quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Prateleiras


Sabem o que é mau, mesmo mau, uma coisa com que não me consigo reconciliar por mais que viva? É a falta de prateleiras.

Que diabo, uma pessoa com a compulsão incontornável de analisar, espremer até quase só ficar o conduto, catalogar e arrumar à espera de mais informação - sempre à espera de mais informação - devia ter prateleiras suficientes para tanta espera.

Adicionem a este vício o facto indiscutível de não ser capaz de deitar nada fora (mesmo que esse nada aguarde há 20 anos a informação suplementar que lhe permita mudar de prateleira - atenção! MUDAR de prateleira, apenas mudar! Só um tipo diferente de mim pode conceber que aquele precioso conduto, tão único, deixe de ocupar uma prateleira...) e podem perceber o meu problema.

Que chatice! Lá terei de fazer prateleiras no tecto e sorrir amarelamente a quem me goza por esta lixeirafobia.

Só coisas que me ralam.

Hélas!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Loucuras II


aqui o disse uma vez: o riso salva do desespero quem ri... O que é muito melhor e mais construtivo que um tipo se afundar na aflição de não conseguir dar a volta a determinada situação.

Não se sabe bem como resolver uma crise? Ora bem, o melhor caminho é rir destemperadamente do ridículo que é sabermos perfeitamente o que resolveria a situação - quiçá outras mais, um bónus; se calhar até evitava a crise, um desperdício na opinião de muitos: se se previnem os problemas não fica à vista a nossa habilidade de problem solver - e sermos absolutamente incapazes de o fazer.

Porque fazer o que é possível não resolve a questão, apenas a disfarça com medidas paliativas para AQUELA crise; e não estamos realmente dispostos a pagar um preço tão alto, cilindrar gente inocente mas apanhada na voragem, por cuidados apenas paliativos.

Há quem fique feliz por poder administrar estes paliativos; eu cá rio-me. É igualmente ineficaz para a questão e muito menos eficaz para a imagem que todos vendemos ao mundo; mas muito mais satisfatória para o meu feitio.

Quero lá saber se se riem de mim enquanto me rio destemperadamente: riso por riso, é o meu que me agita a barriga. O dos outros... Bem, é sempre bom trazer alegria ao mundo.

Hélas!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Aspirina


Preciso de verdade e de aspirina. [Álvaro de Campos]

Este tipo era um idiota masoquista mas eu identifico-me com ele.

Ora digam lá a que propósito uma pessoa normal vai em busca da verdade (armada com aspirina, claro, que toda a gente sabe que a verdade dói. Masoquistas sim, idiotas também mas estúpidos é que não) quando podia ficar tão quietinho e confortável, no doce colchão do engano? É que basta fechar os olhos!

Acho que isto é doença, só pode ser. É como aquelas comichões que a gente sabe perfeitamente que não deve coçar para a pele não ficar ainda mais dorida e frágil e mesmo assim, coçamos até a dor substituir a comichão. Aí, dizemos "Ohhh..." e pomos um creme calmante.

Arre! Que ainda agrafo os olhos e pronto, está o problema resolvido de vez. O colchão é tão bom...


Hélas!

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Velhice


Dizem que a velhice traz sabedoria e sensatez; sobre isso, ainda não formei opinião, se calhar ainda tenho de envelhecer mais um bocadinho.

Sobre o resto, o que noto é que cada vez sou mais lenta a mudar (a evoluir? A involuir?): aqui há uns anitos, quando relia pensamentos mais velhos que 6 meses, descritos pela minha própria mão, às vezes até ficava boquiaberta: como diabo eu tinha pensado/dito/escrito tal insensatez?!?

Hoje, releio escritos com mais de um ano e revejo-me. Concordo comigo própria. Pode lá ser?! Que andei eu a fazer tantos dias, cada um com tantas horas, se ao fim de um ano nem me movi uns centímetros?

Só coisas que me ralam.

Hélas!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O cego e o zarolho


Para quem não conhece a história, cá vai na versão rápida:

Estes dois apanharam um barco para a outra margem; por força da realidade, o cego ia remando, ao passo que o zarolho dava as indicações:

- Mais para a esquerda... Agora em frente...

Às tantas o cego dá uma remada em falso e acerta no olho bom do zarolho, que exclama:

- Arre, já está!

O cego, pensando que tinham chegado ao fim da jornada, apeou-se do barco e morreu afogado.
...
Às vezes, fico a pensar se o cego fez de propósito e foi a justiça poética das coisas que o tramou.

Hélas!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Há malta alegre...


O vizinho assobiou a avisar da sua presença, o que me deixou logo desconfiada - normalmente só dou por ele quando se ri alarvemente das minhas ralações.

- Podemos falar? - Disse ele, com ar simpático. O malandro sabe muito bem que nunca na minha vida me neguei a falar com quer quer que seja, em que situação for. Está careca de saber que penso que são as palavras a salvação da Humanidade mas só se houver quem oiça.

- Que queres?
- Quero saber se é verdade. Ouvi dizer que que andas para aí a arengar às massas que o Homem é um ser racional e intrínsecamente bom...
- É verdade. O Homem é assim. - Estou segura de mim própria, muito calma.
- Palavra? Mas então porque diabo anda esse tipo a matar-se a si próprio e a estrafegar as suas crianças com requintes de crueldade, há milhares de anos?!?

E esgueirou-se escada acima, a gargalhar desalmadamente. Há malta muito alegre. E são rápidos, a jarra que lhe atirei falhou por um triz.

Hélas!

domingo, 19 de outubro de 2008

Tecnologia


Nunca hei-de perceber a embirração ou a desconfiança pela tecnologia.

Tecnologia é o pau na mão do macaco, é a pedra na barriga da lontra, são os arranha-céus das térmites - cada um tem aquela que a sua capacidade de obrigar a natureza a servi-lo consegue.

Porque é que em vez de se zangarem com a tecnologia não se zangam com o espírito que usa a tecnologia para fins criticáveis? Bolas, não são as pistolas que matam pessoas, são as pessoas com pistolas que matam pessoas! E agora dizem-me que a culpa é das pistolas?!? Que bom, que fácil! Proibam-se as pistolas e acabam-se os homicídios...

Já pensaram que antes de haver pistolas se calhar matava-se mais facilmente e com menos consequências?... É que as pistolas não vieram sózinhas, com elas vieram também outras coisas, aquelas que hoje nos permitem saber que foram mortos os mortos, como foram mortos os mortos, bradar publicamente contra as pistolas que mataram os mortos. E nunca é possível obter uma coisa sem a outra.

Que diabo, acho que é mais do que tempo do Homem reclamar a sua responsabilidade, em vez de se esconder atrás dos meios.

Hélas!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O porteiro II


Como já se aperceberam ou não, dia 11 é dia de rimas cá no quintal.

O dia não tem nada a ver com nada - a tradição nasceu porque foi num dia 11 que pela primeira vez na minha já comprida vida submeti ao escrutínio público (ahahahah, o tipo mais bem escondido é apenas um ramo na densa floresta... O pior é que há quem se esteja a borrifar para a floresta mas conheça perfeitamente o ramo - incongruências do sec XXI, ora bolas...) a minha veia poética.

Desculpem lá, mas ser porteiro é tramado. Pior que ser porteiro só mesmo ser porteiro na própria porta: posso lá agora barrar a entrada a mim própria, mesmo que me apresente rota e lastimável?... Não, o melhor que posso fazer é rosnar "vá lá, desta vez passa, vê lá se da próxima pelo menos vestes roupa lavada..." e dar uma palmadinha semi-carinhosa nas minhas próprias costas.

Oiço um riso escarninho, vindo do andar de cima - o meu inquilino do primeiro andar diverte-se.

Hélas!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Manias


Se há coisa que me irrite em mim própria é a esta mania da análise => síntese => classificação. O impulso irresistível de por tudo em montinhos muito arrumadinhos, com uma etiqueta bem legível por cima: como se o mundo coubesse em etiquetas.

A este traço junta-se um estranho perfeccionismo: nem sonho ser realmente boa em tudo, limito-me a não fazer nada daquilo em que teria vergonha de assinar o meu nome por baixo - um ror imenso de coisas divertidas mas que me estão vedadas por ordem solene de mim própria, que é a mais alta autoridade que reconheço.

Juntem as duas coisas e verão o triste resultado: não tenho nada arrumado porque sei que o rosa velho não tem lugar no montinho do rosa barbie; e embora tenha uma etiqueta que diz suncintamente "ROSA", não há nada por baixo. Sabem, não tenho etiquetas suficientes para todos os tons de rosa que distingo diferentes e não há nenhum deles que não tenha um certo tom...

Suponho que o melhor é comprar uns óculos com lentes cor de laranja, talvez consiga arrumar algum montinho debaixo daquela etiqueta que diz "ESQUISITO".

Só coisas que me ralam.

Hélas!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Vencida mas não convencida


Conversar e discutir têm uma série de diferenças interessantes, já
aqui o disse uma vez. Acrescento agora outra coisa: conversar e discutir são tão diferentes como beber uma aguinha na mesa do café para matar a sede ou para entreter o descanso das pernas: uma é essencial á vida, a outra é apenas um agradável intervalo no que quer que a gente esteja a fazer.

Conversar é uma espécie de trânsito numa junção entre ruas: ora passas tu, ora passo eu, vamos contando à vez o caso que nos acode á mente e, qual ribeira indolente, traçam-se novos rumos e conhecem-se outras ervas mas tudo com a maior urbanidade - ora é a tua vez ora é a minha, ora é a daquele. É sempre uma via de sentido único - um conta e os outros ouvem.

Discutir é outra loiça. Levantam-se convicções, são desafiados credos e opções de vida, raríssimas vezes (que giro, isto é mesmo uma boa definição de discussão, acho eu...) há uma total consciência do que está em causa e que é simplesmente o facto de estarmos a desafiar mutuamente alicerces de personalidade.

Numa discussão apresentam-se argumentos que, com maior ou menor arte do discutidor, explicam e justificam a sua posição face à questão (claro que há uma questão, dahhh!) mas o que é realmente engraçado é que raramente os que discutem estão capazes de analisar fria e racionalmente os argumentos apresentados... Não, estamos normalmente demasiado ocupados a estruturar a defesa (defesa de que ataque?!? Não há ataque, há a introdução de novos dados, numa questão que para nós estava "arrumada" e agora, mas que chatice, pode estar novamente desarrumada...).

Já uma vez fui totalmente encostada á parede, numa discussão com um tipo impecavelmente calmo, gentil e racional: não mudei de opinião, claro, mas aprendi o verdadeiro significado da famosa frase "vencida mas não convencida": quer dizer que a nossa opção não tem bases racionais, estas foram construídas depois, como suporte.

Aprende-se sempre qualquer coisa, numa discussão, mesmo que seja sobre nós próprios.

Hélas!