terça-feira, 10 de junho de 2008

Show

O concerto tal, o ballet não-sei-quê, o espectáculo xpto... Acho que a páginas tantas deixamos de ir tanto a estas coisas porque já não servem... É como a história da bela adormecida: lindíssima, mas aos 40 já não nos diz grande coisa, embora continue a ser lindíssima...

Mas lindíssima já não chega.

Estão verdes, não prestam - diria a raposa - só cães as podem tragar. Mas acho que não é exactamente assim: num certo ponto do caminho, a maralha sabe e aprecia se estão mesmo verdes ou se é só despeito de quem não pode usufruir, verde ou madura; mesmo que sejamos nós a raposa.

Acho que muitas vezes, mesmo estando madura e ao alcance, há quem já não tenha fome desse fruto. Passou. Sumiu-se. Não há retrato mais fidedigno da idade que uma selectiva falta de fome.

Hélas!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Riqueza e Liberdade

Sim , pode-se dizer à vizinha, cujo marido está a morrer, que vai ficar mais livre. Mas só se ela perceber que ser mais livre é ser mais pobre...

Houve um santo qualquer (S. António? S. Francisco? Caramba, às vezes assusta-me a mim própria a minha falta de memória, o meu desinteresse pela precisão, o meu focus no conceito abstracto que tende a menosprezar coisas tão importantes como QUEM, QUANDO, ONDE!) que, consciente disto, determinou um verdadeiro voto de pobreza - não se podia ter nada, mesmo nada, além das vestes (irrelevante, fruta da época, a vista do corpo pode despertar/facilitar tentações indesejáveis) e da malga para comer o que fosse oferecido. De outra forma, nunca se poderia pertencer de corpo e alma ao ideal.

Era sábio, esse santo.

Aplica-se a posses materiais mas não só. E as outras, as imateriais (amor, respeito, amizade) têm cadeias muitíssimo mais fortes que um sofá ou uma TV. Não é mau nem é bom: é assim, simplesmente, como a gravidade.

Quem quer ser livre, verdadeiramente livre, não pode submeter-se a essas cadeias. E - ai de mim! - só nessa perfeita liberdade é que algumas escolhas podem ter lugar. O que é uma grande falta de liberdade, convenhamos.

Ora batatas.

Hélas!

domingo, 8 de junho de 2008

Queixas

Eu queixo-me. Muito.

Diz-me quem me conhece que estou sempre a queixar-me, como o Calimero.
Queixo-me do calor quando faz sol e do frio quando está de chuva. Queixo-me da vida, do inferno que são os outros e da danação que é não haver outros.

Queixo-me da falta de cabeça de quem nem as pensa e queixo-me de quem as pensa com falta de cabeça.
Queixo-me de quem decide (normalmente com uma perfeitamente evitável falta de conhecimento, mas isto já sou eu a queixar-me agora) e queixo-me de quem nada decide, com conhecimento ou sem ele.
Queixo-me de quem ama sem razão e de quem raciocina sem amor.
Queixo-me de quem não pensa no futuro e queixo-me de quem não pensa no presente. Ah! E queixo-me de quem não se lembra do passado.

Se bem percebo o que me dizem, queixo-me de tudo e de todos, da Vida, do Outro e do Existir.

Só para lhes fazer justiça, claro, vou agora queixar-me mais uma vez: acho que ninguém me percebe mesmo. Sendo quem sou, como querem que não me queixe de tudo?!? Se ninguém é como eu sou, ninguém pensa como eu penso, ninguém acha o que eu acho, ninguém vê o que eu vejo, ninguém ouve o que eu oiço?!? É que das duas, uma: ou me queixo ou me deito ao rio; como não tenho tendências suicidas, queixo-me. Muito, ao que parece.

Ah! Quem me dera não ser quem sou! Fui até ao campo com grandes propósitos / Mas lá encontrei só ervas e árvores, / E quando havia gente era igual à outra.* E como querem que não me queixe, se permanentemente e com grandes propósitos, me desloco ao campo e o que encontro são ervas e árvores? E quando há gente, afinal é igual á outra?!?

Queixo-me, é claro. Não do campo só ter árvores e ervas mas sim de ir ao campo e encontrar só ervas e árvores. Há uma diferença, nem por isso muito subtil.

Na realidade, do que me queixo é do que sou, não do que é quando eu sou. Mas isto é muito complicado de explicar (já viram o tamanho deste artigo?!?), é muito mais fácil queixar-me.

Não se percebe? Ora batatas, queixo-me eu.

Hélas!

*Tabacaria - Álvaro de Campos

sábado, 7 de junho de 2008

Amigos e Inimigos

Estamos em conversa com um amigo e, levados pelo ambiente, confessamos uma fraqueza ou uma dúvida daquelas pesadas. Dizemos mais umas coisas e de repente ele/a olha para o relógio e diz: "- Bolas, tenho de ir!"

No msn - vivam as novas tecnologias! - ainda é pior.

Confessamos, a custo e com grande sacrifício, uma fraqueza. Juntamos mais meia dúzia de frases inócuas - não vá o lado de lá supor que lá por confessarmos uma fraqueza somos mesmo fracos!, e ele/a responde: "- Desculpa, tenho visitas, falamos depois."

Nenhum inimigo faria isto! Raça de mundo, em que os inimigos são mais certos que os amigos!...

Os inimigos são muito mais confiáveis. Quando constatam uma dúvida ou uma fraqueza ficam lá, de pedra e cal, retendo o máximo que puderem da questão... Não têm nunca de ir jantar e estão a borrifar-se para os sobrinhos que chegaram; a nossa fraqueza é muito mais importante que essas ninharias.

Já sabem: se no meio de um tropeção na vida o vosso interlocutor disser que tem de se ir embora por uma razão qualquer, podem retirar esse tipo da lista de possíveis inimigos. Agora se fica ou não na lista de amigos, ah! Isso já é uma questão muito mais complicada...

Hélas!

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Conheço muitas mulheres, até sou amiga de algumas, poucas. Dessas poucas, quase nenhuma chega lá, o que não afecta em nada o grau da minha amizade por elas ou da delas por mim, acho eu.

Também conheço muitos homens (será que já disse aqui? Já ando por cá há alguns anos) e é a mesma coisa (nesse aspecto eles até são um bocadito melhor que elas, parece-me, embora possa estar redondamente enganada) poucos, muito poucos, chegam lá.

Parece haver na raça humana alguma dificuldade genética, no que diz respeito a chegar lá. Das outras raças não me pronuncio.

Não é questão de bondade ou maldade, também não é questão de berço de ouro ou de palha. Não me parece que tenha nada a ver com religião e definitivamente não está relacionado com a inteligência. Não, é qualquer coisa mais esquiva, mais indefinida, mais intangível.

Pode ter alguma coisa a ver com o feitio e idiossicrasias de quem nos cria, o que é manifestamente injusto mas também incontornável. Mas sabem? Acho que tem é a ver com genes, o que além de ser ainda mais injusto que as tais idiossincrasias, é ainda por cima também muito mais incontornável.

Com muito trabalho e perseverança, no entanto, conseguem-se estratégias e tácticas mais ou menos eficazes, apesar de nunca serem realmente a mesma coisa que quem sempre se conheceu assim, sem trabalho e sem esforço, naturalmente capaz de chegar lá...

Lá - onde estão aqueles que não pensam como nós, não sentem como nós, não têm os nossos valores nem os nossos traumas e não são, muito simplesmente, nós.

Ser capaz de calçar os sapatos alheios, andar os seus passos, ver com os seus olhos, sentir as suas dores, amar os seus amores... Ah! Não, não é para todos. Mas acho que se consegue, com esforço e perseverança. Um problema maior parece-me que é notar (ou saber, interiorizado, não ser isso uma mera possibilidade teórica) que há uma diferença entre o que "nós vemos" e o que "eles vêem" e depois, é claro, também é preciso querer ver o que eles vêem. Acho que é por isso que
pouca gente chega lá.

Já vermo-nos a nós próprios com os olhos deles... Olhar para a nossa cara com se fora a de outrém, ver as borbulhas, os pelos e as rugas com toda a clareza e com a mesma indiferença... Bom, isso tenham juízo, nem é possível sequer.

Mas há quem tente. Tentar é próprio do Homem.

Hélas!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Tu não ME morras.

Os ingleses têm esta frase, que eu adoro. D'ont you die on me! Todo um tratado de filosofia num simples pronome.

A morte não afecta quem morre, pelo menos não na nossa dimensão de vivos. Não, nessa dimensão, afecta quem continua vivo, mais livre e mais pobre. Meus irmãos de alma, por favor, por grande favor, aguentem-se à bronca e não me libertem.

D'ont you die on me! Nem se atrevam. Porque eu fico livre para fazer asneiras, porque são vocês quem me segura no caminho, porque são a razão primeira para eu recusar o abismo.

D'ont you die on me. Eu não quero ser livre e pobre de vocês; quero estar agrilhoada pela vossa existência e ser rica dessa presença. Quero impôr a mim mesma as peias do sentido da vossa existência. Aguentem o que for preciso aguentar mas, por favor, d'ont die on me...

Hélas!

Faladuras

Plagiando-me a mim própria de outro contexto, "a linguagem é uma fonte de mal entendidos* (esta frase lapidar implica boa fé, entre muitas outras coisas, valha-me S. Teotónio ou se calhar ficava mais bem servida com o Principezinho).

Há outras, claro; mas a raça humana prefere a linguagem, quando (des)comunica."

De forma agora mais original: porque será que a linguagem, nascida para comunicar melhor, afinal é ainda mais enganadora que tudo o resto? Acho que é por, melhor que tudo o resto, retratar tão bem a natureza humana: é confusa, falsamente precisa, emocional, indecisa, de significado egocêntrico, sujeita à concentração de sódio, potássio, hormonas, humores, suores e intensidade solar, entre outros factores.

E ao contrário do resto, valha-me S. Teotónio! aparenta racionalidade, frieza, especificidade. O que, pensando bem, até faz jus maior à sua natureza humana.

Hélas!

* O Principezinho (diálogo com a raposa) - Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 3 de junho de 2008

Dores

Pois é, neste mundo há dores à fartazana.

Muitas e variadas. Há a dor na unha do pé. Há a dor do filho que morreu. Há a dor de ser tarde para fazer o que se queria e há a dor de não se ter uns dentes perfeitos. Todas doem, muito, muito, a quem doem.

Sim, dores há muitas. Em geral, as nossas doem mais que as dos outros, sabe-se lá porquê, deve ser da sua natureza.

O que a gente às vezes se esquece quando as dores doem é que para os outros, somos nós os outros e as nossa dores doem menos. Que diabo, se nós mal sentimos as dores deles, como podem doer mais que as nossas?!?

Ora batatas! Já me doi a cabeça de tanta volta. Doi-vos alguma coisa, a vocês?

Hélas!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Blog

O som é sugestivo: uma bolha de ar que abre caminho lento, através de um fluido mais grosso que água e mais fino que barro, faz "bloggg" quando chega à superfície e finalmente rebenta.

É isto: bolhas de pensar e sentir a navegar pela sopa da vida e do tempo, vagarosas, teimosas, juntando-se ou separando-se de outras pelo caminho, navegam lentamente. De repente, bloggg... chegam à superfície da razão, fazem alguma espécie de sentido. Vêem a luz do dia, assumem a sua natureza e assinalam o fim da viagem. Já não podem navegar mais.

Se tiverem sorte, podem sujeitar-se ao escrutínio de outras sopas, outros tempos, outras Razões; mas para isso é preciso serem notadas no momento certo e por alguém que se dê ao trabalho, que não esteja farto, cínico, desiludido ou simplesmente cansado; esse alguém terá, ainda por cima, de lhes dar a conhecer o resultado do escrutínio pois ninguém levanta um prémio se não souber da sua existência. Isso é que é a grande sorte, um bilhete de lotaria que lhes permite mergulhar novamente e iniciar uma nova viagem, tornando possível (não obrigatória!) a mudança.

Mas normalmente isso não acontece. Após algum tempo, cristalizam ainda mais a sua natureza e, sem serem desafiadas, para lá ficam: desacompanhadas, indiscutidas e petrificadas. Às vezes é mesmo uma pena pois tinham potencial mas enfim, é o ritmo da vida...

A blogosfera não é mais que uma nova oportunidade de se exporem, de aumentarem as probabilidades de lhes sair a Sorte Grande. Um nome sugestivo, não acham? Bloggg...

Hélas!

domingo, 1 de junho de 2008

Vida III

Há momentos em que a vida é bela.

Miraculosamente desligados da infelicidade, de repente reparamos que o sol brilha, os pássaros cantam e as crianças riem. O céu é azul. No passeio ao lado, um cão abana o rabo, todo contente. Na janela do prédio próximo, é um gato que olha pacificamente para a rua, com um ar farto e satisfeito.

As nuvens, lá muito ao alto, animam o horizonte e são de uma pureza branca de quem nunca sonhou chuva. O ar é luminoso e alegre, a música que se escapa do altifalante do café afirma em surdina e melodiosamente a existência de amor. As árvores, de grosso tronco, comprovam anos de resistência e a rir por entre os seus ramos, há flores que espalham perfume e promessas de renovação.

Um pardalito olha com ar inquisitivo para nós e atreve-se a roubar da mesa uma migalha. Tudo aparenta paz e contentamento.

Sonhadores, olhamos em volta e o olhar prende-se repentinamente na TV: há gente a morrer de fome, sede, maldade e estupidez. O momento passou.

Hélas!