sábado, 31 de maio de 2008

O senhor André

Ia a andar e parei no meio do passeio, de repente: uma velhota de vestes pobres, já com alguma dificuldade a mexer-se, remexia na mala gasta. Encontrou e retirou da mala uma carteira que já tinha visto melhores dias. Dessa, retirou uma moeda (não vi qual, mas parece-me que todas lhe fariam grande falta) que entregou, com um sorriso amigável, ao velho pedinte que se lamenta a quem passa naquele lugar.

Com o sorriso, uma frase quiçá mais preciosa: "- Tome lá, senhor André (André? Zé? Tomé? Não tenho a certeza mas acabava em "é"). Hoje não posso dar mais". E seguiu à vida dela.

Ela sabe o nome dele. Eu que ali o vejo todos os dias, eu nem sabia que ele tinha nome. Uma pessoa tem nome, um pedinte é anónimo.

Ela deu o que obviamente lhe faz falta. Eu, a quem nada falta, nunca lhe dei nada.

O homem é muito velho. Não pode ganhar o pão nem ninguém lhe dará essa oportunidade, mesmo que ainda possa fazer qualquer coisa a troco de uma sopa quente, como convém a um Homem.

Tem de o pedir à solidariedade alheia. E esta manifesta-se numa mulher de vestes puídas e limpas, porque os outros, os vestidos de roupa em bom estado, estão com pressa - ainda é hora de expediente.

Voltei a andar; quando passei por ele, o homem não olhava a moeda na mão nem chorava aos passantes. Olhava para ela, ou melhor para as costas dela, com uma expressão indefinível. Fiquei de repente envergonhada, de mim, dos outros, da sociedade, da Vida. De tudo e de todos. Mas não dela, que sabe o nome dele e lhe oferece com um sorriso a bucha da ceia e o reconhecimento da sua condição humana.

Hélas!

Basbaque

Às vezes, fico embasbacada. Petrificada, congelada, imóvel, estupidificada, uma vítima completa da Medeia.

Uma das coisas que tem imediatamente esse efeito são algumas interpretações do que digo (ou escrevo, sejam actas de reunião, relatórios secos, resumos de intenções ou artigos de mal-dizer).

Por exemplo, se eu digo: "o céu estava de um azul muito escuro" e há alguém que me diz: "Concordo inteiramente consigo, a natureza humana não é de fiar" eu fico instantâneamente com olhos de carneiro mal-morto.

Outras vezes estou mesmo zangada e afirmo categóricamente ao energúmeno: "Essa acção não se faz!". E o tipo responde: "Pois eu cá acho que Fulano usa capachinho e ficava bem melhor sem ele". E eu fico automáticamente off. Hipnotizada. A pesquisar nos escaninhos da minha fraca memória quem é Fulano, se de facto será careca, e que raio tem isso a ver com o que eu disse (suponho que devo também ficar com uma expressão estranha, a julgar pelos olhares curiosos que obtenho nessas alturas).

Depois, no sossego da toca segura e na paz da escrita, tento perceber onde foi a bifurcação entre o que eu queria dizer e o que disse. E nem sempre consigo, raios partam esta dupla incapacidade.

Hélás!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Livre arbítrio

Provavelmente, este mundo seria mais atractivo para um grande número de pessoas se pudéssemos abdicar da liberdade e do livre arbítrio a favor de alguém paternal e benévolo. Para outros seria um inferno, claro.

E para mim, é este o cerne da questão: liberdade - com toda a infelicidade que acarreta mais todas as oportunidades possíveis - ou servidão - com toda a felicidade que traz mais as limitações intransponíveis?

Às vezes, acho que nos foi dada uma coisa que não só não merecemos como não somos capazes de aproveitar. E claro! muito humanamente, em geral culpamos o Dador pela dádiva. Nós somos uns pobres coitados, mas Ele, ah! Devia saber melhor... E ficamos todos contentes, afinal a culpa não é nossa.

Como acredito no equilíbrio, acredito que haverá alguém, algures, que nesta precisa altura enterra o desgosto, bate no peito, chama-me nomes e parte para outra. Abençoado, com ele parte a minha esperança na raça humana.

Hélas!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Nietzsche

Andei a olhar por aqui e ali, neste mesmo blog.

Meio desinteressada, só para relembrar o que já disse no passado para não me repetir demasiado - não há coisa mais aborrecida que quem vira o disco e toca o mesmo.

Às tantas, comecei a ficar interessada. Sobre o que disse, mais o que li e respondi a esse respeito, mais as perguntas que fiz sem resposta nenhuma ou com alguma, geralmente ao lado, fraca redacção a do perguntador. Sobre os assuntos tanto como sobre as tomadas de posição.

Chegei ao fim e pensei: "- Bolas, mac, tu não tens mesmo jeito nenhum para a coisa. Tivesses tu junto isto tudo num único volume semi-coerente, colavas os artigos com fita-cola e cuspo, e voilá!: tinhas nas mãos um livro de Filosofia que podias apregoar ser digno do Nietzsche. Seria chato e tolo, ninguém teria grande pachorra para o ler mas isso não fazia mal, também ninguém tem grande pachorra para ler esse gajo - ficavas em igualdade de circunstâncias para a maioria das pessoas, o que de facto seria um grande salto de status."

Safa! O que vale é que é em comprimidos pequenininhos, senão a seca já tinha morto a Couve. Se calhar até já matou e ela é que ainda nem se apercebeu, coitada, julga que ainda está em condições de ir para a panela... Acontece, e vergonha é roubar (sim, não é ser apanhado, que isso são boatos da reacção).

Hélas!

terça-feira, 27 de maio de 2008

Morte

Será a morte um ponto final? Ou um ponto parágrafo, que inicia uma nova idéia, uma nova vida?

A morte priva-nos de alguém ou de alguma coisa, sem dúvida. É uma perda.

Ao mesmo tempo liberta-nos da existência desse alguém ou dessa coisa que, se de facto era importante para nós, impunha fronteiras e limitava a nossa liberdade. É um ganho.

Sem as grilhetas e sem os limites, irá a raça humana a algum lado digno de nota? Ou simplesmente agora já pode dirigir-se a lado nenhum e mergulhar no doce abismo?

Caramba! Acho que está na hora do Xanax.

Hélas!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Razão

O Homem é um animal racional.

Isto quer dizer que tem a necessidade de compreender (mesmo inconscientemente, talvez sobretudo inconscientemente...) tudo mais o par de botas.

Quando a coisa nem sequer é razoável ou crível, ele inventa. Mas racionaliza tudo, torna as coisas lógicas, explica o inexplicável, sempre. Tem de ser, é a sua natureza.

Por isso é que a astrologia se intitula ciência, fundamentando o seu edifício na astronomia; por isso a superstição vai buscar "factos" que "provam" as suas teses.
Por isso é que ouvimos defender racionalmente os vícios (uma pessoa sem vícios não pode ser bom, há algo de errado com ela, é melhor ter os meus vícios).
Por isso é se acha mentalmente doente a pessoa genuinamente altruísta, que põe de facto um desconhecido qualquer, sem traços relevantes, à sua frente.
Por isso é que face a um qualquer facto do qual desconhecemos a razão, assumimos automaticamente a pior - egoísmo, aproveitamento, etc. - porque é a razão mais comum e portanto a mais lógica.

Nesse aspecto, aprovo completamente o catolicismo, que inicia o seu discurso com "Isto é assim, assim e assim. Não vale a pena tentares perceber ou discutir a questão - ou acreditas (acreditar é o contrário de compreender) - ou vai plantar batatas". Quem fala assim não é gago. Mesmo que depois comece a ga-ga-ga-guejar, quando explica o edifício construído em cima desse pilar.

Talvez outras religiões sejam assim tão frontais - não sei, a minha ignorância desse assunto é abismal - mas sei de outras que tentam explicar o inexplicável - e contra essas o meu ser e a minha razão revoltam-se.

A verdade é que actualmente há poucas coisas que sejam capazes de arrancar de mim uma reacção mesmo forte; tentarem fazer de mim estúpida é uma delas.

Aceito erros, mau julgamento, enganos. Aceito pacífica e invejosamente uma profissão de fé. Não consigo aceitar um logro sem me revoltar instintivamente.

Hélas!

domingo, 25 de maio de 2008

Equilibrio

Sempre pensei que a natureza - as gentes incluídas - tende para o equilibrio.

Eu explico: se há tipos de maldade fora do normal, que esquartejam criancinhas e riem com o seu choro, também há tipos de bondade fora do normal, que dão a camisa a desconhecidos com frio e ficam sozinhos a tiritar.

Toda a gente sabe que há malta intrínsecamente má: torturam seres vivos e retiram do seu sofrimento um gozo real. Nem toda a gente sabe mas é verdade que também há malta intrínsecamente boa: põem o bem estar dos outros à frente das suas necessidades básicas. É uma espécie de empate. É o equilíbrio a funcionar.

Mas não há equilíbrio individual. É como as estatísticas: o que é verdade para todos em geral não é necessariamente verdade para alguém em particular.

Lamento. Lamento profundamente.

Só nos resta suportar o mal que nos acontece com a consciência que algures estará a acontecer bem a outro. Fraca consolação, dirão vocês. É melhor que nenhuma, digo eu.

Hélas!

sábado, 24 de maio de 2008

Almoços e Futebol

Quem me conhece sabe a minha opinião. Não é contra o futebol em si - um desporto como qualquer outro, não jogo mas também não lhe tenho rancor, tal como o ténis ou o golfe... Não, o que tenho é contra o que tantas vezes acompanha o futebol - o clubismo, o sectarismo, o amor e o sofrer que deviamos guardar preciosos para quem nos é importante e que se dá sem olhar para trás a uns quantos marmanjos em calções que correm num relvado, a quem não se conhece mas por quem se tem sentimentos (como diabo se tem sentimentos por quem nem se conhece?!? Mas existem, ah! Existem mesmo e são fortes.)

Sim, não gosto do que o futebol tantas vezes representa. Um sentimento de pertença a quem nem sabe quem somos mas que joga com a nossa existência (os números são uma coisa poderosa). Um amor sem amado. Uma lealdade a uma tribo arbitrária (sim, eu não gosto de tribos, nem clubes, nem bairrismos, nem academias. Mesmo quando não são arbitrárias).

Mas tenho de lhe reconhecer uma coisa, tenho mesmo, a bem da minha integridade mental: preenche muito bem os silêncios difíceis.

Fui a um almoço importante. Queríamos, de forma simbólica, agradecer a alguém o nosso próprio sucesso. Queríamos que esse alguém soubesse que, mesmo que mais ninguém o fizesse, nós tinhamos consciência de que o seu trabalho tinha sido uma parte relevante do que nós tínhamos conseguido. O almoço era uma forma simples e despretenciosa de agradecer esse contributo.

A conversa do almoço foi futebol. Interessante para (quase) toda a gente, inócuo para a questão em palco, eficaz não-vazio no expressar de sentimentos importantes. Eu alinhei, claro - não tenho jeito para dizer a alguém que é, realmente e de facto, importante. Que as coisas não seriam tão boas para nós sem a sua maneira de ser, de estar, de trabalhar.

Já disse aqui? Eu não tenho jeito absolutamente nenhum para dizer "obrigada", quando de facto me sinto obrigada (totalmente diferente do "obrigada" social a quem nos serve uma bica que nós pagamos). Quanto mais real o sentimento, mais pareço uma mentecapta atrasada mental. Além de estranho e contrastante, é mais ou menos tão desconfortável como me sinto quando o digo a alguém (não quando o sinto).

Justiça me seja feita: durante o brinde, consegui sintonizar toda a gente, eu incluída: toda a malta queria fugir dali a 7 pés, desaparecer, sair daquela situação tão incómoda de tão desastradamente referida, meter-se num miraculoso buraco debaixo da mesa, tudo menos estar ali a assistir a tão desajeitado e constrangedor balbuciar... Para o resto do almoço, valeu o futebol, abençoado seja, nunca mais digo nada contra tão nobre desporto.

Mas é arte, este sintonizar de sentimentos entre gente tão diferente, não acham? Não é para todos, decididamente, colocar 5 ou 6 caramelos a sentir exactamente o mesmo que eu, em determinado instante. Olhem, sem falsas modéstias, sou uma artista de muito talento, neste domínio - não é menos verdade lá por ser só fugir desalmadamente o sentimento de que sou capaz de provocar. E mai' nada.

Hélas!

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Prole

Quem tem filhos tem cadilhos, diz a sabedoria popular (na verdade, só não me estou a borrifar para a sabedoria popular quando ela me dá razão - nessa altura passa de um chorrilho de disparates ignorantes para uma sabedoria antiga e venerável. Pois desta feita ouçam a sabedoria antiga e venerável!).

Os filhos são uma coisa tramada. Em novos tentamos orientar o seu desenvolvimento, fazer com que crescem orientados para Norte, por exemplo, enquanto eles parecem muito mais interessados no facto de haver 4 pontos cardeais... Depois de crescidos, pessoas responsáveis, a coisa é ainda mais difícil e insidiosa.

Porque devemos respeitar a sua individualidade - mas também devemos mostrar-lhes que estão a ser completamente mentecaptos por não seguirem o caminho que nós achamos melhor.

Devemos respeitar as suas escolhas - mas ao mesmo tempo temos a obrigação de informar aquelas tontas crianças prematuramente autónomas que nós sabemos muito melhor o que é bom para elas.

Devemos à prole o respeito natural que se tem por um adulto racional, inteligente, saudável e bem formado; mas também lhes devemos a demonstração de que não passam de fedelhos irresponsáveis a deitar fora a nossa sabedoria que é muito maior que a deles e foi tão duramente conquistada (espero bem que a minha mãe nunca leia nada disto, para não começar logo com o "Ah! Agora já percebeste?!?")...

A prole é a causa involuntária de insónias preocupadas e de escolhas condicionadas - que altruísta, não? Claro e a seguir a gente informa-os desses créditos que julgamos que temos mas que eles não pediram embora utilizem, já que a gente os colocou na mesa de jantar sem qualquer referência nem pedido de opinião, juntamente com as couves e o arroz que lá colocamos desde que a prole nasceu. Um fait acomplis...

Ora batatas! Viva a prole. Viva a afectuosa troça que fazem de nós e o salutar desrespeito pela nossa sabedoria.

Hélas!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Felicidade

Porque é que as pessoas não são felizes?

Andei a matutar no assunto e cheguei a uma conclusão: porque em geral, as pessoas (eu sou uma pessoa também...) querem o ovo inteiro (belo na sua casca intocada), as claras batidas em castelo (uma obra-prima do engenho humano), a gema batida com açucar (uma delícia muito nutritiva), a massa para o bolo (as crianças adoram) e o bolo em si (ideal para tantas situações). E só têm um ovo, tem de ser tudo com o mesmo ovo.

Claro que sabem que é impossível. Mas mesmo assim, lá atrás do cerebelo, num sítio muito, muito escuro, há uma voz que murmura: - Será que é desta que vou conseguir?

E como não é, a voz chora e as pessoas ficam infelizes. Independentemente do estado do ovo.

Hélas!