Quanto eu me sentir feliz, haverá algo ou alguma coisa que virá lembrar-me do que não me corre bem. Se por um inapropriado e extemporâneo alinhamento dos astros tudo, mesmo tudo, me estiver a correr bem pessoalmente na altura, algo me vai lembrar das criancinhas do Biafra ou qualquer coisa mais contemporânea mas igualmente horrorosa.
Se ao menos eu tivesse vocação para mártir! Mas não, prezo demasiado o meu conforto e bem-estar. Essa fuga está-me vedada.
Se eu fosse um génio, uma gaja capaz de inventar um milagre como o micro-crédito... Mas não, sou demasiado cumpridora das regras existentes para desafiar assim todo um sistema, não consigo sair o suficiente para fora da caixa.
Se eu fosse revolucionária, matava a ferro e fogo o que estivesse mal, ficávamos só com as coisas boas, seria tão bom! Mas não, o meu espírito está completamente infectado do vírus mais-vale-consertar-que-destruir, indissociável do já-viste-bem-pelo-outro-lado?, nem tem cura já, isto é uma chatice.
E se eu fosse supersticiosa? Isso era bestial, ia ali à bruxa da esquina, a mulher só prediz futuros radiosos (acho que os búzios dela estão viciados mas ela diz que não), era porreta. Mas eu acho que um gato preto é um gato que mia como os outros, uma escada é uma coisa prática que serve para subir e descer e um espelho é um rio sólido e sem azar quando chove; não me parece que consiga.
E se eu fosse simplesmente má? Borrifava-me para tudo e todos, só queria saber do que me trouxesse satisfação pessoal... Acho que era o mais prático mas depois o vizinho do cimo das escadas não me deixava dormir. E eu não me aguento sem dormir.
Não há remédio, parece. Ora batatas, acho que só me resta processar os meus pais, por perdas e danos causados por uma genética deficiente.
Hélas!