quinta-feira, 19 de junho de 2008

F*

Tiro-me das minhas próprias regras, porque estou furibunda. Danada. Zangadíssima. Além disso, se as regras são minhas, maior é o meu direito de as furar - nem há sequer quem note a diferença.

Conversa para aqui com este, conversa para aqui com aquela; estou furiosa e pronto.

Que diabo, ninguém f*. As pessoas fazem coisas - amor, engano, fuga, sonho, simples satisfação de necessidades, domínio, perda, desespero - mas ninguem f*. É um erro perpetuado pela liguística.

Revolto-me contra isso. Porque dizer f* referindo-se ao acto em si, quer apenas dizer que não somos capazes - ou não queremos - exprimir racionalmente o que nos vai na alma.

Não! Não, não, não e não.

Ninguém f*. Mas quase toda a gente sente alguma vez a necessidade de se esconder atrás dessa palavra e é claro que não estou a falar do tipo que falhou o prego e acertou no dedo.

Batatas!

Hélas!

terça-feira, 17 de junho de 2008

TV

Eu estava preguiçosamente a ver TV, mais precisamente, anúncios. Eu já disse aqui que gosto de anúncios, não já? Pois é verdade e estava a ver os ditos como quem vai a uma galeria de arte. Este é giro, mas que porcaria!, este é novo, nada de especial, mais um detergente milagroso, olha, tenho de experimentar isto... Estão a ver o espírito?

Depois houve um que me fez soerguer, espantada. Perguntei ao meu homem, pachorrentamente sentado ao meu lado, a aguentar galhardamente com aquela cangalhada, o normal num homem saudável que acompanha a mulher a uma galeria de arte abstracta:

- Mas tu já viste isto?!? 'Tá tudo doido?

Sobressalta-se o rapaz, tão repentinamente acordado de agradável modorra (em algumas pessoas, os anúncios têm um efeito comparável ao Xanax):

- O quê, o quê?
- Este anúncio, tu já viste isto?

É claro que entretanto, o tal anúncio já tinha acabado e a "caixa mágica" debitava agora as maravilhas de um sabonete qualquer.

- Que é que tem?!?
- O outro, pá, o anterior!
- Mas qual anterior? Estás a falar de quê?

Desisti. Aquela preciosidade tem de ser vista, contada não se aprecia devidamente... Mas vou contar aqui: aparece uma jovem bem-disposta, a explicar o novo programa de TV: uma vista de olhos sobre programas, para miúdos, ao ar livre, fazem muito melhor que estar metido em casa; de modo que, meus caros miúdos, passem as tardes de sábado a apreciar este programa fantástico, que descobre por vocês coisas maravilhosas que podem fazer ao ar livre.

Têm é de estar em casa, esparramados no sofá, para saberem o que poderiam ter feito ao ar livre se não estivessem esparramados no sofá a saber o que se pode fazer ao ar livre...

Não acham isto um achado?

Hélas!

domingo, 15 de junho de 2008

Sorriso

Ele sorri sempre.

Tem a sua vida e as suas penas; mas ouve sempre e sempre sorri.

Quando é procurado, exclama, encorajador: "- Olá!" e sorri. E ouve tudo, com ar calmo. A gente diz os ques e porques, aventa hipóteses, angustia-se; procura respostas, explica a possível causa das coisas; ele ouve e sorri, compreensivo, um sorriso doce que nega a solidão. É assim com muita (não toda, acho eu) gente.

Mesmo quando é inquirido, ele nunca nos diz da sua vida, não aventa hipóteses, não se angustia para nós, não explica nem responde; apenas sorri aquele seu sorriso.

Demorou muito tempo antes de eu perceber que ele apenas se protege, afasta-se da montanha russa que são as relações com os outros e, simpático mas prudente, esconde a sua distância nas esquinas do sorrir.

Agora que percebi, já não sou capaz de lhe expor as minhas dúvidas metafísicas, as minhas fragilidades, o mar alto de mim.

Ao fim de um tempo, ele pergunta-me, sorrindo o seu sorriso quente: "Andas zangada comigo?" e eu respondo, também com um sorriso: "- Não!".

E é verdade.

Hélas!

sábado, 14 de junho de 2008

Vida IV

A vida tem um mau hábito... Segue-nos por todo o lado!

A gente foge dela, barrica-se em ilusões, deita-se a supostos abismos... E a bicha segue-nos, fiel que nem um cão.

Fazemos fintas, enganamos tanto a esperança como o desespero, fugimos para a frente ou atacamos na retaguarda, acachapamo-nos resvés ao chão ou subimos ao mais alto mastro - mas a alimária lá está no nosso caminho, olhando para nós toda contente, a abanar o rabo.

E tudo aquilo de que se fugiu lá está com ela, igualmente contente, a abanar o rabo também.

Arre! Não há maneira de prender a dita a um poste, enquanto a gente tira umas férias e vai ali só um instante para ver uma coisa?! Era bom, poder deixar a bicha longe - mas segura - e quando voltássemos retomar calmamente a sua trela...

Hélas!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Amanhã

- Até amanhã!

Há um milagre de esperança, nesta confiança do amanhã, não há?

Confiamos que nada se vai passar que impeça o amanhã - o nosso, o de quem nos despedimos e o dos outros que conhecemos também, claro - de acontecer.

Temos a certeza de que nada de importante mudará amanhã. Amanhã será como hoje, com as mesmas coisas, as mesmas pessoas, os mesmos aborrecimentos, as mesmas alegrias. Enfim, o amanhã é um hoje adiado, apenas.

Sabemos que às vezes há surpresas, umas vezes boas outras más, normalmente más. Mas não interessa: mantemos uma confiança inabalável:

- Até amanhã!

Hélas!

Pessoas

Conheço algumas pessoas estranhas para mim.

Mansas, essas pessoas (cuidado com a fúria dos mansos, sussurra-me uma voz antiga, amada e já desaparecida) são gentis, avessas a confrontos.

Essas pessoas são para mim uma permanente fonte de espanto (leiam bem, por favor: de espanto, mais nada além de espanto). Pois são tão diferentes de mim! Ouvem, sorridentes, não expressam nem juízos nem conselhos. Aceitam, mansamente, o que lhes diz quem o diz. Não contrapõem nem sugerem. Respeitam integralmente a individualidade e o ponto de vista de quem lhes fala.

Não são tolas (longe, muito longe disso!). Não são cobardes. Não são estúpidas nem amorfas, raciocinam e têm opinião; só não a dizem se não for expressamente pedida e às vezes nem nessa altura...

Têm princípios, por vezes muito fortes, quiçá até mais fortes que os meus; mas não os expressam, muito menos em confronto com o que lhes é dito.

É tão difícil conhecer essas pessoas! O que pensam, de facto? Qual a sua opinião sincera sobre isto ou aquilo? Parecem sempre sorridentemente connosco, pacificamente connosco, solidariamente connosco... Embora nunca, ou quase nunca, de acordo expresso. E esta ausência de contraponto, justa ou injustamente, é quase sempre tomada por acordo. Como toda a gente sabe, quem cala, consente... E quem consente sem uma palavra não só consente como concorda, digo eu.

Mas tal acordo não é possível. Há coisas em que só nós próprios podemos realmente estar de acordo connosco... Porquê este silêncio, este assentir?

Só coisas que me ralam.

Hélas!

PS.: Lamento mas contrariamente ao habitual, os comentários de hoje só serão respondidos amanhã. É que estou com uma soneira que mal me deixa abrir os olhos e o escrutínio de outras sopas, outros tempos e outras razões merece mais que um bocejar ensonado... Pois se são a Sorte Grande!

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Destino

Sopra um frio, alheio vento
Bailam nos cantos folhas caídas;
Há nos becos um hino lento
Às gentes dos outros perdidas.
Cola-se ao duro cimento
O sofrer de tantas vidas;
Ouve-se ao longe o lamento
Das penas tão escondidas.
Não há quem ponha tento.
Não há quem seja Midas.
Não há quem dê assento
A verdades já tão lidas.
Quem faz um faz um cento,
Nunca saram as feridas.

Os sonhos, leva-os o vento.
Não vê as vidas morridas.

Hélas!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Show

O concerto tal, o ballet não-sei-quê, o espectáculo xpto... Acho que a páginas tantas deixamos de ir tanto a estas coisas porque já não servem... É como a história da bela adormecida: lindíssima, mas aos 40 já não nos diz grande coisa, embora continue a ser lindíssima...

Mas lindíssima já não chega.

Estão verdes, não prestam - diria a raposa - só cães as podem tragar. Mas acho que não é exactamente assim: num certo ponto do caminho, a maralha sabe e aprecia se estão mesmo verdes ou se é só despeito de quem não pode usufruir, verde ou madura; mesmo que sejamos nós a raposa.

Acho que muitas vezes, mesmo estando madura e ao alcance, há quem já não tenha fome desse fruto. Passou. Sumiu-se. Não há retrato mais fidedigno da idade que uma selectiva falta de fome.

Hélas!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Riqueza e Liberdade

Sim , pode-se dizer à vizinha, cujo marido está a morrer, que vai ficar mais livre. Mas só se ela perceber que ser mais livre é ser mais pobre...

Houve um santo qualquer (S. António? S. Francisco? Caramba, às vezes assusta-me a mim própria a minha falta de memória, o meu desinteresse pela precisão, o meu focus no conceito abstracto que tende a menosprezar coisas tão importantes como QUEM, QUANDO, ONDE!) que, consciente disto, determinou um verdadeiro voto de pobreza - não se podia ter nada, mesmo nada, além das vestes (irrelevante, fruta da época, a vista do corpo pode despertar/facilitar tentações indesejáveis) e da malga para comer o que fosse oferecido. De outra forma, nunca se poderia pertencer de corpo e alma ao ideal.

Era sábio, esse santo.

Aplica-se a posses materiais mas não só. E as outras, as imateriais (amor, respeito, amizade) têm cadeias muitíssimo mais fortes que um sofá ou uma TV. Não é mau nem é bom: é assim, simplesmente, como a gravidade.

Quem quer ser livre, verdadeiramente livre, não pode submeter-se a essas cadeias. E - ai de mim! - só nessa perfeita liberdade é que algumas escolhas podem ter lugar. O que é uma grande falta de liberdade, convenhamos.

Ora batatas.

Hélas!

domingo, 8 de junho de 2008

Queixas

Eu queixo-me. Muito.

Diz-me quem me conhece que estou sempre a queixar-me, como o Calimero.
Queixo-me do calor quando faz sol e do frio quando está de chuva. Queixo-me da vida, do inferno que são os outros e da danação que é não haver outros.

Queixo-me da falta de cabeça de quem nem as pensa e queixo-me de quem as pensa com falta de cabeça.
Queixo-me de quem decide (normalmente com uma perfeitamente evitável falta de conhecimento, mas isto já sou eu a queixar-me agora) e queixo-me de quem nada decide, com conhecimento ou sem ele.
Queixo-me de quem ama sem razão e de quem raciocina sem amor.
Queixo-me de quem não pensa no futuro e queixo-me de quem não pensa no presente. Ah! E queixo-me de quem não se lembra do passado.

Se bem percebo o que me dizem, queixo-me de tudo e de todos, da Vida, do Outro e do Existir.

Só para lhes fazer justiça, claro, vou agora queixar-me mais uma vez: acho que ninguém me percebe mesmo. Sendo quem sou, como querem que não me queixe de tudo?!? Se ninguém é como eu sou, ninguém pensa como eu penso, ninguém acha o que eu acho, ninguém vê o que eu vejo, ninguém ouve o que eu oiço?!? É que das duas, uma: ou me queixo ou me deito ao rio; como não tenho tendências suicidas, queixo-me. Muito, ao que parece.

Ah! Quem me dera não ser quem sou! Fui até ao campo com grandes propósitos / Mas lá encontrei só ervas e árvores, / E quando havia gente era igual à outra.* E como querem que não me queixe, se permanentemente e com grandes propósitos, me desloco ao campo e o que encontro são ervas e árvores? E quando há gente, afinal é igual á outra?!?

Queixo-me, é claro. Não do campo só ter árvores e ervas mas sim de ir ao campo e encontrar só ervas e árvores. Há uma diferença, nem por isso muito subtil.

Na realidade, do que me queixo é do que sou, não do que é quando eu sou. Mas isto é muito complicado de explicar (já viram o tamanho deste artigo?!?), é muito mais fácil queixar-me.

Não se percebe? Ora batatas, queixo-me eu.

Hélas!

*Tabacaria - Álvaro de Campos