segunda-feira, 30 de junho de 2008

Os outros

Porque é que as dores dos outros são sempre menores que as nossas, os trabalhos dos outros são sempre mais fáceis, mais simples e menos trabalhosos que os nossos, o empenho dos outros é sempre menor que o nosso?

Porque é que a competência dos outros é sempre menor que a nossa, as dificuldades dos outros são sempre mais pequenas que as nossas, os sacrifícios dos outros são sempre mais fáceis que os nossos e a sorte dos outros é sempre maior que a nossa?

Palavra que percebo muito bem porque é que a moral dos outros é pior que a nossa (se a gente a achasse melhor, seria essa a nossa, né?...) mas o resto não percebo. E vejo repetidamente o mesmo, até o detecto - socorro! - por vezes em mim própria, e não percebo. Que diabo, além de animais dotados de um saudável egoísmo, também somos supostamente racionais... Capazes de avaliar objectivamente um esforço, uma competência, um empenho... Ou não?

Aparentemente, não.

Hélas!

domingo, 29 de junho de 2008

Vida light

As coisas light, para mim, são problemáticas porque querem fazer-se passar pelo que não são... É como o café descafeínado: se é descafeínado, não é café; é uma bebida - às vezes bem boa! - com sabor a café e que se bebe quente mas não é café; porque diabo se intitula café?!?

Eu cá, quando como batatas fritas, não são light, trazem todas as calorias a que tenho direito (abro uma só excepção, a única que conheço: a Coca-cola Zero tem de facto o mesmo sabor da Coca-cola normal. Mas já não acontece o mesmo com a Coca-cola light, nem com a descafeinada, que são bebidas diferentes da Coca-cola embora se intitulem como tal).

Acho que embora fundamentalmente anti-fundamentalista, afinal sou fundamentalista em muita coisa. Completamente inflexível, mesmo...

E irrita-me sobremaneira que um produto pretenda ser uma coisa que não é, em vez de assumir a sua identidade própria... Tal qual como as pessoas, aliás. Irrita-me!

Hélas!

Aniversário

Acabo de chegar de um jantar de aniversário e estou triste.

Não tem nada a ver com a idade, tem a ver com o testemunhar de uma falta de capacidade de resposta de variada gente, o que (ai de mim) tem decerto a ver com o passar dos anos. A minha tristeza é também fruto do testemunho de certas maneiras de ser e de estar que, por serem de quem são, não me permitem o habitual e pacífico encolher de ombros com o comentário "É parvo/a!".

Não é este o momento nem o local para uma análise rigorosa dos motivos da minha tristeza, análise que vai ser necessária a bem da minha saúde mental; mas fazer isso aqui e agora e com os cuidados necessários a uma declaração pública seria pouco sensato. Mas posso dizer-vos que detesto estar triste por isto...

E posso dizer o seguinte: a idade provoca solidão. Seja por falta de capacidade de resposta a situações, seja por falta de independência, seja por falta de pachorra, seja pelo que for, provoca solidão. E sabem? Este tipo de solidão é muito difícil de ultrapassar. Porque já não se tem a natureza combativa de outrora, já não se tem os sonhos de outrora, já não se tem a vitalidade de outrora...

Espero morrer antes de eu própria ficar assim tão frágil, tão exposta, tão dependente! Mais do que a morte, o meu temor vai para a dependência da boa vontade de outros. Mesmo que ela exista, quiçá por ela existir...

Meu Deus! Acima de tudo, protege-me de não perceber e dá-me força para agir.

Hélas!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Reciclagem

A fruta caiu no chão e lá fica, a apodrecer. Nós olhamos para ela e ficamos tristes:

- Olha para aquilo! Tanta gente com fome e fruta tão boa, assim, desperdiçada!

Genuinamente tristes, genuinamente chocados, genuinamente revoltados com aquele desperdício.

Genuinamente alheios e inconscientes que há uma míriade de seres, esfomeados também, que se alimentam da fruta: formigas, pássaros, larvas. Todos eles se alimentam da fruta que caiu no chão e todos eles, meramente pela sua existência, contribuem para o nosso bem estar. Não são dos nossos, não existem:

- Olha para aquilo! Tanta gente com fome e fruta tão boa, assim, desperdiçada!

Hélas!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Reunião II

Há reuniões difíceis...

Já experimentaram ir determinadamente a uma reunião para fazer papel de palerma convicto? Para dizer com ar cândido que continuam a não saber a resposta a uma pergunta importante que vos foi feita e pela qual eles esperam há 3 semanas com alguma bonomia, além de lhes ter sido prometida uma resposta conclusiva nesta reunião em particular (ainda por cima sabendo nós que a resposta, seja ela qual for, não é a desejada)? Para, determinadamente, fazer de conta que não compreendem as suaves e perigosas críticas que tal comportamento acarreta, perante pessoas que respeitam?

Um conselho, se tal me é permitido: evitem enquanto for humanamente possível. É altamente desagradável e não se aprende nada com a experiência.

Quando não for possível de todo... Bem, as mulheres podem experimentar o meu método: olhem nos olhos o vosso interlocutor e digam simplesmente que lamentam mas não podem responder e que provavelmente a resposta não é a desejada. Aos homens não posso dar conselho: a dinâmica é completamente diferente e, sinceramente, eu não a compreendo; o melhor é não opinar.

Hélas!

Espantos

Hoje aconteceu um inesperado (para mim).

Eu esperava uma coisa e aconteceu outra, nada de estapafúrdio; o que me continua a espantar - tantos anos disto! - é que na realidade, eu não conheço as pessoas.

Julgo que sim mas os factos contradizem-me.

O acontecido não foi nada de grave nem de momentoso; apenas a consumação dos factos versus aquilo que eu julgava mais provável. Claro que "aos despois" há imensas teorias que justificam os acontecidos; mas permanece o facto incontornável de eu julgar que ia acontecer "isto" e na verdade o que aconteceu foi "aquilo".

O que me vale é que a vida e as pessoas nunca cessam de me espantar!

Hélas!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Arte

Sabendo eu que isto é um cliché sobre a maneira de ser das mulheres, não me importa: acho mesmo que, por vezes, não é tanto o que se diz mas como se diz, que faz a diferença.

A arte que eu gostava de dominar é a arte de dizer a um energúmeno que vá a um certo sítio de tal forma que ele me agradecesse as indicações.
A arte de dizer "Não" de forma que soe a "Sim" a quem ouve e só depois (isto, se acontecer de todo!) a pessoa se apercebe que aquele "sim" afinal tem todas as consequências de um "não".
A arte, não de enganar mas de convencer, que aquilo que a gente está a dizer é exactamente o que se queria ouvir, embora o resultado seja precisamente o mesmo que ouvir o que não se queria...

Isso existe, sabem? Eu já a vi a funcionar, mesmo à minha frente. Meu Deus, se calhar até já funcionou comigo e não me apercebi, como deve ser quando é feito com Arte (se calhar até alguém se apercebeu do efeito em mim, tal como eu me apercebi do efeito em outrém!...)!

Ah! O que eu gostava de dominar essa arte!

Hélas!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Egoísmo

Depois de algumas conversas interessantes - algumas, além de interessantes também um pouco surrealistas, um espanto... Aqui vai a minha douta opinião, com a habitual filosofia de trazer por casa:

Acho que é hora de aprender que o egoísmo - antes retratado como o demónio itself, depois como uma obrigação para com a nossa saúde física e mental, e por extensão, como consideração por aqueles de quem somos próximos - não é nem uma coisa nem outra.

É aquilo que nos permite sobreviver como indivíduo (um fim, senão nobre, pelo menos socialmente aceitável...) e que nos permite, quando o sacrificamos, adquirir um bem maior (atenção: maior, mas na nossa própria avaliação!).

Não é nem fonte essencial de equilíbrio nem moeda de celestial altruísmo: é apenas (mais uma!) ferramenta de que dispomos para conseguir o que queremos.

Seja lá o que for que queremos, na verdade a espécie humana dispõe de muitas ferramentas para o obter e muitas moedas para o trocar...

Hélas!

Filmes

Estive a ver um daqueles filmes americanos, cheios de acção, malta ginasticada em camuflado e granadas. Um entretenimento inofensivo.

Houve (no entanto e no entanto como de costume...) uma parte que me fez meditar: há um tipo a negociar com outro tipo a vida de um terceiro. É claro que discutem em dólares - o filme é americano - mas nem é isso que me prende, o avaliar uma vida em $$.

O que me prende a atenção é o "bom" conseguir discutir construtivamente com o "mau", argumentanto cêntimos, esforços, chantagem e esperança, tudo no mesmo cesto e conversando a conversa possível... Nem me interessa o resultado (é um filme!), o que me interessa de facto é a habilidade de conseguir falar e argumentar racionalmente num referencial que não é nosso (o "bom" é mesmo bom, não é um "mau" que por acaso está do nosso lado). Que arte! Que inveja dessa arte!

Hélas!

sábado, 21 de junho de 2008

Sábado

Hoje é sábado, dia de descanso. Obediente, cá estou eu descansando - todo o dia de pijama - que nem ir ao café fui porque cansa muito...

E sabe bem o descanso, com todos os interesses e esforços deliberada e determinadamente ausentes.

Só tenho pena que não haja um descanso de nós próprios, um dia de vez em quando em que nem para nós estivéssemos presentes...

Era bom, não era?

Hélas!