal ensino, alguns simplesmente morrem, outros enlouquecem. Os que resistem estão aptos a aprender a trabalhar.

Os elefantes são parecidos connosco, acho eu. Aliás e relembrando uma outra reportagem sobre ursos (também morrem, enlouquecem ou sujeitam-se durante o treino) chego à conclusão que temos realmente muitas parecenças com os nossos primos mamíferos, mesmo sem ter pelo ou cauda.

A maior diferença de todas é mesmo a capacidade de escravizar outrém. E por muito de me doa, é graças a ela que estamos onde estamos; além de matar e escravizar, curamos o cancro e temos centros de acolhimento de animais moribundos.

Ora batatas.

Hélas!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Palavras leva-as o vento


Passas pela vida como um rafeiro sem dono
Desconhecido e ignorado pelos teus pares
Matas a esperança nas noites sem sono
O mesmo náufrago em não sei quantos mares.

Doi-te a alma em que não acreditas
Tens sede de água com sabor e cheiro
Afogas-te nas mesmas pragas malditas
Com que se apaga o sol no aguaceiro.

Agonias e vomitas na solidão
Sem nunca sequer estares sózinho
Choras, ganes que nem um cão
A quem a trela ficou no caminho.

Perdeu-se a bússula e o Norte
Ficou a vaga idéia de um destino
Andas aos tombos e à Sorte
Perseguindo a sombra de um Ninho


Hélas!

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Contentamentos


Acordei hoje normalmente com o despertador, às 6:50.

Olhei com os olhos remelosos o display do relógio da mesa de cabeceira e de repente lembrei-me - hoje é feriado! Virei-me para o outro lado e voltei a dormir.

Há contentamentos tão simples... Gostava de ser assim simples no resto do dia.

Hélas!

segunda-feira, 8 de junho de 2009

A tranquilidade do rio sonolento


Quantas vezes a mente fraqueja, subjugada por qualquer coisa que, uns anos depois, até é risível?

No passado, os anos encolhem. Os acontecimentos condensam-se em factos e somos perfeitamente capazes de perceber o fenómeno causa-efeito... Mas continuamos tão cegos relativamente á causa da causa como sempre.
Infelizmente, não percebemos isto e pensamos que está tudo percebido, não vemos que a causa tem, ela própria, uma causa que não vemos. E fraquejamos quando a causa aparece novamente, não reconhecemos a repetição.

Pelo contrário, no futuro, os anos alongam-se. Parece-nos que há tempo para tudo, inclusivamente para corrigir os nossos erros. Puro engano, o tempo passa imperturbável ao seu próprio ritmo e quando reparamos a oportunidade passou, como a Primavera. Virão outras, claro, mas diferentes. Nunca, mesmo nunca, se terá a mesma oportunidade.
Infelizmente, temos uma obscura e deturpada consciência deste destino e não percebemos inteiramente que amanhã é realmente outro dia, nunca mais teremos o mesmo dia e a mesma situação.

Dito isto, meus caros, só me resta dizer-vos outra coisa: gostaria de perceber a causa da causa, pois acho que me traria tranquilidade. Gostaria de, tal como sou racionalmente capaz de perceber o fenómeno, ser também capaz de o digerir, apreender, interiorizar e viver em conformidade.

Mas não sou.

Hélas!

Plágio


Amor é fogo que arde sem se ver;
(...)

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


O que está nas reticências é treta para rimar; o que não está infelizmente não fui eu que escrevi mas saiu-me da boca.

Rais parta a natureza humana.

Hélas!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O centenário


Estava a ouvir o centenário, de quem não gosto há anos e anos, aquele que tem montanhas de etiquetas catalogando-o na minha despensa como um fazedor de Xanax, um parvalhão arrogante e com a mania que é mais inteligente, potente, culto, ágil, cosmopolita, viajado, arguto, etc., etc., etc. e de repente o velhadas estraga tudo e diz uma coisa que não só é sensata como verdadeira e não peca por presunção. Mais ou menos isto:

- Já não tenho amigos, nem mais novos nem mais velhos, foram-se. Isso deixa uma grande melancolia... Gostaria de ser lembrado com essa melancolia.

Ora batatas, lá terei de colar um post-it sorridente naquela caixa forrada a caras feias. Já não bastava o resto, agora o estupor do homem ainda por cima me desarruma a estética.

Hélas!

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A teoria do caos e a magia


Gosto imenso da Teoria do Caos. Adoro a história da borboleta que bate as asas na China, provocando um furacão na Europa.

Dá uma tranquilizante sensação de causa-efeito, como se o mundo fizesse sentido mesmo que sejamos tão limitados que não o podemos apreender. Eu até utilizo a palavra acaso, que quer apenas dizer "Não percebo como batatas é que tal coisa aconteceu". Fica subentendido que se eu não fosse tão lerdinha até poderia perceber - é reconfortante...

Deve ser por isso que não sou supersticiosa: a superstição, como a magia, querem apenas escapar ao inevitável.

Hélas!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Dissonâncias


Quanto eu me sentir feliz, haverá algo ou alguma coisa que virá lembrar-me do que não me corre bem. Se por um inapropriado e extemporâneo alinhamento dos astros tudo, mesmo tudo, me estiver a correr bem pessoalmente na altura, algo me vai lembrar das criancinhas do Biafra ou qualquer coisa mais contemporânea mas igualmente horrorosa.

Se ao menos eu tivesse vocação para mártir! Mas não, prezo demasiado o meu conforto e bem-estar. Essa fuga está-me vedada.

Se eu fosse um génio, uma gaja capaz de inventar um milagre como o micro-crédito... Mas não, sou demasiado cumpridora das regras existentes para desafiar assim todo um sistema, não consigo sair o suficiente para fora da caixa.

Se eu fosse revolucionária, matava a ferro e fogo o que estivesse mal, ficávamos só com as coisas boas, seria tão bom! Mas não, o meu espírito está completamente infectado do vírus mais-vale-consertar-que-destruir, indissociável do já-viste-bem-pelo-outro-lado?, nem tem cura já, isto é uma chatice.

E se eu fosse supersticiosa? Isso era bestial, ia ali à bruxa da esquina, a mulher só prediz futuros radiosos (acho que os búzios dela estão viciados mas ela diz que não), era porreta. Mas eu acho que um gato preto é um gato que mia como os outros, uma escada é uma coisa prática que serve para subir e descer e um espelho é um rio sólido e sem azar quando chove; não me parece que consiga.

E se eu fosse simplesmente má? Borrifava-me para tudo e todos, só queria saber do que me trouxesse satisfação pessoal... Acho que era o mais prático mas depois o vizinho do cimo das escadas não me deixava dormir. E eu não me aguento sem dormir.

Não há remédio, parece. Ora batatas, acho que só me resta processar os meus pais, por perdas e danos causados por uma genética deficiente.

Hélas!

sábado, 30 de maio de 2009

A vida é bela


Está um dia de sol fantástico e eu estou feliz.

Não quero saber como estarei amanhã nem quero saber como estarei para a semana. Neste preciso momento, a vida é bela.

Hélas!