domingo, 8 de fevereiro de 2009

Fantástico


Dei-me de repente conta do desregrado uso que ando a fazer da palavra fantástico.

Ele é fantástico isto, ele é fantástico aquilo, vocês não acham fantástica esta fantasia?... Tudo é fantasticamente fantástico, um enjoo miserável de fantasticidade.

A língua é tão rica, porque diabo ando eu presa ao fantástico?!? Caramba, alguém me devolva a normalidade se eu não a conseguir sozinha. O meu espanto continua presente, claro, mas há tantas palavras mais... Bolas, que de vez em quando tenho saudades da escola. Onde nos ensinam sem trabalho.

Hélas!

O Fogo do Lar


Observem a lenha da lareira com atenção.

Peguem num dos troncos. Revirem-no, verifiquem a sua perfeição posta em relevo pelos nós na madeira, pela falta de lisura e pelas linhas tortuosas. Admirem a sua unicidade, não há dois tocos iguais. Passem os dedos pela superfície áspera e maravilhem-se pelo calor que, não existindo de facto, também não está ausente... Admirem as subtis mudanças de cor num pedaço tão pequeno que mal representa a unidade de onde veio.

Peguem noutro tronco e comparem: são os dois tão fantasticamente belos, com uma beleza comum que, apesar disso, é absolutamente única!

Meus amigos, a Beleza é uma coisa fantástica. Aquece a alma.

Hélas!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Felicidade


Pensem nesta questão: que vos faria felizes?

A paz no mundo? Uma nova Madre Teresa? Uma pacífica solução israelita/palestiniana? Indústrias e carros não-poluentes? A morte da pedofilia? O desaparecimento de Mugabe? Saldos verdadeiros? A erradicação da malária? Uma beleza estonteante? A cura para a Sida? Ganhar o Euromilhões?

É fantástico como entregamos a felicidade a coisas fora do nosso controlo.

Hélas!

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O rato e o leão


O rato é um animal tímido, prefere fugir e esconder-se quando se sente observado, é fugidio e prudente. Mas é persistente; foge perante o perigo não avaliado ou avaliado como demasiado perigoso mas espreita logo a seguir para ajuizar se o tal perigo já se escafedeu e já pode fazer o que quer...

Não o encurralem que vira fera. Arreganha os dentes e ataca com coragem, seja qual for o tamanho do atacante; se quiserem ver o espectáculo degradante de um ser vivo encolhido a chorar misérias e implorar misericórdia, nao peguem num rato porque ele não o fará. Se houver uma aberta, foge lépido e só não deita a língua de fora porque não é essa a sua linguagem; mas se não houver, morre lutando. O que um rato nunca faz é deitar-se de costas e sujeitar-se ao destino.

Eu gosto de ratos. Gosto mais de leões, que rugem à trovoada em vez de fugir ao perigoso e desconhecido barulho, mas também gosto de ratos. Agrada-me a sua recusa à rendição.

Hélas!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Pavlov?


A coisa passa-se assim: estou eu com os meus azeites, a boca azeda da limonada, viro-me estúpidamente agressiva a quem não me fez mal (é sempre assim, não é? Reflexão para outro artigo, caramba que tenho mesmo de aprender a tomar notas!) e, em vez da óbvia reação defensiva, obtenho... Um sorriso quente. Uma frase gentil. Uma coisa assim de quem nem notou a agressividade, a violência gratuita e vil.

É um bocadito difícil de explicar mas imaginem que estão zangados com o mundo e dão um encontrão a alguém e esse alguém, em vez de se firmar nos pés para não cair, estende o braço e tenta ajudar no que lhe parece um desiquilíbrio, não um encontrão. É completamente diferente de quem sentiu e quis perdoar, não tem nada a ver com alguém que pesou, mediu e decidiu que não se devia zangar. É uma coisa diferente, um impulso natural.

Nessa situação, olhem, eu liquefaço-me... Enrola-se-me a língua, o coração aquece, os pés fraquejam e o juízo volta a si. Mas, pensando bem... Será que reparo sempre ou depende da limonada? Quantas vezes terei eu empurrado brutamente alguém sem notar e sem notar passei por cima do sorriso gentil e da frase calorosa? Ajudando, com a minha falta de atenção, à extinção de uma espécie milagrosa?

Caramba, uma pessoa pode tão facilmente dar em doida.

Hélas!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Idade avançada


Os anos são uma coisa tramada.

Quando temos poucos, tudo acontece por milagre; juntamos mais uns quantos e achamos que há malta (a mamã, o papá...) que faz milagres; mais uns poucos e acreditamos que somos nós os capazes de fazer milagres, com a nossa vontade, teimosia e esforço; depois chegamos a velhos e deixamos de acreditar em milagres. O que quer dizer que também deixamos de reconhecer os milagres que de facto acontecem.

Com a minha idade avançada, eu estou nessa última fase, o que me chateia. Já não basta saber que não sou capaz de fazer milagres, ainda por cima tenho de reconhecer as minhas próprias cataratas?!?

Só coisas que me ralam.

Hélas!

domingo, 25 de janeiro de 2009

O Homem é de vidro


Factos da vida humana:
  1. Todos temos fragilidades -  não as mesmas nem no mesmo número, mas toda a gente as tem;
  2. Quando são pressionadas, estas fragilidades podem provocar pensamentos, acções e reacções irracionais, exageradas e até maldosas - normalmente frutos da fragilidade ferida e da nossa reacção à dor, não da situação em si mesma;
  3. É muito difícil, por vezes mesmo impossível, reconhecer estes factos quando nos dizem pessoalmente respeito; mesmo mais tarde e já fora da situação, é raro termos a capacidade de analisar pensamentos, palavras e actos de uma forma objectiva e racional;
  4. Uma reacção inconsciente de auto-protecção muito comum a solicitações às quais não temos condições emocionais para responder é: "...eu não consigo responder a isto como devia... Mas não, não devo nada porque fulano é um grande malandro e não me merece este esforço".
Resta-me reconhecer que, sendo eu uma pessoa como qualquer outra, tenho exactamente estas mesmas limitações. Só posso dizer que nunca fechei uma porta, nunca me recusei a falar com alguém, nunca desliguei um telefonema na cara de uma pessoa e nunca retirei uma oferta de ajuda que tivesse feito a alguém - mas podem crer que já me apeteceu muita vez. Nem sei se isto é alguma virtude mas sei que muitas vezes é difícil.

"E então, onde queres tu chegar, quem são esses malandros contra quem estás a perorar?", perguntará alguém mais pachorrento. 

Olhem, estou tão cansada que só quero mesmo é chegar ao sono da noite. Os malandros de hoje serão os heróis de amanhã, os heróis de hoje serão tanta vez malandros amanhã!

Apeteceu-me simplesmente desabafar em público, que a idade é tramada e eu estou cada vez mais desavergonhada .

Hélas!

domingo, 18 de janeiro de 2009

Filosofia cavalar


Estive para aqui a matutar e cheguei à conclusão brilhante de que, ao contrário do que dizem, a vida não é um carrossel. A vida é um cavalo sem freio. Ora corre, salta e espinoteia ora anda indolente e lerda, ora pára e não há quem a arranque do mesmo sítio.

Com vontade, jogo de cintura e pernas e persistência, às vezes consegue-se que vá na direcção geral que se quer; mas nunca estamos livres de uma súbita mudança, por causa duns arbustos apetitosos…

Sim, porque a vida tem vontade própria, reage à sua maneira à paisagem que atravessa; e nós, a cavalo dela, que remédio temos senão ir para onde nos leva… E tentar, uma, e outra, e outra vez, levá-la para onde queremos ir.

Às vezes, é um entusiasmo enorme por se ter conseguido finalmente atravessar um bosque, uma alegria, um exultar! Outras vezes o cansaço e o desânimo levam-nos a apoiar a cabeça na crina farta e deixar a vida fazer o que quiser, sem querer saber que a ausência de acção é também ela uma acção…

Hélas!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O ano da graça de 2009


Eu não sei se de facto está, mas este ano parece enguiçado e ainda só vamos a meio de Januarius.

Uma vez houve uma bruxa numa feira que não me quis ler a mão, será que viu lá o ano da graça de 2009 e não me quis alarmar? Na altura pensei que a velhota se tinha esquecido dos óculos na roullotte e teve vergonha de o dizer, mas agora já nem sei.

Ando a faltar às aulas dos meus estudos superiores, será que chumbo ou passo administrativamente? Tenho que mandar um leitãozito ao júri, pode ser que ajude a tomar uma decisão, em vez de ficarem a olhar uns para os outros com ar de parvos.

Ora batatas, só coisas que me ralam.

Hélas!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Frio

Considerem por favor que hoje é ontem, dia 11...

Sopra um vento frio de Norte,
ou pode ser de Sul, sei lá,
Mas sei que sopra e que é frio.

Conduz as tombadas folhas
Num insensato bailado
vazio de sentido e de vida.

Gela o que pode gelar.
Varre o que pode varrer.
Mata o que pode matar.

Sopra um vento frio de Norte,
E eu que estou sem casaco!


Hélas!