Meados de um Fevereiro passado, um frio de rachar.
O miúdo pequeno, 5 ou 6 anos, estava na rua pela primeira vez, via-se. Notava-se na confiança com que se aproximava, na expressão inocentemente triste com que recebia as respostas dos condutores. A roupinha quase nova e muito limpa atestava um cuidado familiar amoroso que o tinha preparado para o serviço. Lembram-se quando vestiram a vossa cria para ir para a escola pela primeira vez? Era a mesma coisa.
Vendia pensos rápidos e agendas "baratinho, menina, baratinho!..."
Eu não quis. O sinal mudou para verde, eu arranquei - até hoje, passados anos, perseguem-me aqueles olhos enormes, inocentemente incrédulos na sua incompetência em ajudar a por o pão na mesa e a lenha na lareira.
Teria 6 anos se tanto e levarei a imagem da sua face comigo eternamente.
Não me venham com tangas de que "é necessário que perceba que isso não é vida" - a verdade é que um criança tão pequena não devia ter os sonhos desfeitos à beira de um semáforo, num Fevereiro tão frio. Tudo o resto são justificações do nosso egoísmo - hoje, não tenho qualquer dúvida que o que Dante nunca teve coragem de escrever é que há um nível no Inferno onde simplesmente somos olhados por incrédulos olhos inocentes.
Hélas!